sexta-feira, 26 de dezembro de 2008


O estudante iraniano Majid Movahedi se apaixonou pela universitária Ameneh Bahrami quando ela promoveu uma campanha de doação de agasalhos à comunidade pobre onde ele morava. A paixão virou obsessão. Ameneh, 24 anos, não queria namorá-lo. Ele não se conformou, abordou-a na rua e lhe atirou ácido no rosto. A jovem ficou cega. Isso foi em 2004. Agora, Movahedi foi enquadrado anacrônica Lei de Talião - data de 1730 a.C e preconiza olho por olho, dente por dente. Ameneh aplaudiu a decisão. O tribunal islâmico ordenou que quatro gotas do mesmo ácido sejam despejadas em cada olho de Movahedi. Até a quarta-feira 17 a sentença não fora cumprida - ativistas de direitos humanos promoviam protestos. Ameneh considerou a decisão “uma vitória”.

Notícias do Congo

Já coloquei aqui um link para o blog de Carlos Alberto Junior, correspondente da TV Brasil na África (baseado em Angola).

No início do mês, Junior esteve no leste do Congo, onde ocorre uma das mais longas guerras civis do continente.

Nos links abaixo, é possível assistir a duas dessas reportagens:

Essa dá um panorama da situação geral do conflito:

http://diariodaafrica.blogspot.com/2008/12/um-conflito-na-repblica-democrtica-do.html

E essa outra, bastante interessante, fala sobre as vítimas da guerra:

http://diariodaafrica.blogspot.com/2008/12/as-vtimas-da-guerra-na-repblica.html

Cada uma tem cerca de quatro minutos de duração, e são altamente recomendáveis para quem quer ter uma noção do que é um conflito na África. Repare na parte em que o repórter é obrigado a subornar soldados congoleses com cigarros para poder prosseguir.

Muito lentamente, a imprensa brasileira vai descobrindo o manancial de pautas que é a África. A TV Brasil foi a pioneira em ter um correspondente no continente. A Record também acaba de abrir um escritório, na África do Sul. A Globo deve chegar em 2010.

Muito é por causa da Copa da África do Sul. Seria uma pena, e uma chance desperdiçada, se essas iniciativas começassem já com prazo para terminar...

Escrito por Fábio Zanin
Talebã ameça explodir escolas que aceitem meninas no Paquistão

Militantes do Talebã no vale do Swat, ao noroeste do Paquistão, ameaçaram matar meninas que freqüentarem as escolas da região.

A ameaça foi feita por um comandante local do grupo e transmitida por uma rádio pirata.

Os militantes deram um prazo até o dia 15 de janeiro para que os pais parem de mandar suas filhas à escola e disseram que o grupo irá explodir colégios que matricularem meninas.

As escolas para meninas já foram alvos de ataques diversas vezes. No entanto, essa é a primeira vez que o Talebã proíbe que as estudantes freqüentem as aulas.

Um porta-voz do grupo disse que a proibição permanecerá em vigor até que os princípios da sharia – conjunto de leis islâmica – sejam adotados por completo na região.

Educação

Neste ano, mais de 130 escolas públicas foram queimadas apenas no vale do Swat, deixando mais de 70 mil estudantes sem educação.

Essas escolas não são instituições religiosas islâmicas e ensinam disciplinas a partir do currículo sugerido pelo governo paquistanês. Por isso, são consideradas pelos insurgentes como símbolos do governo.

No comunicado transmitido no vale do Swat, o Talebã declarou que, além das escolas do Estado, as particulares também serão destruídas se matricularem estudantes meninas.

Moradores da região afirmam que os ataques nos colégios prejudicaram de maneira significativa a educação de jovens de ambos os sexos na região.

Aqueles que têm condições financeiras para deixar a localidade, se mudaram para outras regiões, mas a maioria pobre não tem outra opção senão manter suas filhas em casa.

Fonte: www.bbcbrasil.com.br

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Tupis-guaranis já estavam no Sudeste há 3.000 anos

Folha on line/JL


O povo tupi-guarani já vivia na região de Araruama (RJ) há 2.920 anos (a margem de erro é de 70 anos) --aproximadamente 1.180 anos antes do que as evidências científicas indicavam até hoje. A descoberta publicada nos "Anais da Academia Brasileira de Ciências" embaralha as teorias que tentam explicar a dispersão dessa cultura indígena, que teria começado na Amazônia.

A "nova" datação, deduzida a partir dos carvões de uma fogueira (provavelmente usada na queima de cerâmica), na verdade foi feita no final dos anos 1990. Justamente pelo fato de ser antiga demais, porém, a autora do estudo, Rita Schell-Ybert, do Museu Nacional, não acreditou que a fogueira pudesse ser obra de humanos, e acabou engavetando a análise.

O panorama só começou a mudar recentemente, quando surgiu um outro dado. A datação de uma outra fogueira, desta vez de origem funerária, no mesmo sítio arqueológico de Morro Grande, município de Araruama, mostrou que ela havia sido feita 2.600 anos atrás.

Os tupis-guaranis, diz Schell-Ybert à Folha, enterram seus mortos em urnas, mas ao lado eles fazem fogueiras --tanto para "espantar espíritos ruins" quanto para "aquecer a alma" do morto e prepará-la para entrar no Guajupiá (o Paraíso da mitologia tupi-guarani) .

"Com essa nova datação resolvi voltar ao estudo do final dos anos 1990", diz a cientista, que contou com recursos do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e da Faperj (Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro).

A hipótese de que aqueles carvões não tinham sido queimados por humanos acabou descartada. Uma das pistas que levaram a essa conclusão, explica a antropóloga, é a quantidade de cascas observadas nas amostras. "Quando a queima é de origem antrópica [humana], existe muito mais casca do que lenha, como foi visto", afirma.

Com as duas informações em mãos: a fogueira funerária de 2.600 anos e a fogueira doméstica de 2.920 anos, as evidências antropológicas de que os tupis-guaranis habitaram aquela região dos lagos fluminenses ficou mais robusta.

"Nesta área, provavelmente, houve um ciclo de ocupação e desocupação", explica. Mas se os tupis-guaranis chegaram ao atual Sudeste do país faz tempo, como eles poderiam ter deixado a Amazônia quase na mesma época, como mostram as evidências científicas disponíveis atualmente? Migração antecipada "Os resultados são bem surpreendentes. Eles complicam um pouco as coisas, talvez até nos levando a rejeitar uma origem amazônica dos tupis-guaranis" , afirma Eduardo Neves, antropólogo do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP.

Neves trabalha em Porto Velho (RO) tentando descobrir se o centro a partir do qual os tupis-guaranis se dispersaram era naquela região. Segundo ele, as datas potencialmente candidatas para as ocupações da Amazônia são as mesmas que as divulgadas agora para o norte do Rio de Janeiro, "ou até mais recentes".

Mas essas datações, diz o pesquisador da USP, são baseadas em dados lingüisticos e não arqueológicos. Para a pesquisadora do Museu Nacional, essa ocupação antiga dos tupis-guaranis no Rio, se não tira a importância da Amazônia como centro de origem desse grupo indígena, ajuda a mostrar, talvez, que a saída do norte do país começou bem antes do que se imaginava.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008


Oito em cada dez brasileiros nunca ouviram falar do AI-5

MAURICIO PULS
da Folha de S.Paulo
NATÁLIA PAIVA
colaboração para a Folha de S.Paulo

Editado há 40 anos pelo general Costa e Silva, o AI-5, o principal símbolo da ditadura militar, é totalmente ignorado por 82% dos brasileiros a partir dos 16 anos. E, dos 18% que ouviram falar algo sobre ele, apenas um terço (32%) respondeu corretamente que a sigla se referia ao Ato Institucional nº 5.

O então ministro da Justiça Luís Antonio Gama e Silva anuncia o ato AI-5 na Agência Nacional ao lado do locutor Alberto Cury

Editado em 13 de dezembro de 1968 pelo então presidente, o general Costa e Silva, o AI-5 autorizava o Executivo a fechar o Congresso, cassar mandatos, demitir e aposentar funcionários de todos os poderes. O governo podia legislar sobre tudo, e suas decisões não podiam ser contestadas judicialmente. Em dez anos, o AI-5 serviu de base para a cassação de mais de cem congressistas. A censura atingiu cerca de 500 filmes, 450 peças, 200 livros e 500 canções.

Passados quase 30 anos de sua extinção, a lembrança do AI-5 vem se desvanecendo. Como observa o cientista político Marcus Figueiredo, do Iuperj, isso resulta do fato de que boa parte da população nasceu após 1968: "O fato tem 40 anos e não faz parte do calendário das datas nacionais". Mas mesmo no estrato de pessoas com 60 anos ou mais (indivíduos que tinham ao menos 20 anos quando o AI-5 foi editado), só 26% dizem ter ouvido falar dele.

O conhecimento sobre o AI-5 cresce à medida que avança a escolaridade formal. Só 8% das pessoas com ensino fundamental ouviram falar do AI-5. A taxa sobe para 53% entre quem tem nível superior, mas só 12% desse grupo se diz bem informado.

Para o sociólogo Leôncio Martins Rodrigues, professor aposentado da USP e da Unicamp, "a variável decisiva é a escolaridade": "É natural que o desconhecimento exista. A população comum é muito desinformada sobre questões políticas. O pessoal mal lê jornal. Isso não é só no Brasil. Foi feita uma pesquisa com jovens da Alemanha, e a grande maioria nunca tinha ouvido falar de Hitler".

Na opinião do historiador Marco Antônio Villa, da UFSCar, a pesquisa não revela "nenhuma surpresa": "Nós somos um país sem memória e despolitizado. Se a política fizesse parte do cotidiano, isso não aconteceria. É um duplo problema. Isso permite que quem colaborou com a ditadura possa se travestir de democrata".

Para o historiador Carlos Guilherme Mota, da USP, a pesquisa do Datafolha é previsível e resulta de um ensino ruim, da falta de financiamento às universidades e da falta de interesse num projeto nacional calcado no conhecimento histórico: "Vivemos num país em que as elites não têm preocupação em incentivar a educação e a pesquisa histórica", diz.

