Mostrando postagens com marcador Um pouco de História. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Um pouco de História. Mostrar todas as postagens

domingo, 30 de outubro de 2011

O MARTÍRIO DE TIRADENTES, UMA FARSA CRIADA POR LÍDERES DA INCONFIDÊNCIA MINEIRA

por Guilhobel Aurélio Camargo

Ele estava muito bem vivo, um ano depois, em Paris. O feriado de 21 de abril é fruto de uma história fabricada que criou Tiradentes como bode expiatório, que levaria a culpa pelo movimento da Inconfidência Mineira. Quem morreu no lugar dele foi um ladrão chamado Isidro Gouveia.

A mentira que criou o feriado de 21 de abril é: Tiradentes foi sentenciado à morte e foi enforcado no dia 21 de abril de 1792, no Rio de Janeiro, no local chamado Campo da Lampadosa, que hoje é conhecido como a Praça Tiradentes. Com a Proclamação da República, precisava ser criada uma nova identidade nacional. Pensou-se em eternizar Marechal Deodoro, mas o escolhido foi Tiradentes. Ele era de Minas Gerais, estado que tinha na época a maior força republicana e era um polo comercial muito forte. Jogaram ao povo uma imagem de Tiradentes parecida com a de Cristo e era o que bastava: um “Cristo da Multidão”. Transformaram-no em herói nacional cuja figura e história “construída” agradava tanto à elite quanto ao povo.

A vida dele em poucas palavras: Tiradentes nasceu em 1746 na Fazenda do Pombal, entre São José e São João Del Rei (MG). Era filho de um pequeno fazendeiro. Ficou órfão de mãe aos nove anos e perdeu o pai aos 11. Não chegou a concluir o curso primário. Foi morar com seu padrinho, Sebastião Ferreira Dantas, um cirurgião que lhe deu ensinamentos de Medicina e Odontologia. Ainda jovem, ficou conhecido pela habilidade com que arrancava os dentes estragados das pessoas. Daí veio o apelido de Tira-Dentes. Em 1780, tornou-se um soldado e, um ano à frente, foi promovido a alferes. Nesta mesma época, envolveu-se na Inconfidência Mineira contra a Coroa portuguesa, que explorava o ouro encontrado em Minas Gerais. Tiradentes foi iniciado na Maçonaria pelo poeta e juiz Cruz e Silva, amigo de vários inconfidentes. Tiradentes teria salvado a vida de Cruz e Silva, não se sabe em que circunstâncias.

Tiradentes, Maçonaria e a Inconfidência Mineira: Como era um simples alferes (patente igual à de tenente), não lideraria coronéis, brigadeiros, padres e desembargadores, que eram os verdadeiros líderes do movimento. Semi-alfabetizado, é muito provável que nunca esteve plenamente a par dos planos e objetivos do movimento. Em todos os movimentos libertários acontecidos no Brasil, durante os séculos XVIII e XIX, era comum o "dedo da Maçonaria". E Tiradentes foi maçom, mas estava longe de acompanhar os maçons envolvidos na Inconfidência, porque esses eram cultos, e em sua grande parte, estudantes que haviam recentemente regressado "formados” da cidade de Coimbra, em Portugal. Uma das evidências documentais da participação da Maçonaria são as cartas de denúncia existentes nos autos da Devassa, informando que maçons estavam envolvidos nos conluios.

Os maçons brasileiros foram encorajados na tentativa de libertação, pela história dos Estados Unidos da América, onde saíram vitoriosos - mesmo em luta desigual - os maçons norte-americanos George Washington, Benjamin Franklin e Thomas Jefferson. Também é possível comprovar a participação da Maçonaria na Inconfidência Mineira, sob o pavilhão e o dístico maçônico do Libertas Quae Sera Tamen, que adorna o triângulo perfeito, com este fragmento de Virgílio (Éclogas, I, 27). Tiradentes era um dos poucos inconfidentes que não tinha família. Tinha apenas uma filha ilegítima e traçava planos para casar-se com a sobrinha de um padre chamado Rolim, por motivos econômicos. Ele era, então, de todo o grupo, aquele considerado como uma “codorna no chão”, o mais frágil dos inconfidentes. Sem família e sem dinheiro, querendo abocanhar as riquezas do padre. Era o de menor preparo cultural e poucos amigos. Portanto, a melhor escolha para desempenhar o papel de um bode expiatório que livraria da morte os verdadeiros chefes.

E foi assim que foi armada a traição, em 15 de março de 1789, com o Silvério dos Reis indo ao Palácio do governador e denunciando o Tiradentes. Ele foi preso no Rio de Janeiro, na Cadeia Velha, e seu julgamento prolongou-se por dois anos. Durante todo o processo, ele admitiu voluntariamente ser o líder do movimento, porque tinha a promessa que livrariam a sua cabeça na hipótese de uma condenação por pena de morte. Em 21 de abril de 1792, com ajuda de companheiros da Maçonaria, foi trocado por um ladrão, o carpinteiro Isidro Gouveia. O ladrão havia sido condenado à morte em 1790 e assumiu a identidade de Tiradentes, em troca de ajuda financeira à sua família, oferecida a ele pela Maçonaria. Gouveia foi conduzido ao cadafalso e testemunhas que presenciaram a sua morte se diziam surpresas porque ele aparentava ter bem menos que seus 45 anos. No livro, de 1811, de autoria de Hipólito da Costa ("Narrativa da Perseguição") é documentada a diferença física de Tiradentes com o que foi executado em 21 de abril de 1792. O escritor Martim Francisco Ribeiro de Andrada III escreveu no livro "Contribuindo", de 1921: "Ninguém, por ocasião do suplício, lhe viu o rosto, e até hoje se discute se ele era feio ou bonito...".

O corpo do ladrão Gouveia foi esquartejado e os pedaços espalhados pela estrada até Vila Rica (MG), cidade onde o movimento se desenvolveu. A cabeça não foi encontrada, uma vez que sumiram com ela para não ser descoberta a farsa. Os demais inconfidentes foram condenados ao exílio ou absolvidos.

A descoberta da farsa: Há 41 anos (1969), o historiador carioca Marcos Correa estava em Lisboa quando viu fotocópias de uma lista de presença na galeria da Assembléia Nacional francesa de 1793. Correa pesquisava sobre José Bonifácio de Andrada e Silva e acabou encontrando a assinatura que era o objeto de suas pesquisas. Próximo à assinatura de José Bonifácio, também aparecia a de um certo Antônio Xavier da Silva. Correa era funcionário do Banco do Brasil, se formara em grafotécnica e, por um acaso do destino, havia estudado muito a assinatura de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Concluiu que as semelhanças eram impressionantes.