Mais do que um fiasco do sistema escolar, a historiadora Denise Rollemberg, da UFF, diz tratar-se de um processo que envolve esquecimento e reconstrução da história: "No Brasil pós-abertura política, quando a democracia passa a ser valorizada, há uma reconstrução do passado a partir do presente. Nessa reconstrução esquece-se o que houve para esquecer-se do aval dado".

Daniel Aarão Reis, também da UFF, concorda. Diz que que sempre que uma sociedade muda de valores surge o desafio de compreender por que se tolerou a situação agora deixada de lado: "É muito mais simples não falar do assunto, esquecer".

Um sintoma de que o apoio à ditadura foi mais amplo do que aparenta transparece na pergunta na qual o pesquisador, após explicar o que foi o AI-5, questiona se Costa e Silva agiu bem ou mal ao editá-lo: 48% avaliam que ele agiu mal, e 26% acham que ele agiu bem. A pesquisa foi feita de 25 a 28 de novembro com 3.486 pessoas. A margem de erro é de dois pontos.

Evangélicos se articulam para dominar Legislativo

Karla Correia, JB Online

BRASÍLIA - Coordenador político da Confederação Nacional dos Evangélicos, o pastor Ronaldo Fonseca mostra, com orgulho, o estatuto do partido que pretende criar como representação política da Assembléia de Deus. Seu alvo é o Legislativo. Fonseca adota uma linha de pensamento que coincide em muito com a exposta pelo bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd), em seu último livro Plano de poder: Deus, os cristãos e a política – oportunamente lançado a poucas semanas do primeiro turno de votações das eleições municipais.

– A potencialidade numérica dos evangélicos como eleitores pode decidir qualquer pleito eletivo – prega o bispo Macedo.

A semelhança de idéias deixa clara a estratégia das diferentes denominações de igrejas evangélicas para recuperar sua bancada no Parlamento, fortemente abalada pelo escândalo dos sanguessugas – o esquema de fraudes em licitações na área da saúde desbaratado pela Polícia Federal, que culminou na prisão do ex-deputado Bispo Rodrigues, outrora responsável pela coordenação política da Iurd, mais uma série de parlamentares ligados à igreja. Na avaliação de estudiosos, o Parlamento é, para os evangélicos, uma fase necessária para cacifar sua bancada em direção a governos estaduais e, eventualmente, à Presidência da República.

Boa organização

Mesmo depois da punição pelas urnas em 2006, a bancada evangélica é avaliada pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar como um dos grupos suprapartidários mais organizados do Congresso. Estão representadas no Parlamento a Universal, a Igreja do Evangelho Quadrangular, a Assembléia de Deus, a Sara Nossa Terra e a Igreja Batista.

Têm presença forte nas comissões permanentes da Câmara, sobretudo na Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática, que cuida, entre outros assuntos, das concessões para emissoras de rádio e televisão, assunto caro para a Iurd, que escolhe entre seus candidatos radialistas e donos de concessões de meios de comunicação.

– Para eleger seus candidatos, toda a estrutura da igreja é acionada, sobretudo no caso da Iurd – explica o antropólogo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e especialista em religiões Ari Pedro Oro. Para ele, o desempenho do PRB, legenda com maior percentual de evangélicos no Congresso, é prova do poder do "carisma institucional" da Universal nas urnas.

Política no púlpito

– A Iurd inaugurou uma forma de fazer política que vem sendo copiada pelas demais denominações evangélicas e, mais recentemente, até mesmo pela Igreja Católica. Faz-se política no púlpito, prega-se a fidelidade e o voto no candidato escolhido pela cúpula da Universal. As outras igrejas a condenam, mas a imitam.

A Universal nega qualquer interferência na eleição de membros de sua comunidade. Por meio da assessoria de imprensa, a Iurd afirma que "não faz campanha política e tão pouco possui candidato".

"Membros ou freqüentadores que ingressam na carreira política o fazem por si só e assim, não sofrem nenhum tipo de influência da igreja em suas decisões" afirmou o presidente da área de Relações Institucionais da Iurd, Jerônimo Alves, por meio de nota.

De acordo com o pastor Ronaldo Fonseca, contudo, é para escapar da influência do que chama de "máquina eleitoral" da Iurd que a Assembléia de Deus pretende percorrer caminho próprio na política ao apoiar a legenda ainda em gestação, o Partido Republicano Cristão (PRC). Na avaliação do pastor, futuro presidente do partido, será possível aproveitar uma brecha da legislação eleitoral que permite políticos migrarem para siglas recém-criadas sem sofrerem punição.

– Neste cenário, será possível contar, já de início, com um corpo de 920 vereadores, nove deputados federais e 27 estaduais – acredita Fonseca. – É o suficiente para chegar em 2010 com uma máquina forte e competitiva, e com uma representação à altura da Assembléia de Deus.

Sem artífícios

Fonseca afirma que não usará os mesmos "artifícios" que, de acordo com ele, seriam adotados pela Iurd para eleger seus parlamentares – a campanha nos púlpitos, na porta das igrejas, a escolha dos candidatos de cima para baixo, pela cúpula dos bispos e imposta aos fiéis.

– A escolha de pessoas despreparadas acabou penalizando não só a Iurd como toda a comunidade evangélica – diz. – Foi esse o caso do Bispo Rodrigues. Vamos apostar em lideranças políticas autênticas, que emergem da comunidade por seus valores e seu talento, em vez de selecionar simplesmente entre quem tem mais influência entre o eleitorado.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Clique no Link.

ELVIRA LOBATO
da Folha de S.Paulo, no Rio

Em 30 anos de existência, completados em julho, a Igreja Universal do Reino de Deus construiu não apenas um império de radiodifusão, mas um conglomerado empresarial em torno dela. Além das 23 emissoras de TV e 40 de rádio, o levantamento da Folha identificou 19 empresas registradas em nome de 32 membros da igreja, na maioria bispos.

Entre elas, dois jornais diários --"Hoje em Dia", de Belo Horizonte, e "Correio do Povo", de Porto Alegre--, as gráficas Ediminas e Universal, quatro empresas de participações (que são acionistas de outras empresas), uma agência de turismo, uma imobiliária, uma empresa de seguro saúde.

A Iurd tem também sua própria empresa de táxi aéreo, a Alliance Jet, de Sorocaba (SP). Segundo informação da empresa, fatura cerca de R$ 500 mil mensais, tem três aviões, um deles adquirido por US$ 28 milhões, neste ano.

Segundo a Junta Comercial de São Paulo, ela pertence a Adilson Higino da Silva, bispo auxiliar de São Paulo, e à MJC Empreendimentos e Participações, a qual, por sua vez, pertence aos bispos Darlan de Ávila, Marco Antônio Pereira e ao mesmo Adilson.

Modelo acionário

O modelo acionário da Alliance Jet se repete em quase todas as empresas ligadas à Universal. Os jornais diários foram adquiridos na negociação de compra de TVs. O "Correio do Povo" --segundo jornal em circulação do Rio Grande do Sul, com um média diária de 155 mil exemplares-- fez parte do pacote que incluiu a TV Guaíba e duas rádios.

O negócio foi fechado no último carnaval, por cerca de R$ 100 milhões. O jornal foi comprado em nome da TV Record de São Paulo e do Rio.

São acionistas da Ediminas, que edita o jornal mineiro "Hoje em Dia", o bispo Marcelo Silva e o ex-deputado federal e ex-bispo Carlos Rodrigues. Segundo a Folha apurou, a editora recebe R$ 0,25 por exemplar para imprimir o jornal semanal da igreja, o "Folha Universal", que tem tiragem de 2 milhões de exemplares.

A relação entre a Igreja Universal e as empresas dos bispos é obscura. Muitas delas têm sede em endereços da Iurd. Um exemplo é a Cremo Empreendimentos, que funciona como um braço financeiro da igreja. Ela pertence à Unimetro (outra empresa da Iurd) e ao bispo João Leite. A Cremo é quem financia os bispos na compra de empresas.

Por trás da Unimetro está a Cableinvest, registrada no paraíso fiscal de Jersey, no Canal da Mancha. O elo aparece nos registros da empresa na Junta Comercial de São Paulo. Uma hipótese é que os dízimos dos fieis sejam esquentados em paraísos fiscais.

Troca-troca

Quando um bispo entra em atrito com a igreja, ou se envolve em escândalos --caso de parlamentares--, rapidamente, as ações mudam de mãos.

Foi o que aconteceu com o ex-bispo e ex-deputado federal Wanderval Santos (que pertencia ao PL de São Paulo), denunciado pelo Ministério Público por envolvimento com a máfia das sanguessugas. Depois que o escândalo veio à tona, ele deixou a igreja e vendeu as ações que possuía na Rádio Liberdade (de João Pessoa, Paraíba) e na Rádio Continental (de Florianópolis, Santa Catarina).

Como a maioria dos que perdem o posto, Wanderval não fala sobre o assunto, e protege a imagem da igreja. "Os homens podem ter seus erros, mas a igreja é santa", afirmou.

Procurado pela Folha, disse que vendeu as rádios porque "só dão prejuízo" e por ter se cansado da política, e que sobrevive como vendedor de seguros e de perfumes.

O ex-deputado Carlos Rodrigues deixou de ser acionistas de três TVs --Record do Rio, Itajaí e Xanxerê (SC)-- depois que se envolveu no escândalo do mensalão, mas ainda figura como sócio da Ediminas e também de quatro rádios.

Ele tem dado recados de que não pretende abrir mão das rádios. Procurado pela Folha, não quis dar entrevista.


sábado, 13 de dezembro de 2008

Uma vitória que a mídia transformou em derrota

Na área midiática, prossegue o esquema de linchamento do presidente venezuelano Hugo Chávez. De manhã cedo, logo no primeiro noticiário da TV Globo depois de conhecidos os resultados das urnas, a décima quarta eleição desde a ascensão do atual presidente venezuelano, a TV Globo destacava a mentira segundo a qual o Partido Socialista Unificado da Venezuela, capitaneado por Chávez, tinha sido derrotado.

Ao contrário, os seguidores do bolivarianismo obtiveram cinco milhões e 600 mil votos, ou seja, mais de um milhão e meio do que a oposição. O partido de Chávez ganhou 17 dos 22 governos de Estado, quase todos por ampla margem e ainda conquistou 80% das prefeituras. A mídia hegemônica, repetindo o seu exercício constante de manipulação da informação, no caso em questão de forma muito primária, andou “informando” que os pobres da Venezuela não votam mais em Chávez etc.

Apesar de não ter conseguido ficar com prefeitura metropolitana de Caracas por causas especialícissimas onde moram também setores de baixo poder aquisitivo, este caso foi apenas a exceção a regra, mas virou manchetona da TV Globo e outras de menor índice de audiência. Esqueceram (?) de dizer, por exemplo, que os bolivarianos ganharam de forma fragorosa a prefeitura do município Libertador e assim sucessivamente.

Do jeito que a eleição venezuelana foi noticiada a manipulação editorial fez com que parecesse que a eleição tivesse se limitado ao governo do Estado de Zulia, Táchira, Carababo, Miranda e a prefeitura de Caracas onde a oposição ganhou. Mas por aquelas bandas também o PSUV recuperou oito prefeituras e continuou hegemônico em outras cinco, dominando agora 14 dos 19 executivos municipais.

Em suma, os apoiadores de Chávez ficaram com 226 prefeituras, um crescimento maior do que em 2004, quando ganharam em 226 prefeituras.

As urnas não mentem
Em número total exato de votos, os chavistas ficaram com 5.504.902 votos, enquanto no plebiscito do ano passado tiveram 4.379.392 votos. Já a oposição ficou com cerca de 4.280.000 votos e no plebiscito do ano passado obteve 4.504.354 votos.

Mas apesar de tudo isso, veio a TV Globo e demais decretar que o “ditador”, da Venezuela foi derrotado.

O noticiário em torno da Equador na questão da Oldebrecht seguiu o mesmo caminho da manipulação, chegando ao cúmulo de colocar juntos um tal de Heráclito Fortes, do Demo, e Aloísio Mercadante, do PT, para esculhambar o presidente Rafael Correa pelo “crime” de defender os interesses do país que governa.

Claro, como Correa acabou de apresentar concretamente o que foi feito em matéria de auditoria da dívida externa equatoriana, confirmando falcatruas empresariais com a colaboração de maus governantes, a TV Globo ficou preocupada. Kamel, o autocensor da emissora de maior audiência do país ordenou aos editores para botarem as barbas de molho contra o “caudilho” equatoriano. De quebra ainda continuam chamando algumas figuras subservientes da área acadêmica para confirmarem o que interessa a Globo e ao Departamento de Estado norte-americano. Os colunistas de sempre fazem o resto.

Ah, sim: espiões benignos informam que Ali Kamel, diretor executivo de jornalismo da Vênus Platinada é quem dá a última palavra sobre o noticiário em torno do Governador de São Paulo, José Serra. A Casa dos Marinhos está desde agora apostando no tucano para suceder Lula. Por isso, Kamel foi destacado para cuidar da matéria. Prestem a atenção do que vem por aí daqui para frente até outubro de 2010.

Fonte: www.fazendomedia.com

Se essa moda pega aqui no Brasil...

Grécia vive nova onda de protestos violentos

A capital da Grécia, Atenas, viveu novos protestos violentos na noite deste sábado, uma semana depois do assassinato do menino Alexandros Grigoropoulos, de 15 anos, por um policial.

O crime provocou uma onda de protestos em várias cidades do país nos dias que se seguiram, que deixou pelo menos 70 feridos e mais de 200 presos.

Neste sábado, manifestantes lançaram pedras e bombas de petróleo contra um prédio governamental, uma delegacia, lojas e bancos. A polícia respondeu com bombas de gás lacrimogênio.

A violência, que também atingiu a cidade de Salônica, a segunda maior do país, começou depois que centenas de jovens - muitos da mesma escola onde o adolescente estudava - realizaram manifestações pacíficas contra o crime.

Um policial foi indiciado pelo assassinato de Grigoropoulos, e outro foi indiciado por cumplicidade.

A onda de protestos fez a oposição pedir a renúncia do governo. Mas o primeiro-ministro Costas Karamanlis disse que não iria se abalar pelas manifestações, alegando que o país precisa de uma liderança experiente neste momento de crise econômica.

Fonte: www.bbcbrasil.com.br

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008


“Eu participo, tu participas, nós participamos, eles lucram”


Meus senhores, é mesmo um problema
Esse desemprego!
Com satisfação acolhemos
Toda oportunidade
De discutir a questão.
Quando queiram os senhores! A todo momento!
Pois o desemprego é para o povo
Um enfraquecimento.
Para nós é inexplicável
Tanto desemprego.
Algo realmente lamentável
Que só traz desassossego.
Mas não se deve na verdade
Dizer que é inexplicável
Pois pode ser fatal
Dificilmente nos pode trazer
A confiança das massas
Para nós imprescindível.
É preciso que nos deixem valer
Pois seria mais que temível
Permitir ao caos vencer
Num tempo tão pouco esclarecido!
Algo assim não se pode conceber
Com esse desemprego!
Ou qual a sua opinião?
Só nos pode convir
Esta opinião: o problema
Assim como veio, deve sumir.
Mas a questão é: nosso desemprego
Não será solucionado
Enquanto os senhores não
Ficarem desempregados!

(Bertolt Brecht)

A frase que dá título a este artigo, uma das muitas escritas nos muros de Paris durante o maio de 1968, me veio à lembrança quando vi na TV o presidente Lula fazendo um apelo à população brasileira para que todos consumam. Ele disse mais ou menos assim: “se você deixar de comprar com medo de perder o emprego e não ter como pagar suas dívidas, saiba que é justamente ao não ir às compras que seu emprego fica ameaçado”. É como se o próprio trabalhador, no final das contas, fosse o culpado pela “crise” e suas conseqüências. E, como consumidor voluntário, tivesse a capacidade de participar da salvação da economia mundial.

O mesmo tipo de argumento aparece nas campanhas contra a dengue, nas quais a população vitimada pelo desmantelamento da saúde pública é culpabilizada pela epidemia. Economizando na contratação de profissionais de saúde, as campanhas estatais engordam ainda mais a mídia gorda com anúncios em horário nobre pedindo a participação de todos no combate ao mosquito. Uma espécie de cruzada na qual todos ganham, menos as vítimas preferenciais do aedes aegyptis. A mídia corporativa ganha com a venda de espaço publicitário e no incentivo fiscal por fazer serviços de utilidade pública. O governo se desincumbe do investimento na saúde. E as instituições financeiras têm garantido seu financiamento através dos repasses dos orçamentos públicos, cuja maior parte hoje está comprometido com o pagamento das supostas dívidas interna e externa, que jamais sofreram qualquer auditoria.

Enquanto uma quantia incalculável de dinheiro está sendo usada para salvar o mercado financeiro, vejo na telinha o governador de Santa Catarina pedindo doações voluntárias de água, comida e colchões. Mais uma vez, o espírito de solidariedade e o desejo de participação cidadã do povo perversamente manipulado pelos governantes títeres do capital.

Cada vez mais parasitário, o capital suga avidamente as riquezas produzidas por trabalhadoras e trabalhadores. Sua mão assassina está nas chamadas catástrofes naturais, cujo resultado em número de vidas humanas perdidas é a outra face da depredação da natureza e da falta de investimento na infra-estrutura capaz de impedir tais tragédias.

No mesmo dia em que as águas de um rio eram apontadas como algozes dos 84 mortos e milhares de desabrigados em Santa Catarina, páginas de notícias da internet anunciavam “Salários devem ser reduzidos em 2009”. Onde vai sangrar isso? Quem vai pagar essa conta? Certamente, de acordo com as manchetes a serviço dessa máfia internacional, serão aqueles que devem fazer a sua parte não reclamando da redução salarial, afinal, melhor isso do que o desemprego, ou o caos, como se já não vivêssemos num mundo insustentável econômica e eticamente.

Como todas as máfias, a do mercado financeiro precisa da sensação de insegurança para vender ordem e proteção. Afinal de contas, a vida sempre pode piorar. O que nos resta é fazer a nossa parte, vamos participando dócilmente, virando garrafas de cabeça para baixo, tirando água dos pneus velhos, consumindo o que não precisamos (a época é boa, afinal, estamos no Natal!), mandando colchões e mantimentos para os atingidos pelas chuvas, agradecendo por estarmos vivos.

Em meio à conclamação à participação popular no financiamento das desigualdades sociais, há os que desafinam e me fazem lembrar a bela frase de Walter Benjamin, filósofo marxista judeu que se suicidou para escapar do cerco nazista: “Nossa esperança são os desesperados”. Os supermercados saqueados por aqueles que perderam tudo mostram que o respeito à propriedade privada não pode se sobrepor à defesa da vida humana.

Comentários (2)

Ilustração: Nico
__________

> Adriana Facina é antropóloga, professora do Departamento de História da UFF, membro do Observatório da Indústria Cultural e autora dos livros Santos e canalhas: uma análise antropológica da obra de Nelson Rodrigues (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2004) e Literatura e sociedade (Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2004).

> Clique aqui para ler o arquivo de colunistas.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

clique no link



A Favela é a Senzala do Século XXI


Onde, realmente, está o crime organizado? Como podem os desapropriados, explorados e oprimidos se organizarem numa máfia? A questão do estado paralelo foi colocada em evidência por ocasião da morte de um jornalista, com a notícia de que ele foi sequestrado, julgado, condenado e morto por um bando. Isso, no Tribunal, foi considerado estado paralelo e, em cima, a colocação de crime organizado. Acredito que exista o estado paralelo, mas não é isso. A marginalidade não constitui estado paralelo.

A favela é um gueto que substituiu o local da senzala. É a senzala do século XXI, onde se situa a reserva de mão de obra, os negligenciados pelo Estado - reserva mantida pelo sistema de exploração. É aí que vamos tocar na origem da polícia, criada para fazer o controle dessa população. Em 1808, era o controle social dos escravos, agora é o controle dos favelados - os negligenciados.