Tiradentes teria embarcado incógnito, com a ajuda dos irmãos maçons, na nau Golfinho, em agosto de 1792, com destino a Lisboa. Junto com Tiradentes seguiu sua namorada, conhecida como Perpétua Mineira e os filhos do ladrão morto Isidro Gouveia. Em uma carta que foi encontrada na Torre do Tombo, em Lisboa, existe a narração do autor, desembargador Simão Sardinha, na qual diz ter-se encontrado, na Rua do Ouro, em dezembro do ano de 1792, com alguém muito parecido com Tiradentes, a quem conhecera no Brasil, e que ao reconhecê-lo saiu correndo. Há relatos que 14 anos depois, em 1806, Tiradentes teria voltado ao Brasil quando abriu uma botica na casa da namorada Perpétua Mineira, na rua dos Latoeiros (hoje Gonçalves Dias) e que morreu em 1818. Em 1822, Tiradentes foi reconhecido como mártir da Inconfidência Mineira e, em 1865, proclamado Patrono Cívico da nação brasileira.

Fonte: http://mais.uol.com.br/view/e8h4xmy8lnu8/tiradentes-uma-farsa-criada-por-lideres-da-inconfidencia-0402CC18356ACCB91326?types=A&

segunda-feira, 4 de julho de 2011

As bandeiras vermelhas nasceram em Paris, em 1848
Por Vito Giannotti, abril de 2001


O ano de 1848, em muitos países da Europa, foi marcado por revoluções burguesas contra a aristocracia e a velha nobreza que tinha voltado ao poder após a derrota de Napoleão e o Congresso de Viena, em 1815.

A nova classe que era dona do capital era a nova burguesia das indústrias. E ela queria ter o poder político em suas mãos.

Nesse contexto, em vários países europeus, naquele ano, explodiram verdadeiras revoluções dirigidas pela burguesia que se aliou aos trabalhadores para derrubar reis e imperadores. Isto aconteceu na Áustria, na Hungria, na Itália e, sobretudo, na França.

A capital Paris, que era de longe a mais importante e a maior cidade do continente europeu, foi palco de uma grande revolução. Esta tirou o poder do rei e impôs um novo sistema político: a república.

Os trabalhadores franceses entraram de cabeça nesta revolução dirigida e a serviço dos planos da burguesia que estava se tornando a verdadeira dona do país. Entraram de cabeça e pagaram muito caro por isso.

Logo que a República Francesa foi vitoriosa contra o velho sistema monárquico, a classe trabalhadora apresentou suas reivindicações: salários que dessem para viver e redução da jornada de trabalho para 10 horas. Imediatamente a burguesia mostrou sua cara e o sentido da revolução de fevereiro: uma revolução a serviço única e exclusivamente de uma classe: a classe dos proprietários do novo capital industrial, comercial e bancário.

Para os trabalhadores sobraram as balas de fuzil e de canhão. A primeira fase da revolução de 1848 foi contra a nobreza. A segunda será imediatamente contra os novos inimigos: os trabalhadores.

Os trabalhadores resistiram, fizeram barricadas e inutilmente desfraldavam a bandeira tricolor para seus ex-aliados de ontem. Os canhões do general Cravaignac bombardearam os bairros operários e destruíram as barricadas.

No final destas jornadas de resistência operária, do mês de junho de 1848, as bandeiras da República Francesa que estavam nas mãos dos mortos ou dos feridos não eram mais azul, branca e vermelha, mas tinham uma cor só. O vermelho do sangue operário francês, esmagado pela burguesia. A mesma que era dona das fábricas, das lojas e dos bancos onde estes revolucionários trabalhavam.

Esta é a origem do vermelho das nossas bandeiras.

Marx assim nos conta a origem e o simbolismo da bandeira que passará a ser a bandeira da classe trabalhadora mundial: "Após o esmagamento da revolução de 48, em Paris, somente depois que a bandeira tricolor foi empapada com o sangue dos insurretos de junho, a bandeira vermelha passou a ser a bandeira da revolução européia".

Depois de 48, as bandeiras vermelhas começarão a aparecer nas lutas e manifestações. Pouco a pouco o vermelho será consagrado como a cor símbolo do socialismo e da luta operária.

Durante a Comuna de Paris, há 130 anos, as bandeiras vermelhas do socialismo e pretas do anarquismo tremulavam sobre as barricadas e os prédios públicos de Paris. O triunfo do vermelho se dará com a Revolução Russa. A bandeira vermelha ganhará, então, a foice e o martelo, símbolo da aliança básica que deu a vitória àquela revolução: os operários e os camponeses.

Fonte: http://www.piratininga.org.br/memoria/bandeiras.html

sexta-feira, 1 de julho de 2011


Por Marcos Aurélio da Silva no GRABOIS
A publicística brasileira, e não só aquela à direita do espectro político, acostumou-se a se referir a Stalin como um dos grandes assassinos da história. A julgar pelo livro de Domenico Losurdo agora publicado entre nós, Stalin: história crítica de uma lenda negra, tradução de Jaime Clasen, Rio de Janeiro: Revan, 2010, 378 págs. (com um ensaio de Luciano Canfora), este ponto de vista está a demandar uma profunda revisão. Isso se se quiser não apenas refletir sobre o uso político a que a figura de Stalin serviu no Ocidente capitalista, mas igualmente atentar para o que de mais atual há na historiografia que se acercou do tema do “stalinismo”.

De fato, se o que se esperava da abertura dos arquivos da ex-União Soviética era um mar de fatos que tornariam ainda mais abomináveis a história do líder comunista, bem como do regime que ajudou a construir, o livro de Losurdo, apoiado nas mais recentes pesquisas, vem pôr por terra tais expectativas. Veja-se, por exemplo, o caso das “execuções” de Stalin ao cabo dos anos 30, já bem avançada a fase da coletivização forçada da agricultura. Demonstram as citadas pesquisas que elas não alcançavam mais de 1/10 do que se dizia: é que os ideólogos do anticomunismo, acrescenta o ensaio de Canfora, a elas aduziram os milhões de mortos da II Guerra Mundial.

Vê-se como, a partir de um tal embuste, se logra associar, para consumo de incautos, Stalin a Hitler, operação a que se entregou mesmo uma autora como Hannah Arendt, que tendo elogiado a União Soviética de Stalin no imediato pós II Guerra, termina por abraçar a idéia da associação entre comunismo e nazifascismo − ambos totalitários, sustentou. Na verdade, uma tese cara não só à ideologia da Guerra Fria, mas do próprio ponto de vista fascista, insiste Losurdo, remetendo a uma citação de Thomas Mann: “Colocar no mesmo plano moral o comunismo e o nazifascismo, como sendo ambos totalitários, no melhor dos casos é superficialidade, no pior dos casos é fascismo. Quem insiste nesta equiparação pode bem considerar-se democrático, mas na verdade e no fundo do coração já é... fascista...”.