Falemos do Rio de Janeiro, porque fica mais específico. A tendência aqui é jogar para as áreas de exclusão a prática do crime organizado e o estado paralelo. Estado paralelo é aquele que dá enfrentamento ao Estado e modifica as suas decisões. Aquele bando que existe lá no Morro do Alemão não tinha condição de fazer isso. Eventualmente, uma quadrilha identificou um repórter que atravessava informações. Ela o considerou inimigo e o executou. Assim, fica mais explícita a tendência de jogar para as áreas de exclusão a prática do crime organizado. Ao se falar em Estado paralelo, aqui no Rio de Janeiro, estamos falando, por exemplo, na Fetranspor (Federação das Empresas de Transportes de Passageiros). Ela, sim, enfrenta e impõe suas decisões ao governo. Ela coloca oito mil ônibus nesta cidade, que não têm capacidade para isso.Todos os poderes do Estado se submetem à sua vontade. Mantém o controle do Metrô e de todo o transporte urbano no Estado do Rio de Janeiro, para fazer sua frota circular, independente de que isso contribua, ou não, para melhor qualidade de vida do cidadão. No Rio de Janeiro é constante o congestionamento, porque fazemos transporte urbano de massa em ônibus, o que é inadmissível numa metrópole.

A Fetranspor sempre atuou com força decisiva dentro da Assembléia Legislativa e nos demais poderes do Estado, inclusive no Poder Judiciário. Também em Brasília ela mostra suas garras. É a esta capacidade de agir que eu chamo poder paralelo. O criminoso comum não tem esta capacidade financeira e de organização.

"Ah! Ele está no tóxico, no narcotráfico, tem muito dinheiro."

É outra inverdade. O narcotráfico vem sendo usado como senha para fazer o controle social, em todo o país. É simples. Se o pessoal da favela tivesse mesmo o poder e a quantidade de dinheiro que dizem, faria o controle de fora, mas aquele varejista que controla a droga fica na própria favela. Ele nem sabe para que trabalha.

O jogo do bicho está infiltrado em todos os Poderes constituídos!

Um dos crimes organizados no Brasil, não só no Rio de Janeiro, é o jogo do bicho. A definição que temos de crime organizado é: primeiro, ser cartelizado. No Rio de Janeiro, o controle do jogo do bicho na zona oeste é da família do Castor de Andrade, o da área da Tijuca é do Haroldo da Tijuca, em Nilópolis reina o Anísio Abraão Davi, em Niterói são outros.

Segundo: o jogo do bicho existe em nível nacional. O Estado da Bahia dá descarga para a família do Castor de Andrade, o Acre faz a descarga com o Luizinho da Imperatriz, o de Minas Gerais faz a descarga no Anísio, e por aí vai. O jogo é controlado e organizado em nível nacional.

Terceiro: este crime está infiltrado nos poderes constituídos. Ele elege a representação política dele dentro da Assembléia Legislativa, da Câmara dos Deputados e da Câmara dos Vereadores. Banca campanhas voltadas para o Poder Executivo. No geral, ele tem influência em todos os poderes, inclusive no Judiciário. Porém, nos estados do Norte e do Nordeste a miséria é tanta que ele não consegue nem chegar. É uma situação diferenciada, mas no Sudeste e Leste ele tem peso.

É bem visível no Carnaval, a presença do crime organizado no poder constituído: a Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro), a liga que eles montaram, é a direção do jogo do bicho, do crime organizado. Ela aluga o espaço público, o Sambódromo - a direção do crime organizado é parceira do Estado. Aí está a característica do crime organizado. Nós vamos ver o prefeito do Rio de Janeiro com colete, em que de um lado está escrito Riotur e do outro Liesa. É o crime organizado bancando e organizando o Carnaval do Rio, o maior evento turístico do país!

O jogo do bicho opera com o homicídio, é mantido pelo sangue!

O jogo do bicho não é um negócio inocente. Todo mundo acha que não tem problema nenhum, até a vovozinha joga. Não é isso, não! O jogo do bicho é mantido pelo sangue. Numa área determinada, ninguém faz concorrência, porque no dia seguinte vai ser morto. O jogo do bicho opera com o homicídio, o mais grave dos crimes que existe para o homem.

A desculpa do administrador público incompetente é que o crime organizado está na favela. Favelado não constitui crime organizado, mas bandos. Lógico, tem bando lá no Alemão, no Jacarezinho, mas esse pessoal não é cartelizado.

"Ah ! Tem Comando Vermelho, tem Terceiro Comando!"

Mas eles se engalfinham. Eles se enfrentam permanentemente - diferente dos banqueiros do bicho que não se enfrentam, nem delatam o outro. O Disque Denúncia vive em função da delação que o Terceiro Comando faz do Comando Vermelho e vice-versa. Para justificar a incompetência, eles dizem que os bandidos do Rio de Janeiro estão vinculados com os bandidos de São Paulo.

Só quem não conhece a polícia acredita nisso. Pode, eventualmente, um marginal do Rio ter relação com outro de São Paulo, mas isso não quer dizer que seja um nível de relação de organizações criminosas. Em São Paulo, eles acabaram com a direção do PCC (Primeiro Comando da Capital). Acabou o PCC. Onde está a direção aqui do Rio?

O que acontece no Rio de Janeiro? O chamado crime organizado é mantido pela organização que existe dentro do próprio Estado. É a própria polícia que mantém isso. Uma boa parte da polícia do Rio de Janeiro é corrupta! Essa afirmação não constitui novidade. Basta procurar nos jornais nos últimos três meses. É essa polícia corrupta que mantêm o narcotráfico no Rio de Janeiro. Não só as polícias civil e militar do Rio de Janeiro mantêm os pontos do narcotráfico do Estado, mas também a Polícia Rodoviária Federal e a Polícia Federal. O aparelho de repressão do Estado do Rio de Janeiro é corrupto de tal forma, que concorre com ele mesmo.

Este é o problema que ninguém quer tocar: o Estado brasileiro é um Estado altamente corrupto! Só este Estado corrupto pode manter o sistema capitalista, porque a corrupção é inerente ao sistema capitalista. Então fica tudo em casa. Essa polícia corrupta não vai tocar no rico, pôr o burguês na cadeia; não vai investigar o dinheiro desviado do Fisco e do Tesouro; tampouco vai investigar o Estado por dentro. É o grande acerto de contas que existe. Quando falo Estado Brasileiro, estou falando de Poder Executivo, governador, prefeito, presidente da República, seus secretários e ministros; do Poder Legislativo, Câmara Federal, Senado, Assembléia Legislativa e Câmaras de Vereadores, Poder judiciário e todos os tribunais.

A função desse Estado é arrecadar dinheiro: uma parte vai para a classe dominante fazer a sua manutenção e o restante é gasto no controle dos negligenciados. Não vê isso quem não quer! Quando a "mídia" fala em crime organizado e estado paralelo nas áreas de exclusão ela está desinformando o
povo. Não é lá que eles estão!

Hélio Luz foi deputado estadual pelo PT na última legislatura, não aceitando renovar sua candidatura. Foi Secretário de segurança do Governo do Estado, prestando inúmeros e corajosos depoimentos sobre a truculência e corrupção no aparato policial.

http://www.pt.org.br/portalpt/index.php?option=com_content&task=view&id=72465&Itemid=201

Clique no Link.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Conversações com Hugo Chávez e Raúl Castro

Em uma visita realizada a Venezuela e Cuba, em outubro deste ano, o ator e cineasta Sean Penn conversou demoradamente com Hugo Chávez e Raúl Castro. Ao final da entrevista com Castro, ele reflete: "a maior parte das questões básicas sobre soberania nos permitem entender o antagonismo norte-americano contra Cuba e Venezuela, assim como contra as políticas desses países. Eles sempre tiveram só duas escolhas: serem imperfeitamente nossos ou imperfeitamente deles mesmos".

Data: 01/12/2008

O ator e cineasta Sean Penn visitou Venezuela e Cuba, em outubro deste ano, quando se econtrou com os presidentes dos dois países, Hugo Chávez e Raul Castro. Ele relatou essas conversas em um artigo publicado no The Nation.

Joe Biden, que em breve seria eleito vice-presidente, falava vigorosamente para as tropas: “Não podemos mais ser dependentes de energia de um ditador da Arábia Saudita ou da Venezuela”. Bem, eu sei o que é a Arábia Saudita. Mas, tendo estado na Venezuela em 2006, visitando favelas, me misturando com a rica oposição e passando dias e horas com os apoiadores do presidente, eu me pergunto, sem me perguntar, a quem o Senador Biden estava se referindo. Hugo Chávez Frias é o presidente democraticamente eleito da Venezuela (e por democraticamente eleito eu quero dizer que ele foi repetidas vezes apresentado perante os eleitores em eleições reconhecidas por observadores internacionais e obteve larga vantagem de votos, num sistema que, apesar de seus defeitos e irregularidades, permitiu aos seus opositores que lhe atacassem e ocupassem o seu cargo, tanto no referendo nacional no ano passado como nas recentes eleições regionais no último novembro).

As palavras de Biden foram do tipo de retórica que nos levou recentemente a uma guerra com perdas de vida e de altíssimo custo financeiro, a qual, enquanto derrubou um patife no Iraque, também derrubou a maior parte dos princípios dinâmicos sobre os quais os Estados Unidos foi fundado, intensificando o recrutamento para a AlQaeda e desconstruindo as Forças Armadas dos EUA.

Nestas alturas, em outubro de 2008, eu já tinha digerido minhas primeiras visitas a Venezuela e a Cuba e o tempo que passei com Chávez e com Fidel Castro. Tenho estado cada vez mais intolerante com a propaganda. Apesar de o próprio Chávez ter uma queda pela retórica, esta nunca foi causa de uma guerra. Esperando “desmitificar” esse “ditador”, decidi lhe fazer uma outra visita. Nesse momento eu tinha dito a amigos, privadamente: “É verdade, Chávez pode não ser um homem bom. Mas também é possível que seja um grande homem.”

Entre os amigos a quem disse isso estavam o historiador Douglas Brinkley e o colunista da Vanity Fair, Cristopher Hitchens. Esses dois se complementam perfeitamente. Brinkley é um intelectual sólido, notável, cujo código de ética de historiador lhe assegura adesão suprema a evidências arrazoadas. Hitchens, um ardiloso operador de palavras, sempre muito imprevisível em suas preferências, é elemento insuspeito sob qualquer ponto de vista, já que uma vez, num programa de televisão, referiu-se a Chávez como um “palhaço rico em petróleo”. Ainda que eu pense que Hitchens é tão brilhante como íntegro, ele pode ser combativo ao ponto de agredir, como o fez uma vez com comentários pesados sobre a santa ativista antiguerra Cindy Sheehan. Brinkley e Hitchens equilibrariam qualquer viés em minha escrita. Além disso, são dois caras com quem tenho muita alegria e por quem tenho muita afeição.

Então, pedi a Fernando Sulichin, um velho amigo argentino e produtor independente de cinema, muito bem relacionado, que ele conseguisse uma entrevista com Chávez. Além disso, queríamos voar da Venezuela a Havana, e eu pedi a Fernando que solicitasse, em meu nome, entrevistas com os irmãos Castro, mais urgentemente com Raúl, que tomou as rédeas do poder de um Fidel doente em fevereiro – e que nunca tinha dado uma entrevista a um estrangeiro. Eu tinha viajado a Cuba em 2005, quando tive a grande sorte de encontrar Fidel, e estava ávido por uma entrevista com o novo presidente. O telefone tocou às duas da tarde do dia seguinte: “Mi hermano”, disse Fernando. “Está feito”.

Nosso vôo de Houston a Caracas atrasou devido a problemas mecânicos. Era uma da manhã e, enquanto esperávamos, Hitchens dizia, andando, impaciente: “muito raramente só uma coisa dá errado”. Ele deve ter gostado do jeito que soou, porque disse de novo. Ele era o pessimista de Deus. Eu disse: “Hitch, vai dar tudo certo. Vão nos arranjar um outro avião e chegaremos lá a tempo”. Mas o pessimista de Deus é na verdade o ateísta pessimista de Deus. E eu seria lembrado depois da clareza desse ateísmo. Alguma outra coisa ia na verdade dar errado. Bem, errado ou certo, como você dirá. Em duas horas estávamos chegando.

Quando aterrissamos no aeroporto de Caracas, Fernando estava lá para nos receber. Ele nos levou a um terminal privado, onde esperamos pela chegada do Presidente Chávez, que nos levaria numa agenda eleitoral da campanha para governador na bela Ilha Margarita.

“A Doutrina Monroe tem de ser quebrada”, disse Chávez. “Nós estamos presos nela há mais de 200 anos".

Passamos os dois dias seguintes na companhia constante de Chávez, com muitas horas de encontros privados entre nós quatro. No compartimento privado do avião do presidente, achei que quando se trata de baseball o domínio do inglês de Chávez aumenta. Quando Douglas pergunta se a Doutrina Monroe deveria ser abolida, Chávez, querendo escolher suas palavras cuidadosamente, verte-as para o espanhol para detalhar as nuances de sua posição contra essa doutrina, que justificou a intervenção norte-americana na América Latina por quase dois séculos. “A Doutrina Monroe tem de ser quebrada”, ele disse. “Nós estamos presos nela há mais de 200 anos. Isso sempre nos traz de volta o velho confronto de Monroe versus Bolívar. Jeferson costumava dizer que a América deveria engolir uma a uma das repúblicas do sul. O país em que você nasceu baseou-se numa atitude imperialista.”

A inteligência venezuelana diz-lhe que o Pentágono tem planos para invadir seu país. “Eu sei que eles estão pensando em invadir a Venezuela”, diz Chávez. Parece que ele vê a destruição da Doutrina Monroe como medida de seu destino. “Ninguém vai mais chegar aqui e explorar nossos recursos naturais”. Ele está preocupado com a reação norte-americana às suas declarações ousadas sobre a Doutrina Monroe? Ele cita o militante uruguaio pela liberdade José Gervasio Artigas: “Com a verdade eu não ofendo nem temo”.

“Qual a diferença entre você e Fidel?” Chávez diz, “Fidel é um comunista. Eu não sou. Eu sou um social-democrata. Fidel é um marxista-leninista. Eu não sou. Fidel é um ateísta. Eu, não.

Hitchens estava sentado quieto, tomando notas ao longo da conversa. Chávez reconhece uma centelha de ceticismo nos seus olhos. “CRIS-tó-fer, faz-me uma pergunta. Faz a pergunta mais difícil!”. Eles trocaram um sorriso. Hitchens diz: “Qual a diferença entre você e Fidel?” Chávez diz, “Fidel é um comunista. Eu não sou. Eu sou um social-democrata. Fidel é um marxista-leninista. Eu não sou. Fidel é um ateísta. Eu, não. Um dia discutimos sobre Deus e Cristo. Eu disse a Castro que sou um cristão. Eu acredito nos Evangelhos Sociais de Cristo. Ele, não. Simplesmente, não. Mais de uma vez, Castro me disse que Venezuela não é Cuba e que não estamos nos anos 60”.

“Você vê”, diz Chávez, “a Venezuela deve ter um socialismo democrático. Castro tem sido um professor para mim. Um mestre. Não em ideologia, mas em estratégia”. Talvez ironicamente, John Kennedy é o presidente dos EUA favorito de Chávez. “Eu era um menino”, ele disse. "Kennedy era a força motriz das reformas na América”. Surpreso pela afinidade de Chávez com Kennedy, Hitch entra na conversa referindo o plano econômico para a América Latina de Kennedy, contra Cuba. “A Aliança para o Progresso era uma coisa boa?” “Sim”, diz Chávez. “A Aliança para o Progresso era uma proposta política para melhorar condições. Foi pensada para diminuir as diferenças sociais entre culturas”.

As conversas entre nós quatro continaram em ônibus, comícios e inaugurações em toda a Ilha Margarita. Chávez não cansa. Ele falava com cada novo grupo de pessoas por horas debaixo de um sol a pino. Dorme no máximo 4 horas por noite, gastando a primeira hora de sua manhã lendo as notícias do mundo. E, uma vez de pé, ele é incansável, a despeito do calor, umidade e das duas camadas de camisetas vermelhas revolucionárias que ele veste.

Eu tinha três motivações centrais para essa viagem: incluir as vozes de Brinkley e de Hitchens, aprofundar meu entendimento de Chávez e da Venezuela e estimular minha mão de escritor e me engajar pelo apoio de Chávez para que os irmãos Castro encontrem a nós três em Havana. Ainda que Fernando tenha me assegurado que essa terceira peça do quebra-cabeças estava encaixada, houve algum mal-entendido cultural ou linguístico nas nossas conversas telefônicas. Enquanto isso, a CBS News aguardava uma reportagem de Brincley, Vanity Fair uma de Hitchens e eu estava escrevendo para o The Nation.

“Se Barack Obama for eleito presidente dos Estados Unidos, o senhor aceitaria um convite para voar até Washington encontrá-lo?”. Chávez respondeu imediatamente: “Sim”.

No nosso terceiro dia na Venezuela nós agradecemos ao Presidente Chávez por seu tempo, os quatro entre seguranças pessoais e imprensa no aeroporto de Santiago Marino na Ilha Margarita. Brincley tinha uma questão final e eu também: “Senhor Presidente”, disse ele, “se Barack Obama for eleito presidente dos Estados Unidos, o senhor aceitaria um convite para voar até Washington encontrá-lo?”. Chávez respondeu imediatamente: “Sim”.

Quando chegou minha vez de perguntar, eu disse: “Presidente, é muito importante para nós encontrarmos os irmãos Castro. É impossível contar a história da Venezuela sem incluir Cuba – e impossível contar a história de Cuba sem os Castro”. Chávez nos prometeu que iria ligar para o Presidente Castro no momento em que entrasse no avião e pedir-lhe em seu nome pelo encontro, mas nos alertou que seria improvável que seu irmão mais velho, Fidel, pudesse responder tão rapidamente ao convite, já que ele estava escrevendo e refletindo muito nesses dias, sem ver muita gente. Ele tampouco faria promessas sobre Raúl. Chávez subiu no seu avião e nós vimos ele voar embora.

Na manhã seguinte saímos para Havana. Vou revelar tudo: estávamos num avião emprestado pelo Ministério de Energia e Petróleo da Venezuela. Se alguém quer se referir a isso como um suborno, fique à vontade. Mas quando você ler a próxima reportagem de um jornalista voando no Air Force One [o avião presidencial norte-americano], ou a bordo de um avião de transporte das forças armadas dos EUA, seja tão gentil como o está sendo ao rejeitar este artigo aqui. Nós gostamos do luxo na viagem, mas nossa reportagem permanece independente.

Para mim os riscos pessoais eram bastante altos. Pegar o avião até Havana sem uma mínima garantia de acesso a Raúl estava me deixando ansioso. Cristopher tinha cancelado algumas palestras importantes na última hora para fazer essa viagem. Não era hábito seu deixar os outros esperando. Então, para ele, era pegar ou largar e ele estava ficando agitado. Douglas, um professor de História na Universidade Rice, teria de retornar rapidamente para suas obrigações acadêmicas. Fernando sentia o peso de nossa expectativa de que ele fosse nosso batedor. E eu, bem, contava com o telefonema de Chávez a Raúl, tanto para conseguir a entrevista como para salvar minha reputação com meus companheiros.

Aterrissamos em Havana ao meio-dia e nos encontramos, na pista de aterrissagem, com Omar Gonzalez Jimenez, presidente do Instituto Cubano de Cinema, e Luis Alberto Notario, cabeça da ala de co-produção internacional do Instituto. Eu tinha passado um tempo com ambos na minha viagem anterior a Cuba. Começamos a falar de coisas pessoais enquanto caminhávamos até a alfândega, até que Hitch deu um passo à frente e, sem pudor algum, disse: “Senhor, precisamos ver o Presidente!”. “Sim”, disse Omar. “Nós estamos sabendo do pedido, e ele foi passado ao presidente. Ainda estamos esperando por sua resposta”.