Ora, a título de uma comparação apenas empírica, não é questão de somenos opor as condições das prisões soviéticas àquelas dos campos de concentração nazistas. Abundantes relatos demonstram que no país comunista grassavam boas condições de vida – aliás, de algum modo confirmando observação da própria Arendt, que notou não haver campos de extermínio na URSS. É exemplo o presídio moscovita de Butirka, que em 1921 permitia que “os prisioneiros saíssem livremente da prisão”, organizassem “sessões de ginástica matutina”, formassem “uma orquestra e um coro,... um círculo com revistas estrangeiras e uma boa biblioteca”. Ou ainda, no início dos anos 30, em plena virada staliniana, o exemplo das colônias penais do extremo norte, que contavam com investimentos na construção de hospitais, treinamento “a alguns detidos para a profissão de farmacêutico e enfermeiro”, edificação de “empresas agrícolas coletivas” para “suprir as necessidades alimentares”, e até escolas de formação técnica, para ex-Kulaks “analfabetos ou semi-analfabetos”.

Por certo, em cada um dos casos, não é sem sentido falar de um espírito de reabilitação, donde as tantas iniciativas inspiradas nas idéias de Gorki, como a abertura “de salas cinematográficas e círculos de discussão” e mesmo o pagamento “de um salário regular aos prisioneiros”. E, se há tragédias conhecidas, como a dos exilados da ilha de Nazino (Sibéria ocidental) em 1933, marcados pela fome, o que os fez se alimentarem de cadáveres, não decorrem elas de uma vontade homicida como quer fazer crer a militância anticomunista, mas antes “da falta de programação”.

Insistindo ainda nas comparações, Losurdo lembra como um autor caro a Hitler, o angloalemão Houston S. Chamberlein, sabia muito bem diferir socialismo e nazismo, o primeiro filho “das idéias de confraternização universal do século XVIII”, de “origem comum e da unidade do gênero humano”, o segundo do século XIX, o “século das colônias” e das “raças”, cujo “mérito” teria sido o de refutar a mitologia da origem comum e da unidade do gênero humano a qual se apegavam os socialistas. Com efeito, e até para não cair-se no engano de pôr na conta da psicopatologia de Hitler as infâmias do nazismo (tendência observada em Roosevelt, nota o autor), é preciso entender que o Füher tomou do mundo preexistente a ele, o mundo dos impérios coloniais do século XIX, dois elementos centrais, agora levados à radicalização: a) a missão colonizadora da raça branca do Ocidente; b) a leitura da Revolução de Outubro como um complô judeu-bolchevique que estimulava a revolta dos povos coloniais e minava a hierarquia natural das raças. (Aliás, aqui se compreende bem o porquê da implacável perseguição aos comunistas  “arrancaremos de todo livro a palavra marxismo”, diz Hermann W. Göring, ministro do interior e segundo homem do regime : são os últimos a pôr em questão o projeto imperial e racial do III Reich)

Quanta diferença, pois, entre o Hitler que chama o povo russo de “animais ferozes” – Stalin seria um ser proveniente dos “infernos”, confirmando o caráter “satânico” do bolchevismo − e diz ser destino do povo ucraniano, como todos os povos subjugados, ficar à devida distância da cultura e da instrução, inclusive sem saber “ler e escrever”, e o Stalin que, posto diante da miséria extrema legada ao povo pelo czarismo, se põe à tarefa da elevação do nível de vida e da emancipação geral de todos os soviéticos. São exemplos, já em meados dos anos 30, o desenvolvimento de nações até então marginalizadas, por meio de ações afirmativas, a equiparação dos direitos jurídicos entre homem e mulher, o surgimento de sólido sistema de proteção social com pensões, assistência médica, proteção das grávidas, abonos familiares, o desenvolvimento da educação e da esfera intelectual em seu conjunto, com a extensão de uma rede de bibliotecas e salas de leitura e a difusão do gosto pelas artes e poesia. Além de importante expansão e modernização da vida urbana, com a construção de novas cidades e a reconstrução das velhas.

Responde por essa grande transformação operada pelo país saído da revolução, certamente, a grande popularidade de que desfrutou Stalin, continuada mesmo após o biênio do Grande Terror (1937-1938), o que não se explica simplesmente pela censura e repressão de Estado, acentua Losurdo, mas pelas chances de promoção social existentes. Basta lembrar a ascensão dos stakanovistas, tornados diretores de fábricas, bem como a ampla mobilidade vertical observada no exército. Aliás, conhecendo o progresso social da Rússia soviética, vem a tempo notar que Stalin assinala ser o regime de Hitler, com seu pisoteio sobre o direito dos intelectuais, dos operários, dos povos, com o desencadeamento dos pogroms medievais contra judeus – os ataques populares de violência −, uma cópia do reacionário regime czarista.

Sabemos que a retórica que associa o movimento vitorioso em Outubro de 1917 e o nazismo aparece também nas referências ao “pacto” de não agressão firmado com a Alemanha hitlerista em agosto de 1939 – o “pacto” Molotv-Ribbentrop. Ora, não sendo puro ardil anticomunista, sustentar este ponto de vista é não conhecer minimamente a geopolítica que precedeu a II Grande Guerra, ou mesmo todo o contexto geopolítico que se abre com a Revolução de 1917.

De fato, assinala Canfora, de algum modo o “pacto” está em linha com a política de relações internacionais da URSS aberta por Lenin – e ao lado do qual se colocou Stalin − através da paz de Brest-Litovsk, assinada com a Alemanha em 1918, qual seja, a de que “os imperialistas se massacram entre eles, nós ficamos de fora e nos fortalecemos”. Por outro lado, terminada a I Guerra, a política de frentes – ou grandes alianças democráticas − a qual se entregou o país comunista, aprovada no III (1921) e IV (1922) Congresso do Komintern, viu-se constantemente sabotada por França e Inglaterra (mas também – e com alguma razão − pela oposição trotskista nas colônias). Já em 1925 o primeiro país se aproxima da Alemanha através do tratado de Locarno (Suíça), isolando a URSS, ao passo que em 1926 é a vez da Grã-Bretanha romper relações comerciais e diplomáticas com o país comunista, convidando a França a fazer o mesmo. E, às vésperas da Guerra, os dois países, já tendo abandonado a República espanhola − ajudada militarmente apenas pelos soviéticos e pelas brigadas internacionais –, que caía ante o fascismo, se desinteressam por um acordo com a URSS contra a Alemanha. Além disso, desde o golpe de Estado do fascista Pilsudki em 1926, a Polônia apresentava-se como um inimigo declarado da URSS − notadamente empenhada em retirar-lhe a Ucrânia −, sendo que desde 1934 está abertamente subordinada à política alemã. Enquanto a leste o Japão era uma ameaça real, aliás contida na medida em que o “pacto” permitiu aos soviéticos enviar armas e munições para que a China se protegesse do país nipônico – até Pearl Harbor abastecido em petróleo e gasolina pelos EUA, vale notar −, como observou Mao Zedond.

Posto o quadro acima, difícil dizer, como sustenta o artigo de Canfora, que o “pacto” não fosse, e a despeito de continuar o pragmatismo iniciado em Brest, uma forma de ganhar tempo para “preparar-se” melhor. A tese, aliás, é cara a Trotski e Kruchiov, a quem Canfora parece seguir também quanto ao despreparo das linhas soviéticas. Mas como não aceitá-la sabendo que Stalin tinha bem presente a análise que fez o general Foch pouco depois da assinatura do Tratado de Versalhes, o Tratado que “pôs” fim a I Guerra Mundial? Qual seja, a de que não se tratava da paz, mas “apenas de um armistício por vinte anos”. Quanto às linhas soviéticas, é preciso ater-se à geografia. De fato, a despeito das enormes dimensões do Exército Vermelho, o sucesso inicial das unidades alemãs se beneficiou da ampla extensão do front (1800 milhas) e da escassez dos obstáculos naturais  além das cidades muito distanciadas entre si, e para as quais convergiam estradas e ferrovias, o que deixava ao inimigo inúmeras alternativas de infiltração.

Mas tratar da luta contra o nazifascismo é, também, para Losurdo, extrair uma periodização que explique a era Stalin − ou mesmo toda a história russa. Com efeito, seria ela a da conclusão de um segundo grande período de desordem da história russa. O primeiro deles, que compreende o século XVII, encerrara-se com a subida de Pedro O Grande ao trono (1689). Já o segundo tem início com a I Guerra Mundial, seguindo até o reforço do poder de Stalin e a aceleração da industrialização pesada do final dos anos 20 que ele levou a efeito, bem como a “ocidentalização” que lhe corresponde.

Ora, para Losurdo, a marca desse segundo período não é a de um regime totalitário, mas, antes, a de um estado de exceção, ou uma ditadura desenvolvimentista. Esta responde a uma guerra civil prolongada, cujo início foi a luta contra o czarismo e as potências aliadas entre 1914 e fevereiro de 1917, mas que segue na vitória sobre os mencheviques em outubro de 1917 e com as divergências dentro do grupo dirigente bolchevique após a morte de Lenin. Tudo no contexto de uma crescente hostilidade internacional, ou do perigo iminente, para lembrar uma noção do filosofo estadunidense Michael Walzer, que Losurdo utiliza − não sem uma certa restrição, deve-se notar − para dar conta do universo concentracionário da era Stalin. Daí poder-se compreender, pois, as seguidas ações insurrecionais  como a tentativa de golpe feita por Trotski durante o desfile pelo décimo aniversário da revolução  as tramas em ambientes militares  como as que parecem ter atraído o general Tukatchevski  ou ainda os muitos assassinatos  como o que vitimou Kirov, aliás hoje já não atribuível a Stalin. A propósito, se se trata de falar dos processos de Moscou, o novo material que a abertura dos arquivos russos tornou disponível tem permitido concluir que eles “não foram um crime sem motivo e a sangue frio, mas a reação de Stalin durante uma aguda luta política”.

Antes que se diga que o livro é pura apologia do socialismo à moda soviética, ou uma hagiografia de Stalin, bom notar a crítica teórica a que ele submete alguns dos fundamentos do marxismo-leninismo ou, para dizer mais corretamente, do marxismo em todo o seu conjunto. No fundamental, Losurdo debruça-se aqui sobre a dificuldade deste quanto a desapegar-se do universalismo abstrato. É a partir daqui, anota, que emergem os tantos problemas com que se deparou a construção da nova sociedade em esferas como o mercado e o dinheiro, o Estado, a nação, a norma jurídica, a família. No fundo, tratou-se da dificuldade, tão comum no âmbito das esquerdas, em passar do universal ao particular. Ora, o curioso é que aqui, a necessidade de dar soluções a questões muito concretas, fez de Stalin o que logrou esboçar importantes avanços − e isso, vale notar, se aproximando de teóricos que, no mais das vezes, são chamados para criticá-lo (Gramsci, Hegel, o próprio Marx) −, conquanto mesmo ele tenha ficado a meio caminho.

Veja-se a questão do mercado e do dinheiro. Enquanto o campeão do reformismo, Karl Kautsky, já em 1918, se entrega à crítica da permanência da produção de mercadorias e da propriedade privada da terra – a cargo dos intelectuais e do proletariado, segundo ele −, num tom que nada o distingue, por exemplo, da crítica extremista de Trotski à NEP − que fala de restauração do capitalismo sob o comando de uma burocracia para apelar à supressão do dinheiro e de qualquer forma de mercado –, Stalin, em relatório de 1934 ao XVII Congresso do PCUS, insiste na necessidade de se prevenir contra “as fofocas esquerdistas..., segundo as quais o comércio soviético seria um estágio ultrapassado e o dinheiro deveria ser logo abolido”. Ora, no lugar de um mercado ou uma economia monetária em geral, trata-se aqui da “construção de um sistema determinado de produção e distribuição da riqueza social”.

Aliás, do anterior decorre outra questão não menos importante, e nem sempre bem compreendida, qual seja, a das diferenças de rendimento no socialismo. Stalin tem bem presente, adverte Losurdo, a referência de Marx no Manifesto quanto à ilusão de que o socialismo seria o reino de um “ascetismo universal” e do “igualitarismo grosseiro”: “O nivelamento no campo das necessidades e da vida pessoal é um absurdo pequeno-burguês digno de qualquer seita primitiva de asceta, não de uma sociedade socialista organizada no espírito marxista, porque não se pode exigir que todos os homens tenham necessidades e gostos iguais... Por nivelamento, o marxismo entende não já o nivelamento no campo das necessidades pessoais e condições de vida, mas a destruição das classes”, afirma. De fato, estamos diante da aporia posta por Hegel na Fenomenologia do Espírito, segundo a qual “uma satisfação igual das necessidades diferentes dos indivíduos” leva a “uma desigualdade em relação... à distribuição dos bens’” (à quota de participação), ao passo que “uma ´distribuição igual` dos bens... torna desigual... a ´satisfação das necessidades`”. Aporia a qual Marx fez corresponder, respectivamente, as etapas socialista e comunista da divisão do trabalho, sendo que na última delas, o estágio alcançado pelas forças produtivas torna sem importância a desigualdade  que está sempre presente, pois.

Questão semelhante se põe quanto ao Estado e a nação. Enquanto Trotski, radicalizando o universalismo abstrato, acusa a construção do socialismo na Rússia de nacional-reformista, Stalin irá sublinhar a necessidade de ligar “um nacionalismo sadio, corretamente entendido, com o internacionalismo proletário”, uma advertência que em tudo lembra a distinção de Gramsci entre cosmopolitismo e internacionalismo, o último devendo saber “ser ao mesmo tempo ´profundamente nacional’”. Ora, Stalin tem presente que a luta de classe se configura agora como o compromisso de desenvolver economicamente e tecnologicamente o socialismo na URSS, que assim daria sua contribuição à causa internacionalista da emancipação. Fato ainda mais relevante quando se tratou de resistir aos “planos de escravização do imperialismo nazista”, o que significa dizer que “a marcha da universalidade passava através das lutas concretas e particulares dos povos decididos a não se deixar reduzir à condição de escravos ao serviço do povo hitleriano dos senhores”.