Mas, pelo resto do dia até a tarde do dia seguinte torturamos nossos anfitriões com a batida incessante de Raúl, Raúl, Raúl. Eu acho que se Fidel tivesse condições e pudesse ter arranjado tempo, ele telefonaria. E, se não, eu continuaria grato pelo nosso encontro anterior e disse isso na nota que lhe escrevi e passei através de Omar. Raúl eu só conhecia através do que tinha lido, e não tinha a mínima idéia se ele iria ou não nos encontrar.

Mesmo o visitante sente o espírito de uma cultura que proclama, de várias maneiras: “Este é o nosso lugar especial”.

Os cubanos são um povo especialmente caloroso e hospitaleiro. Como nossos anfitriões, nos levaram para dar uma volta na cidade, onde notei que o número de carros americanos dos anos 50 diminuiu mesmo nos poucos anos que se passaram desde a minha última visita, dando lugar aos russos de design menor. Numa volta pela aparição invasiva da Secção de Interesses dos EUA (Sina) pelo Malecón, onde as ondas quebram contra a parede molhando os carros, vi algo quase indescritível sobre a atmosfera de Cuba. É a presença palpável da arquitetônica e humana história viva num pedaço de terra rodeado de água. Mesmo o visitante sente o espírito de uma cultura que proclama, de várias maneiras: “Este é o nosso lugar especial”.

Demos voltas pela Havana Velha e, numa exposição envidraçada fora do Museu da Revolução, vimos o Granma, o barco usado para transportar revolucionários do México em 1956. Passamos pelo Palácio de Belas Artes, com sua coleção de peças apaixonadas e políticas de um corte transversal da profunda reserva de talento de Cuba. Fizemos então um passeio pelo Instituto Superior de Artes e depois fomos jantar com o presidente da Assembléia Nacional, Ricardo Alarcón e com Roberto Fabelo, um pintor que eles convidaram depois que eu expressei meu apreço por seu trabalho no museu, naquela tarde. Já pela meia-noite ainda não havia uma palavra de Raúl Castro. Depois disso fomos levados à casa de protocolo, onde descansaríamos até o amanhecer.

Ao meio-dia do dia seguinte, o despertador estava disparando alto nos nossos ouvidos. Nós ainda tínhamos dezesseis horas em Havana antes de pegar nosso vôo de volta para casa. Estávamos sentados numa mesa em La Castellana, um restaurante luxuoso de Havana Velha, com um grande grupo de artistas e músicos que, liderados pelo famoso pintor cubano Kcho, tinham criado a Brigada Martha Machado, uma organização de voluntários que estão ajudando às vítimas dos furacões Ike e Gustav na Ilha da Juventude. A Brigada tem pleno apoio do governo, em dólares, aviões e pessoal, coisa que daria inveja aos nossos enviados para a costa do golfo depois do furacão Katrina. Também conosco estava Antonio Castro Soto del Valle, um rapaz bonito e humilde que é o filho de 39 anos de Fidel Castro. Antonio, que estudou medicina, é chefe da equipe médica do time de baseball cubano. Eu tive uma rápida mas agradável conversa com ele e re-enfatizei nossa agenda Raúl.

O relógio não estava mais funcionando. Estava pesando. Omar me disse que nós escutaríamos a decisão do presidente em breve. Dedos cruzados, Douglas, Hitch, Fernando e eu voltamos à casa de protocolo para pegar nossas bagagens, antes. Por volta de 6 horas da tarde, estávamos a dez horas da nossa volta. Eu estava sentado no térreo na sala de estar, lendo sob a fraca luz de fim de tarde. Hitch e Douglas estavam nos seus quartos, no primeiro andar, eu acho que descansando para afastar a ansiedade. E no sofá ao meu lado estava Fernando, roncando.

Então, Luis apareceu na porta aberta da frente. Eu olhei de soslaio sobre os meus óculos como se ele tivesse me dado uma resposta muito direta. Sem palavras, apontei para cima, onde meus companheiros estavam descansando. Mas Luis mexeu a cabeça se desculpando. “Só você”, ele disse. O presidente tinha tomado a decisão.

Eu poderia escutar as palavras de dúvida de Hitch no meu ouvido, “Muito raramente uma só coisa dá errado”. Ele estava falando de mim? Et mi, Brute? Em todo caso, pus a mão nos bolsos para ter certeza de que estava com as notas tomadas na Venezuela, com minha caneta, meus óculos e saí com Luis. Logo antes de eu bater a porta do carro que estava esperando, eu escutei a voz de Fernando me chamando. “Sean!” Nós partimos no carro.

Nos EUA, o Presidente cubano Raúl Castro, ex-ministro das forças armadas da ilha, tem sido tratado como um “militarista frio” e um “fantoche” de Fidel. Mas o jovem comandante de Sierra Maestra está provando que as serpentes estão erradas.

Nos EUA, o Presidente cubano Raúl Castro, ex-ministro das forças armadas da ilha, tem sido tratado como um “militarista frio” e um “fantoche” de Fidel. Mas o jovem comandante de Sierra Maestra está provando que as serpentes estão erradas. Na verdade, o “Raulismo” está em alta, ao lado do recente boom econômico industrial e agrícola. O legado de Fidel, como o de Chávez, dependerá da sustentabilidade de uma revolução flexível, que possa sobreviver à partida de seus líderes pela morte ou renúncia. Mais uma vez Fidel foi subestimado pelo Norte. Na escolha por seu irmão Raúl, ele pôs a política do dia-a-dia do país em mãos formidáveis. Num informe do Conselho para Assuntos Hemisféricos, o porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, John Casey, admitiu que o Raulismo poderia levar o país a “maior abertura e liberdade para o povo cubano”.

Logo logo estou sentado numa pequena mesa polida no gabinete do governo com o Presidente Castro e um tradutor. “Fidel ligou há alguns minutos”, ele me disse. “Ele quer que eu telefone depois que conversemos”. Há um humor na voz de Raúl que lembra uma vida de tolerância afetuosa pelo olhar atento do seu irmão mais velho. “Ele quer saber tudo o que falamos”, disse com sorriso de sabedoria. “Eu nunca gostei da idéia de conceder entrevistas”, disse. “Diz-se muitas coisas mas, quando são publicadas tornam-se curtas, condensadas. As idéias perdem seu sentido. Eu soube que você faz filmes longos. Talvez também faça longo jornalismo”. Eu prometi a ele que escreveria o mais rápido que pudesse, e que publicaria tanto como escrevesse. Informalmente ele me disse que havia prometido sua primeira entrevista como presidente a outros, e não queria multiplicar o que poderia ser construído como um insulto; por isso escolheu a mim só e não aos meus companheiros.

“A reforma agrária de 1959 foi o Rubicão de nossa revolução. Uma sentença de morte para as nossas relações com os EUA”.

Castro e eu tomamos uma xícara de chá. “Quarenta e seis anos atrás, hoje, exatamente a esta hora do dia, mobilizamos tropas, Alameda no oeste, Fidel em Havana, eu em Areda. Ao meio-dia me disseram que em Washington o Presidente Kennedy discursaria. Foi durante a crise dos mísseis. Nós estávamos esperando um discurso que fosse uma declaração de guerra. Depois da humilhação na Baía dos Porcos, a pressão dos mísseis [que Castro afirma ser estritamente defensiva] representaria uma grande derrota para Kennedy. Kennedy não suportaria esse fracasso. Hoje nós estudamos os candidatos norte-americanos muito cuidadosamente, focando em McCain ou Obama. Observamos todas as suas falas antigas. Particularmente aquelas feitas na Flórida, onde a oposição a Cuba se tornou um negócio lucrativo para muita gente. Em Cuba temos um partido, mas nos EUA há muito pouca diferença. Ambos os partidos são uma expressão da classe dominante”. Ele diz que hoje os membros do lobby Miami cubano são descendentes da era de riqueza de Batista, ou proprietários de terras internacionais “que só pagaram centavos por sua terra”, quando Cuba passou sessenta anos sob o domínio absoluto dos EUA.

“A reforma agrária de 1959 foi o Rubicão de nossa revolução. Uma sentença de morte para as nossas relações com os EUA”. Castro parece estar me avaliando enquanto toma outro gole de seu chá. “Naquele momento não havia discussão sobre o socialismo, ou sobre a relação de Cuba com a Rússia. Mas a sorte estava lançada”.

Depois que a administração Eisenhower bombardeou dois navios carregados de armas para Cuba, Fidel estendeu a mão a antigos aliados. Raúl diz: “Pedimos a Itália. Não! Pedimos a Tchecoslováquia. Não! Ninguém nos daria armas para nos defendermos porque Eisenhower havia lhes pressionado. Então, quando obtivemos as armas da Rússia, não tivemos tempo de aprender como usá-las antes do ataque na Baía dos Porcos!” Ele ri e se desculpa, indo rapidamente para uma sala ao lado, de trás de uma parede, só para voltar imediatamente à sala em que estávamos e fazer a piada: “Aos 77 isso é culpa do chá”.

Piadas à parte, Castro se move com a agilidade de um jovem. Ele se exercita todos os dias, seus olhos são brilhantes e sua voz, forte. Ele retoma de onde tinha parado. “Você sabe, Sean, há uma famosa foto de Fidel da invasão da Baía dos Porcos. Ele está na frente de um tanque russo. Não sabíamos ainda como pôr aqueles tanques em marcha ré. “Então”, ri, “entregar-se não era uma opção!” É demais para um “frio militarista”. Raúl Castro era caloroso, aberto, enérgico e de uma inteligência espirituosa.

"Bloqueio é um ato de guerra, então os americanos preferem embargo, uma palavra usada em procedimentos legais".

Eu retomo o assunto das eleições nos EUA repetindo a questão que Brinkley tinha feito a Chávez: Castro aceitaria um convite a Washington para encontrar com o Presidente Obama, se ele vencesse a eleição algumas semanas depois? Castro se torna reflexivo. “Essa é uma pergunta interessante”, ele diz, seguido de um longo, embaraçoso, silêncio. Até que: “Os EUA tem o processo eleitoral mais complicado do mundo. Há ladrões treinados em eleições do lobby cubano norte-americano na Flórida...” Eu o interrompo: “Eu acho que esse lobby está se quebrando”. E então, com a certeza de um otimista incorrigível, digo: “Obama será nosso próximo presidente”. Castro sorri, parece que de minha ingenuidade, mas o sorriso desaparece e ele diz: “Se ele não for assassinado antes de 4 de novembro, ele será seu próximo presidente.” Noto que ele ainda não respondeu a minha pergunta sobre o encontro em Washington. “Você sabe”, ele diz, “Eu tenho lido os discursos que Obama tem feito, que vai manter o bloqueio”. Eu digo “Seu termo é embargo”. “Sim”, diz Castro, “bloqueio é um ato de guerra, então os americanos preferem embargo, uma palavra usada em procedimentos legais...mas em todo caso, sabemos que isso é discurso pré-eleição, e que ele também disse que está aberto à discussão com qualquer um”.

Raúl interrompe a si mesmo: “Você provavelmente está pensando, Oh, o irmão fala tanto como Fidel!” Nós rimos. “Não é comum ser assim mas, você sabe, certa vez Fidel tinha recebido uma delegação da China, nesta sala. Muitos diplomatas e um jovem tradutor. Eu acho que era a primeira vez do tradutor com dirigentes de Estado. Eles todos tinham tido um longo vôo e estavam sob efeito do fuso. Fidel, é claro, sabia disso, mas ainda assim falou por horas. Rapidamente, um dos visitantes, próximos ao fim da mesa, logo ali (aponta para a uma cadeira vizinha a minha), seus olhos começaram a pesar. Então outro, depois outro. Mas Fidel continuou a falar. Logo logo todos, inclusive os mais poderoso deles, a quem Fidel dirigia suas palavras diretamente, fizeram o barulho de ronco nas suas cadeiras. Então, Fidel dirigiu o olhar para a única pessoa acordada, o jovem tradutor, e continuou conversando com ele até amanhecer”. A essas alturas da história, tanto Raúl como eu estavámos às gargalhadas. Eu só tinha tido um encontro com Fidel, cuja mente assombrosa e paixão inundavam as palavras. Mas era suficiente para fazer a figura. Só o nosso tradutor não ria, quando Castro retornou ao ponto.

“No meu primeiro discurso depois que Fidel ficou doente, eu disse que estávamos querendo discutir nossa relação com os EUA em pé de igualdade. Depois, em 2006, eu disse isso de novo na Praça da Revolução. Eu era motivo de risos na mídia norte-americana por estar aplicando medidas cosméticas à ditadura”. Eu ofereço uma nova oportunidade para falar ao povo americano. Ele responde: “O povo americano está entre os nossos vizinhos mais próximos. Deveríamos respeitar uns aos outros. Nós nunca tivemos nada contra o povo norte-americano. Ter boas relações seria vantajoso para ambos. Talvez não possamos resolver todos os nossos problemas, mas podemos resolver muitos deles”. Ele parou agora, vagarosamente considerando um pensamento. “Eu vou lhe dizer uma coisa que nunca disse publicamente antes. Informações sobre mim tinham sido vazadas, em determinada altura, por alguém no Departamento de Estado dos EUA, mas isso foi rapidamente silenciado por conta da preocupação sobre o eleitorado da Flórida, ainda que agora, enquanto conto isso a você, o Pentágono venha a me considerar indiscreto”.

“Temos tido contato permanente com as forças armadas dos EUA, através de acordos secretos, desde 1994.”

Eu dou uma parada na respiração e espero. “Temos tido contato permanente com as forças armadas dos EUA, através de acordos secretos, desde 1994”, Castro me conta: “Esses acordos se baseavam na premissa de que discutiríamos unicamente questões relacionadas a Guantánamo. Dezessete de fevereiro de 1993, atendendo a uma solicitação dos EUA para discutir questões relativas à localização de bóias para navegação na baía foi o primeiro contato entre nós na história da revolução. Entre 4 de março e 1 de julho, a crise dos balseiros tomou lugar. Uma linha de contato militar para militar foi estabelecida, e em 9 de maio de 1995 concordamos em ter encontros mensais com altos representantes de ambos os governos. Até hoje foram 157 reuniões, e há uma fita gravada de cada uma. Os encontros ocorrem a cada terceira sexta-feira, todo mês. Alternamos locais entre a base norte-americana de Guantánamo e em território cubano.

Temos feitos manobras conjuntas de respostas de emergência. Por exemplo, nós botamos fogo e helicópteros norte-americanos trazem água da baía, junto com helicópteros cubanos. [Antes disso] a base americana de Guantánamo tinha gerado um caos. Nós tínhamos perdido guardas de fronteira, e havia evidência documental disso. Os EUA encorajaram uma emigração ilegal e perigosa, com os barcos da Guarda Costeira norte-americana interceptando cubanos que tentavam sair da ilha. Eles os trariam para Guantánamo, e uma cooperação mínima começou. Deixaríamos de vigiar nossas costas. Se alguém quisesse deixar o país, diríamos, vá em frente.

E assim, com as questões de navegação começou essa colaboração. Agora, nos encontros das sexta-feiras há um representante do Departamento de Estado norte-americano”. Nenhum nome foi dado. Ele continua: “O Departamento de Estado norte-americano tende a ser menos razoável do que o Pentágono. Mas ninguém levanta sua voz porque...Eu não tomo partido. Porque eu falo alto. Este é o único lugar do mundo em que essas duas forças militares se encontram em paz”.

“Havendo um encontro entre você e o nosso próximo presidente, qual seria a prioridade de Cuba?" Sem pestanejar, Castro responde: “Normalizar o comércio.”

“E quanto a Guantánamo?” Eu pergunto. “Eu vou lhe dizer a verdade”, diz Castro. “A base é nossa hóspede. Como presidente, eu digo que o EUA deveria partir. Como um militar, eu os deixo ficar”. Por dentro, eu me perguntava: será que tenho uma boa história nova para contar, aqui? Ou isso é de pouca relevância? Ninguém deveria surpreender-se com o fato de que inimigos se encontram por trás dos cenários. O que é surpresa é ele estar me contando isso. E, com isso, eu retorno à questão do encontro com Obama. “Havendo um encontro entre você e o nosso próximo presidente, qual seria a prioridade de Cuba?” Sem pestanejar, Castro responde: “Normalizar o comércio. A indecência do embargo norte-americano jamais foi tão evidente como agora, quando da passagem de três furacões devastadores. As necessidades do povo cubano nunca foram mais desesperadoras. O embargo é simplesmente desumano e completamente improdutivo”.

Raúl continua: “A única razão para o bloqueio é nos fazer sofrer. Nada pode deter a revolução. Deixem os cubanos visitarem suas famílias. Deixem os americanos virem a Cuba”. Parece que ele está dizendo “deixem eles virem ver essa terrível ditadura comunista sobre a qual continuam a escutar na imprensa, onde mesmo representantes do Departamento de Estado dos EUA e dissidentes proeminentes reconhecem que, em eleições abertas e livres hoje, em Cuba, o Partido Comunista que está no poder venceria com 80% do eleitorado". Eu listo vários conservadores norte-americanos que têm sido críticos ao embargo, do recém falecido Milton Friedman a Colin Powell, até mesmo o Senador Republicano do Texas, Kay Bailey Hutchison, que disse: “Eu acreditei por um tempo que deveríamos buscar uma nova estratégia para Cuba. E esta é abrir mais o comércio, especialmente o comércio de alimentos, sobretudo se podemos oferecer às pessoas mais contato com o mundo exterior. Se pudermos erguer a economia, isso pode fazer com que o povo se torne capaz de lutar contra a ditadura”. Castro, com certo ar de descaso, responde prontamente: “O desafio nos é bem-vindo”.

“Nós somos tão pacientes como os chineses. Setenta por cento de nossa população nasceu sob o bloqueio.

Até aqui fomos levados do chá ao vinho tinto e ao jantar. “Deixe-me dizer uma coisa”, ele diz. “Nós temos pesquisas recentes que sugerem fortemente que temos reservas de petróleo em águas profundas, que as companhias norte-americanas podem vir aqui perfurar. Nós podemos negociar. Os EUA é protegido pelas mesmas leis de comércio de Cuba, como qualquer país. Talvez possa haver alguma reciprocidade. Há cem mil quilômetros quadrados de mar na área dividida. Deus seria injusto em não nos dar algum petróleo. Eu não acredito que ele nos privaria dessa maneira”. De fato, o US Geological Survey especula que há na área 9 bilhões de barris de petróleo e 21 trilhões de pés cúbicos de reservas de gás na bacia norte de Cuba. Agora que ele vem melhorando as relações com o México, Castro também está buscando fazê-lo com a União Européia. “As relações com a União Européia devem melhorar com a saída de Bush”, ele diz, confidencialmente.

“E os EUA?”, eu pergunto. “Escuta”, ele diz, “nós somos tão pacientes como os chineses. Setenta por cento de nossa população nasceu sob o bloqueio. Eu sou o mais antigo ministro das Forças Armadas da história. Quarenta e oito anos e meio até o último outubro. É por isso que estou neste uniforme e continuo a trabalhar no meu antigo escritório. No gabinete de Fidel nada foi tocado. Nos exercícios militares do Pacto de Varsóvia, eu era o mais jovem, e o que terá sido o mais velho. O Iraque é uma brincadeira de criança se comparado com o que aconteceria se os EUA invadisse Cuba”. Depois de outra taça de vinho, Castro diz, “Prevenir uma guerra é o mesmo que vencer uma. Essa é nossa doutrina”.