Mas não se trata apenas de uma determinada conjuntura. A questão parece atravessar mesmo todo o problema das transições, como o demonstram as referências às reflexões do idealismo alemão acerca da Revolução Francesa. Kant alertou, destaca Losurdo, quanto a uma “universalidade excessivamente extensa”, afirmando que “o apego ao próprio país” deve conciliar-se com “a inclinação a promover o bem do mundo inteiro”. E Hegel, desenvolvendo a mesma linha de pensamento, celebra “como uma grande conquista histórica a elaboração do conceito universal de homem (titular de direitos ‘enquanto homem e não enquanto judeu, católico, protestante, alemão, italiano, etc.’)” sem, todavia, deixar de acrescentar que esta celebração “não deve desembocar no ‘cosmopolitismo’ e na indiferença ou oposição com respeito à ‘vida estatal concreta’ do país do qual se é cidadão”.

Ora, mas a questão do Estado e da nação é também a questão das relações entre democracia e socialismo. Uma questão a qual não descuidou Lenin, lembra o autor remetendo-nos a uma passagem do líder bolchevique: “quem quiser caminhar para o socialismo por um caminho que não seja a democracia política, chegará inevitavelmente a conclusões absurdas e reacionárias, tanto do ponto de vista econômico como político”. Mas de que modo o universalismo abstrato de que acima se falou teve aqui também seus efeitos?

O apego à tese da extinção do Estado, eis o ponto problemático, acusa Losurdo. Com efeito, fortemente influenciados pelo anarquismo, diferentes revolucionários se entregaram à crítica acerba de toda a forma de poder − incluindo o desprezo ao “parlamento, aos sindicatos, aos partidos, às vezes até ao partido comunista, ele mesmo afetado pelo princípio da representação e, portanto, pelo flagelo da burocracia”. Trotski é o expoente máximo dessa crítica, sabemos, mas ela afeta a todos  sendo mesmo ele, por exemplo, ao lado de Lenin, objeto de rejeição por Alexandra Kollontai nos primeiros anos da Rússia soviética. Aliás, lembra o autor, antes de insistir, em Melhor menos, mas melhor, na tarefa de “edificação do Estado”, do “trabalho administrativo”, para o qual dever-se-ia contar com “os melhores modelos da Europa ocidental”, mesmo Lenin, em O Estado e a revolução, defende necessitar a fase pós revolucionária “unicamente de um Estado em vias de extinção”.

É a Constituição de 1936 que inicia um rompimento com este messianismo − segundo o qual “´o direito é ópio para o povo` e ´a idéia de constituição é uma idéia burguesa`” −, assinala Losurdo. E é Stalin que sublinha não se contentar esta Constituição apenas “em fixar os direitos formais dos cidadãos”, antes logrando deslocar “o centro de gravidade para a garantia desses direitos, para os meios de exercício desses direitos”, entre eles a “aplicação do sufrágio universal, direto e igual, como escrutínio secreto” (o que para Trotski não passava da reaparição de uma instituição burguesa). E, ainda em 1938, convocando a que não se transformasse a lição de Marx e Engels “num dogma e numa escolástica vazia”, elabora que, entre as funções do Estado socialista, “além daquelas tradicionais de defesa do inimigo de classe no plano interno e internacional”, está a função do “trabalho de organização econômica e o trabalho cultural e educativo dos órgãos” do Estado. Isto com a “finalidade de desenvolver os germes da economia nova, socialista, e de reeducar os homens no espírito do socialismo”, devendo mesmo a “função de repressão” ser “substituída pela função de salvaguarda da propriedade socialista contra os ladrões e os dissipadores do patrimônio do povo”.

Certamente, estas declarações estão em contradição com o Grande Terror e a dilatação do Gulag do final dos anos 30. Não obstante, se a ditadura do proletariado, como fixou Lenin em O Estado e a Revolução, é o poder que não se vincula a nenhuma lei, Stalin, no imediato pós II Guerra, declara que Bulgária e Polônia podem “realizar o socialismo de modo novo, sem a ditadura do proletariado”, e que mesmo na URSS, se “não tivéssemos tido a guerra, a ditadura do proletariado teria tomado um caráter diferente.” Algo esboçado após a vitória sobre os Kulaks, como se pode ver na rejeição das emendas à Constituição que queriam “privar dos direitos eleitorais os ministros do culto, os ex-guardas brancos, todos os ´ex` e as pessoas que não desempenham um trabalho de utilidade pública”, bem como a rejeição da proposta de “proibir as cerimônias religiosas.”

Sem dúvida, insiste Losurdo, toda a teorização em torno das funções do Estado, “em si uma novidade essencial”, ficou a meio caminho. Se Stalin fala da conservação do Estado na fase comunista, o faz ainda condicionada ao “cerco capitalista”, ao “perigo de agressões armadas do exterior” (mesmo a questão da língua nacional, onde deu enorme contribuição, insistindo diferir ela “de maneira radical de uma superestrutura”, já que não criada “por uma classe qualquer, mas pela sociedade inteira”, é ainda pensada como sujeita a extinção nesta fase). Ora, é aqui que, para Losurdo, se impõe uma valorização de Hegel. Mais precisamente do Hegel que falou de aprendizagem de governo ao se debruçar sobre a Revolução Francesa e sua congênere inglesa do século XVII  no fundamental, do Hegel que falou da necessidade dialética de dar “conteúdo concreto e particular à universalidade, pondo fim à perseguição louca da universalidade nas suas imediatez e pureza”.

Eis aqui também a raíz da tragédia que foi o Grande Terror de 1937-38, ou da coletivização forçada da agricultura ao cabo dos anos 20 − e para a qual contou mesmo o messianismo de parcela não desprezível da população, saudosa do igualitarismo da fase do comunismo de guerra −, raiz, enfim, da dificuldade de avançar em direção à democracia socialista. Lições, aliás, inescapáveis se se quiser entender a evolução dos países socialistas que aí estão (China, Vietnã), empenhados na construção tanto de uma neo-NEP, com o objetivo maior de desenvolver as forças produtivas nacionais, quanto de todo um conjunto de regramento jurídico que só muito forçosamente pode ser interpretado como simples democratização formal. Uma evolução, diga-se, que em nada lembra a apostasia gorbachoviana − bem demonstrada no ensaio de Canfora −, como gostam de fazer crer não só os mais messiânicos no interior da esquerda, mas a própria direita, sempre pronta a decretar a morte do socialismo.

_____________

Marcos Aurélio da Silva é Prof. dos cursos de graduação e pós-graduação em Geografia da UFSC.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Relendo a Bíblia

Fac-símile da Biblia de Gutemberg

E foram muitos mais os que matou morrendo, do que os que matara antes quando vivo(Juízes 16,30).