Com nosso jantar terminado, eu caminhei com o presidente através das portas corridas de vidro e entramos num jardim de inverno com plantas tropicais e pássaros. Enquanto bebíamos mais vinho, ele disse, “Há um filme americano – a elite está sentada numa mesa, decidindo quem será o próximo presidente. Eles olham para fora da janela, onde vêem o jardineiro. Você conhece o filme de que estou falando?”. “Being There” [Muito Além do Jardim, no Brasil], eu digo. “Sim!” Castro responde com entusiasmo, “Being There, eu gosto muito desse filme. Com os EUA, qualquer possibilidade objetiva existe. Os chineses dizem 'Em caminhos logos, você começa com o primeiro passo'. O presidente dos EUA deveria dar ele mesmo esse passo, mas sem ameaça à nossa soberania. Isso não é negociável. Podemos fazer acordos sem dizer ao outro o que fazer no interior de suas fronteiras”.

“Senhor Presidente”, eu digo, “vendo o último debate presidencial nos EUA, escutamos John McCain defender um acordo de livre comércio com a Colômbia, um país em que esquadrões da morte são notórios e onde vêm ocorrendo assassinatos de líderes de trabalhadores e que, ainda assim, continua a manter relações próximas com os EUA, tanto que a administração Bush está tentando passar esse acordo no Congresso. Como você sabe, eu acabei de vir da Venezuela que, como Cuba, a administração Bush considera inimigo nacional, ainda que, claro, compremos muito petróleo de lá. Me ocorreu que a Colômbia pode se tornar nosso parceiro estratégico na América do Sul, como Israel o é no Oriente Médio. O que você diria disso?”.

Ele pensa com cuidado sobre a pergunta, falando num tom lento e compassado. “Neste momento”, ele diz, “nós temos boas relações com a Colômbia. Mas eu diria que, se há um país na América do Sul em que há um ambiente vulnerável a isso...é a Colômbia”. Pensando na suspeita de Chávez das intenções de Bush em intervir na Venezuela, respiro fundo.

Vai ficando tarde e eu não queria deixá-lo sem perguntar sobre as alegações de violações dos direitos humanos e da suposta facilitação do narcotráfico pelo governo cubano. Um informe de 2007 da Human Rights Watch afirma que Cuba “permanece sendo o único país na América Latina que reprime praticamente todas as formas de divergência política”. Mais ainda, que há algo como 200 prisioneiros políticos em Cuba, hoje, aproximadamente 4% deles condenados por dissenso não-violento. Enquanto aguardava os comentários de Castro, não conseguia parar de pensar na vizinha prisão norte-americana de Guantánamo e nas horrendas ofensas contra os direitos humanos que lá ocorrem.

“Nenhum país está 100% livre de abusos dos direitos humanos”, Castro me conta. Mas, ele insiste: “informes na mídia dos EUA são altamente exagerados e hipócritas”. De fato, mesmo grandes figuras dissidentes de Cuba, como Eloy Gutierrez Menoyo, reconhecem as manipulações, acusando a Secção de Interesses dos EUA de comprar o testemunho de dissidentes em dinheiro vivo. Ironicamente, em 1992 e 94, Human Rights Watch também descreveu ilegalidades e intimidações nos grupos anti-Castristas em Miami, que o escritor/jornalista Reese Erlich chamou de “violações normalmente associadas às ditaduras latino-americanas”.

Tendo dito isso, quero dizer que sou um americano orgulhoso e infinitamente consciente de que se eu fosse um cidadão cubano e escrevesse um artigo como esse sobre o governo de Cuba eu seria preso. Mais ainda, eu tenho orgulho do sistema criado pelos nossos pais fundadores que, ainda que não esteja exatamente intacto hoje, jamais foi dependente de um grande líder por época. Essas coisas permanecem em questão para os heróis românticos de Cuba e da Venezuela. Eu pensei em mencionar isso, e talvez devesse, mas eu tinha outra coisa na mente.

“Podemos falar sobre drogas?”, eu perguntei a Castro. Ele responde, “Os EUA é o maior consumidor de narcóticos no mundo. Cuba está situada diretamente entre os EUA e seus fornecedores. Isso é um grande problema para nós...Com a expansão do turismo, desenvolveu-se um novo mercado e nós lutamos contra isso. Também é dito que nós permitimos que narcotraficantes viajem através do espaço aéreo cubano. Nós não permitimos isso. Estou certo de que alguns desses aviões passam por nosso espaço aéreo. Isso se deve simplesmente à restrição econômica que faz com que não tenhamos mais um radar de baixa altitude funcionando”.

“Os cubanos são nossos melhores parceiros nas guerras contra a droga e contra o terror no Caribe. São melhores inclusive que o México".

Por mais que isso soe exagerado, não o é, de acordo com o Coronel Lawrence Wikerson, um ex-assessor de Colin Powell. Wilkerson disse a Reese Erlich numa entrevista em janeiro: “Os cubanos são nossos melhores parceiros nas guerras contra a droga e contra o terror no Caribe. São melhores inclusive que o México. As forças armadas olham para Cuba como um parceiro bastante competitivo”.

Eu quero perguntar uma última vez a Castro minha questão não respondida, enquanto nossa múltipla linguagem corporal sugeria que estava chegando a hora de terminar. Já passava de uma da manhã, mas ele iniciou: “Agora”, ele diz, “você me pergunta se eu aceitaria me encontrar (com Obama) em Washington. Eu teria de pensar sobre isso. Iria discutir com todos os meus camaradas da direção. Pessoalmente, eu penso que não seria justo eu ser o primeiro a visitá-lo, porque sempre os presidentes da América Latina vão aos EUA primeiro. Mas também seria injusto ter a expectativa de que o presidente dos EUA venha a Cuba. Nós deveríamos nos encontrar num lugar neutro.

Ele faz uma pausa, deixando sua taça de vinho vazia na mesa. “Talvez pudéssemos nos encontrar em Guantánamo. Nós devemos nos encontrar e começar a resolver nossos problemas e, no fim do encontro, poderíamos dar um presente ao presidente...poderíamos levá-lo para casa com a bandeira dos EUA que tremula na baía de Guantánamo”.

Quando deixamos seu gabinete, somos acompanhados pelos assessores enquanto o Presidente Castro desce comigo ao lobby e me conduz ao carro que me esperava. Eu o agradeço pela generosidade de seu tempo. Quando meu motorista pôs o carro em marcha, o presidente bateu no vidro da janela ao meu lado. Eu o abaixei enquanto o presidente checou em seu relógio, vendo que sete horas tinham se passado desde o começo da entrevista. Sorrindo, ele disse “Vou telefonar para Fidel, agora. Posso prometer a você isso. Quando Fidel descobrir que eu passei sete horas falando com você ele terá certeza de que vai lhe dar sete horas e meia quando você retornar a Cuba”. Nós rimos e apertamos a mão em despedida.

Tinha chovido no começo da noite. Nas primeiras horas escuras do dia, os pneus do nosso carro jorravam água sobre o calçadão húmido de uma quieta manhã de Havana, me dou conta de que a maior parte das questões básicas sobre soberania nos permitem entender substancialmente o antagonismo norte-americano contra Cuba e Venezuela, assim como contra as políticas desses países. Eles sempre tiveram só duas escolhas: serem imperfeitamente nossos ou imperfeitamente deles mesmos.

Viva Cuba, Viva Venezuela. Viva os Estados Unidos.

Quando volto à casa de protocolo, eram quase duas da manhã. Meu velho amigo Fernando, imaginando que eu fosse chegar bêbado, esperou por mim. Meus companheiros tinham tido uma noite ruim. O pobre Fernando teve de arcar com o peso da frustração deles. Eles não tinham ficado sabendo onde eu tinha ido, nem por que tinha lhes deixado para trás. E os oficiais cubanos com quem podiam fazer contato insistiram para que eles estivessem a postos, caso um dos irmãos Castro lhes oferecesse espontaneamente uma entrevista. Assim eles perderam a última noite cubana na cidade. Depois de ter me deixado a par das coisas, Fernando foi tirar umas duas horas de sono. Eu fiquei acordado, revisando minhas notas e fui o primeiro na mesa do café da manhã, às 4:45hs. Quando Douglas e Hitch desceram as escadas, eu pus a ponta da toalha da mesa na minha cabeça, fingindo que estava com vergonha, de brincadeira. Eu acho, dadas as circunstâncias, que era um pouco cedo (não apenas com relação às horas) para testar o humor deles. A piada não funcionou. Enquanto Fernando tomou um vôo separado para Buenos Aires, nós tivemos um café da manhã e um vôo silenciosos de volta ao lar doce lar.

Quando chegamos em Houston, eu me dei conta de que tinha subestimado o pêlo duro desses dois grandes profissionais. Um gelo qualquer foi derretido. Dissemos nossos adeus, comemorando a viagem de vários dias. Nenhum deles foi malicioso para perguntar sobre o conteúdo da minha entrevista, mas Cristopher, quando foi pegar sua conexão para o leste me disse, na nossa partida: “Bem...eu acho que vamos todos lê-la”.

Sí, Se Puede!

Estava sentado num canto de minha cama com minha mulher, meu filho e minha filha, lágrimas caíndo do meu rosto, enquanto Barack Obama falava pela primeira vez como presidente-eleito dos Estados Unidos da América. Eu fechei meus olhos e comecei a ver o filme na minha cabeça. Também podia escutar a música, que muito apropriadamente era Dixie Chicks cantando uma música de Fleetwood Mac, sobre imagens montadas em baixa velocidade. Lá estavam eles: Bush, Hannity, Cheney, McCain, Limbaugh e Robertson. Eu os vi todos. E a música soava mais alto quando a imagem de Sarah Palin entrou em cena. Natalie Maines cantava docemente:

E eu vi meu reflexo nas montanhas cobertas de neve
até que a vitória acachapante me derrubou
A vitória acachapante me derrubou...
(1)

(*) Sean Penn é ator e diretor de cinema

Texto publicado em The Nation

Tradução: Katarina Peixoto

(1) Em caso de interesse no complemento da peça cinematográfica imaginada por Sean Penn, pode-se ver e escutar a performance musical (sic) por ele referida via este link:http://www.youtube.com/watch?v=hGErtl9HZ7I&feature=related. N.deT.