Esse trecho da Bíblia conta como Sansão, o hebreu (o que veio de fora) matou mais de três mil filisteus dando cabo à própria vida. Ou seja, sacrificar-se juntamente com o inimigo não é algo original no Oriente Médio.

Há mais de dois mil e quinhentos anos que isso acontece, mas coube a Sansão o mérito da primazia.

Para os raros leitores da Bíblia (apesar de ser o livro mais vendido no Ocidente) explica-se que Sansão era um sujeito inquieto que gostava de uma briga. Em Juízes 16,15 está escrito: “E pegando na queixada de um jumento, que achou à mão, e que jazia ali, matou com ela mil homens”.

A bíblia não explica quanto tempo ele levou para matar mil homens na base da porrada e nem como isso foi possível. O que não tem a menor importância porque todo mundo acredita no Livro Sagrado mesmo sem nunca tê-lo lido.

Sansão gostava de freqüentar o que as más línguas de hoje denominam de prostíbulos.

Seu nome em aramaico (Shamshum) significa pessoa ágil e vivaz, mas, infelizmente para ele, não tão ágil e vivaz quanto a belíssima Dalila, por quem se apaixonou perdidamente a ponto de lhe revelar a origem de sua força.

Dalila, cujo nome pode ser traduzido como Guia ou Orientadora, aproveitou-se para vingar o massacre de seu povo. Afinal, num mundo onde ainda prevalece o olho por olho, dente por dente, há pouco espaço para o amor, para o perdão e para a solidariedade. O resto da história todo mundo conhece, graças ao cinema.

Após sacrificar a própria vida para matar seus inimigos, Sansão foi enterrado no túmulo de seu pai Manué, “depois de ter sido juiz de Israel vinte anos (19-31)”.

Mais de dois mil e quinhentos anos depois, o número de adeptos de seu exemplo (matar o inimigo com o próprio sacrifício) cresce vertiginosamente.

O que não deixa de ser lamentável.

Será isto o que nos reserva o mundo?

Fonte: http://blogdobourdoukan.blogspot.com/

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Tiradentes: a construção de um herói republicano

Décio Villares. Tiradentes, 1928

Paula de Almeida Franco
Dia 21 de abril é mais conhecido como o dia da morte de Tiradentes, um importante herói republicano que foi enforcado em 1792, cujo feriado é atribuído em sua homenagem. Mas quais foram as razões da adoção de Tiradentes como herói republicano?
Antes de respondermos essa pergunta é preciso ter em mente qual o significado de um herói. Heróis são símbolos de identificação coletiva, ou seja, são aquelas pessoas reconhecidas através de seus feitos, por um país ou região, ocorrendo, entre eles, uma identificação. É possível pensar em uma nação que não tenha heróis? Já adianto a resposta dizendo que não, pois os heróis são fortes instrumentos para atingir a cabeça e o coração dos cidadãos em prol da legitimação de um regime político, assim, não há nação sem o seu respectivo herói.
Existem dois tipos de herói: aqueles que surgem espontaneamente das lutas realizadas e aqueles de menor impacto popular e que, portanto, tiveram um empurrãozinho para a promoção da figura. É nesse último perfil que se encaixa o nosso herói Tiradentes.
Mas se o herói era republicano, por que não eleger aqueles que fizeram parte do movimento da Proclamação? Em primeiro lugar, podemos apontar o que já foi discutido no post sobre este tema: os envolvidos foram uma pequena parcela da população, a maioria simplesmente assistiu ao que estava acontecendo. Em segundo, Deodoro da Fonseca, Benjamin Constant e Floriano Peixoto eram figuras que sofriam lacunas no quesito herói, pois não tinham espírito de líder, ou não tinham aparência física e comportamento carismático.
Pouco se sabe sobre a memória de Tiradentes, pois a documentação é escassa. Sobre o dia do seu enforcamento existem dois relatos que apontam a multidão presente em compaixão com o réu prestes a morrer. O sentimento de que a pena fora excessiva e injusta se alastrou pelas cidades vizinhas de Vila Rica. Além disso, a literatura brasileira contribuiu também para divulgar o acontecimento. Castro Alves escrevera: “Ei-lo, o gigante da praça,/ O Cristo da multidão!/ É Tiradentes quem passa…/ Deixem passar o Titão.”

Pedro Amério. Tiradentes esquartejado, 1893.

O primeiro conflito político envolvendo a memória de Tiradentes ocorreu em 1862. Nesta data o governo queria inaugurar no local onde fora enforcado Tiradentes, uma estátua de D. Pedro I, que o condenara à morte. Na ocasião houve manifestação dos liberais com a publicação de um folheto dizendo que Tiradentes foi o primeiro mártir que morreu pela pátria e que foi responsável por levar o povo brasileiro à “salvação”.
Outro episódio que contribuiu para a construção da imagem de Tiradentes foi o que se sucedeu à publicação da obra de Joaquim Norberto de Souza Silva, História da Conjuração Mineira. Norberto teve acesso a documentos nunca antes estudados sobre a Inconfidência e apontou Tiradentes como figura secundária no movimento. Essa revelação inquietou as pessoas, principalmente os republicanos que chamaram Norberto de monarquista convicto.
Independente da sua posição política o que mais causou irritação foi ele ter discorrido sobre as transformações na personalidade e no comportamento de Tiradentes durante o tempo em que este ficou preso. Segundo Norberto, o isolamento, os repetidos interrogatórios e a ação dos frades franciscanos fizeram com que o seu ardor patriótico se transformasse em altar de sacrifício. Os republicanos protestaram, pois negavam a idéia de que Tiradentes beijara as mãos e os pés do carrasco, que havia caminhado até a forca com um crucifixo no peito, ou seja, negavam a idéia de que Tiradentes tivesse perdido o seu impulso e rebeldia patriótica. Porém, diminuir a sua importância dentro do movimento inconfidente era aumentar a participação de Tomás Antônio Gonzaga, representante da elite brasileira. Logo o apelo popular de Gonzaga não era de mesmo impacto que o de Tiradentes e, portanto, estava longe de representar a nação.
A partir da publicação de Norberto, intensificaram-se as alusões de Tiradentes com Cristo. Ter sido traído e morto por lutar pela salvação do povo/pátria foram características presentes na vida dessas duas figuras. A partir daí as representações imagéticas foram cada vez mais se assemelhando.
Dessa forma, Tiradentes estava cada vez mais presente no imaginário dos brasileiros, e aos poucos todos iam se identificando com esse homem. Começaram a ligar Tiradentes às principais transformações pelas quais passava o país: a Independência, a Abolição e a República. A sua aceitação veio, assim, acompanhada de sua transformação em herói nacional, mais do que em herói republicano. Ele unia o país através do espaço, do tempo e das classes. Para isso, sua imagem precisava ser idealizada e a falta de documentos contribuiu para que esse processo fosse tranqüilo.
Aos poucos todos os regimes e movimentos políticos se apropriaram de alguma forma da imagem de Tiradentes. O governo republicano declarou o dia 21 de abril feriado nacional e, em 1926, construíram a estátua em frente ao prédio da Câmara. O governo militar em 1965 o declarou patrono cívico da nação brasileira e mandou colocar retratos seus em todas as repartições públicas. Durante o Estado Novo foram representadas peças teatrais, com apoio oficial, exaltando o herói. Nessa época também houve uma tentativa em modificar a representação tradicional. José Walsht Rodrigues pintou Tiradentes como alferes, um herói cívico e um militar de carreira. Tentativa falha, pois até hoje quando pensamos em Tiradentes, o ligamos com aquela imagem barbuda, serena, imortalizada assim como a imagem de Cristo.

José Walsht Rodrigues. Alferes Joaquim José da Silva Xavier, 1940.

Como podemos perceber, desde o enforcamento de Tiradentes, a sua imagem e a sua história foram sendo recontadas por diferentes grupos. Os republicanos foram aqueles que mais se apropriaram e incorporaram no seu discurso a importância de Tiradentes na história brasileira, apontando-o como o principal responsável pela “salvação” do povo, para que nem ele e nem a república fossem esquecidos: missão cumprida!
Dica:
Texto baseado no livro de CARVALHO, José Murilo. A Formação das Almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

Ossadas de inconfidentes são identificadas

Mais de 200 anos após suas mortes no degredo, na África, três inconfidentes – José de Resende Costa, Domingos Vidal Barbosa e João Dias da Mota – ganharão lugar no Panteão do Museu da Inconfidência/Ibram, em Ouro Preto (MG), juntando-se aos outros 13 inconfidentes já sepultados no monumento.

O sepultamento será feito em 21 de abril, Dia de Tiradentes, às 9h30min, com a presença da presidenta Dilma Roussef, da ministra da Cultura, Ana de Hollanda, e do presidente do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram/Ministério da Cultura), José do Nascimento Junior, além do governador de Minas Gerais, Antonio Anastasia, e do diretor do museu, Rui Mourão.

A identificação das ossadas exigiu anos de estudos e uma parceria entre história e ciência. Com o trabalho de especialistas em odontologia legal da Unicamp, o Museu da Inconfidência – que desde 1980 realizava pesquisas históricas sobre o caso – pôde comprovar que os ossos, repatriados da África para o Brasil nos anos 1930, são mesmo dos três inconfidentes.

Os estudos foram realizados por equipe da Unicamp chefiada pelo professor Eduardo Daruge, doutor em odontogia legal. “Através de todas as informações obtidas e por exames técnicos posso dizer que temos de 98% a 100% de certeza de que as ossadas são dos três inconfidentes”, afirmou Eduardo Daruge, em coletiva à imprensa realizada no auditório do Ibram, nesta sexta-feira (15/4).

Ao todo, 26 nomes estão associados à Inconfidência Mineira e têm seus nomes registrados no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto. Destes, 13 tiveram seus despojos identificados e estão sepultados no Panteão da Inconfidência. Com os despojos de José de Resende Costa, Domingos Vidal Barbosa e João Dias da Mota serão 16 inconfidentes identificados, os outros 10 têm paradeiro desconhecido. “Tudo o que pudermos acrescentar à história da Inconfidência Mineira é importante, até porque esses personagens (José de Resende Costa, Domingos Vidal Barbosa e João Dias da Mota) deram contribuição efetiva ao movimento”, explicou Rui Mourão.

Os inconfidentes identificados
José de Resende Costa, pai (1728-1798) – Era capitão do Regimento de Cavalaria Auxiliar da Vila de S. João e fazendeiro em Arraial da Laje, hoje chamado Resende Costa (MG). José de Resende Costa, pai, foi preso em 1789, junto com seu filho de mesmo nome, e condenado à morte com outros inconfidentes. No degredo, foi contador e distribuidor forense até 1798, quando morreu. Seu filho voltou ao Brasil em 1803.

João Dias da Mota (1744 – 1793) – Nasceu em Vila Rica. Foi capitão do Regimento da Cavalaria Auxiliar da Vila de S. João e fazendeiro. Era amigo de Tiradentes. Morreu em setembro de 1793, nove meses após chegar a Cacheu, de uma epidemia que assolou a região.

Domingos Vidal de Barbosa (1761-1793) – Nasceu em Capenduva, de família abastada. Estudou medicina em Bordeaux, na França. Participou de forma discreta na conspiração. Encontrou-se com Thomas Jefferson (então embaixador na França e depois presidente americano) na Europa, quando teria obtido apoio à causa dos inconfidentes.

Os 13 inconfidentes já sepultados no Panteão do Museu da Inconfidência:

Inácio José de Alvarenga Peixoto
Tomaz Antônio Gonzaga
João da Costa Rodrigues
Francisco Antônio de Oliveira Lopes
Salvador Carvalho do Amaral Gurgel
Vitoriano Gonçalves Veloso
Vicente Vieira da Mota
Antônio Oliveira Lopes
José Aires Gomes
Luiz Vaz de Toledo Pisa
Domingos de Abreu Vieira
Francisco de Paula Freire de Andrada
José Álvares Maciel

(Ibram/ MinC)

sábado, 13 de novembro de 2010

Por que Hitler odiava os judeus?

O anti-semitismo tem raízes religiosas milenares

por Marta Francisca Topel*

Para compreender o anti-semitismo, é fundamental diferenciá-lo do antijudaísmo. O antijudaísmo é o ódio à religião judaica como ideologia ou visão de mundo, enquanto o anti-semitismo é o ódio aos judeus como nação. Entretanto, aqueles que professam o antijudaísmo acabam sendo anti-semitas, uma vez que partem do pressuposto de que a religião judaica contaminou a nação que segue seus preceitos. Por sua vez, o anti-semitismo desemboca no antijudaísmo, ao sustentar-se na premissa de que só uma nação racialmente inferior pôde ter criado uma religião tida como a religião do Mal.

Na Antigüidade, seitas eso-téricas conceberam a religião judaica como a religião do demônio e viam os judeus como os agentes na propagação dessa re-ligião do pecado. Essa cosmovisão foi resultado de uma crença dualista, isto é, em dois poderes criadores do universo: o Bem e o Mal, identificando os judeus com o Mal, o que os colocou no papel do mal cósmico e os viu como instrumento do demônio. Todavia, o momento histórico no qual se entrelaçam pela primeira vez e de forma radical antijudaísmo e anti-semitismo é na consolidação da visão paulina. Para o apóstolo Paulo, a revela-ção da Torá é uma revelação temporária, e aqueles que continuam no caminho da Torá após a chegada de Cristo são traidores. Segundo esse raciocínio, os judeus, ao rejeitarem Cristo como Messias e ao assassiná-lo, transformaram-se em agentes do Mal, no povo deicida.

Ao longo de toda a Idade Média, essa idéia foi desenvolvida e materializada pela Igreja católica. É de se destacar os cânones adotados no Concílio de Latrão (1215) que confirmavam a condenação dos judeus à servidão perpétua, proibiam sua integração na sociedade com o objetivo de impedir a contaminação dos cristãos, obrigavam o uso de signos de diferenciação nas vestes, impediam o acesso dos judeus aos cargos administrativos e os excluíam completamente da agricultura e das corporações. Essas medidas enraizaram na população um ódio milenar baseado numa ideologia demonizadora que culpou os judeus e o judaísmo pela morte de Cristo.

O termo anti-semitismo foi criado no século 19, quando as teorias religiosas que acusavam os judeus de deicídio ficaram caducas. Nesse momento, a partir de uma leitura tergiversada das teorias ligadas ao darwinismo social, o motivo para perseguir os judeus começou a ancorar-se em pressupostos biológicos. Assim, para Hitler, existiam três raças: as “fundadoras” ou superiores, representadas pelos povos germânicos, as “depositárias”, pelos povos eslavos, e as “destruidoras” ou inferiores, que tinham nos judeus o exemplo paradigmático. Obcecado com o ideal de pureza racial, Hitler compreendeu a História como uma permanente luta entre as diferentes raças, na qual a raça superior devia utilizar todos os meios necessários para manter sua pureza. A essa visão histórica foi acrescentado o mito da “conspiração judaica mundial”, fortemente difundido em toda a Europa que, entre outras falácias, divulgou a idéia do poder econômico do povo judeu e do seu monopólio dos meios de comunicação. Os judeus foram transformados no bode expiatório e culpados de todos os males pelos quais atravessava a Alemanha, fazendo com que sua eliminação se tornasse um imperativo de Estado.

Muitos ignoram que os campos de extermínio não estavam na Alemanha, mas na Europa do leste. Isso visava pou-par os alemães do “trabalho sujo” e permitia aos poloneses, ucranianos e lituanos, acérrimos anti-semitas de longa data, cola-borar ativamente com o ideal nazista de aniquilação total dos judeus. Nas cidades polonesas de Jedwabne, Radzilow, Wasosz e Stawinski, por exemplo, os moradores assassinaram milhares de ju-deus, sem nenhuma imposição dos ale-mães. Se algum episódio exemplifica o enraizado anti-semitismo polonês, ele é a matança de judeus depois de finalizada a guerra. O pogrom de Kielce (1946), um entre muitos, permanecerá na história polonesa como um dos maiores atos de covardia coletiva, no qual 42 sobreviventes do Holocausto foram assassinados pelos vizinhos. Por quê? Medo destes de ter de devolver, a seus donos judeus, as casas que haviam ocupado ilegalmente.

*Antropóloga e pesquisadora do Programa de Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaicas da Universidade de São Paulo (USP)

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Estátua do faraó Amenhotep III é encontrada em Luxor

CAIRO (AFP) - Arqueólogos encontraram em Luxor, no sul do Egito, parte de uma estátua de quase 3.400 anos que representa o faraó Amenhotep III, anunciou nesta quinta-feira o ministro egípcio de Antiguidades, Zahi Hawass.

A estátua mostra o faraó sentado ao lado do deus Hórus (Sol), com sua cabeça de falcão. A metade superior da estátua, em granito vermelho, foi descoberta no sítio do templo funerário de Amenhotep III, em Kom Al Hitan, no oeste de Luxor.

"É um dos achados mais lindos feitos no sítio funerário" de Amenhotep III, disse Hawass.

Os arqueólogos já haviam descoberto, no mês passado, outra estátua do faraó Amenhotep III, de 3.000 mil anos, na mesma região.

Amenhotep III, que reinou o Egito entre 1390 e 1352 a.C, seria o avô de Tutankamon, segundo análises de DNA de diversas múmias.

Fonte: http://br.noticias.yahoo.com/s/afp/101105/saude/egito_arqueologia



terça-feira, 21 de setembro de 2010

Encontramos Rômulo e Remo!

Arqueólogos romanos descobriram a gruta onde, segundo a lenda, os gêmeos que fundaram Roma teriam sido amamentados pela loba. Todos os anos, no dia 15 de fevereiro, acontecia uma festa no local

por Baudouin Eschapasse
Rômulo e Remo, óleo sobre tela, Pieter Paul Rubens, 1615-1616, Pinacoteca Capitolina, Roma

A lenda da loba que cuida dos gêmeos perdidos mistura história e mito na origem de Roma
O lugar se parece com uma caverna. A gruta de dimensões imponentes, 9 metros de diâmetro por 7 metros de altura, tem paredes decoradas com conchas e afrescos geométricos. No centro, uma grande pintura, uma águia branca sobre um fundo de céu azul. Descoberta em novembro passado, essa sala subterrânea que fica no coração do Germanum, a parte mais sagrada do monte Palatino, no centro de Roma, lembra os hipogeus egípcios que serviam de última residência para os nobres.

Porém, não é um monumento funerário. Ao contrário. De acordo com os arqueólogos que a encontraram – encabeçados pelo professor Giorgio Croci – é a Lupercal, a gruta mítica onde os gêmeos Rômulo e Remo teriam sido amamentados por uma loba. A localização do sítio, sob o palácio de Augusto – que se proclamava o novo Rômulo –, coincide com um local de culto mencionado por Denis de Halicarnasso, historiador grego do século I antes de Cristo. Para o arqueólogo Andrea Carandini, a identificação dessa caverna com a Lupercal mencionada pelo autor antigo não dá margem a dúvidas. A águia branca pintada sobre um fundo de céu azul é o símbolo imperial. Prova de que o imperador incorporara a seu palácio esse lugar altamente simbólico da história romana.

Voltemos à lenda. Rômulo e Remo, filhos da vestal Réia Sílvia e do deus Marte, foram colocados numa cesta e jogados no rio Tibre por um rei usurpador que esperava assim livrar-se deles. Após a cesta encalhar na margem do rio, eles foram amamentados por uma loba, e, em seguida, recolhidos e criados pelo pastor Fausto. Quando se tornaram adultos, os dois irmãos decidiram fundar uma cidade sobre o monte Palatino, no lugar onde o Tibre os havia deixado. Designado rei por sorteio, Rômulo traçou com o arado um sulco para marcar os limites da futura cidade. Adota-se geralmente 753 a.C. como o ano da fundação de Roma. Essa data é comprovada pelas descobertas arqueológicas de 2005 que permitiram desenterrar, perto do Fórum, os vestígios de um palácio datado do século VIII antes de nossa era.

MUSEU DO LOUVRE, PARIS
Mármore em homenagem ao deus Pã, a versão grega de Fauno Luperco, deus da fertilidade

FESTAS PAGÃS
O Palatino é realmente um local propício à mitologia. Nessa colina realizavam-se rituais ancestrais ligados tanto à fertilidade quanto à lenda das origens: as lupercais. Essas festas romanas muito antigas aconteciam em honra ao deus fauno Luperco, divindade pastoral, com o intuito de assegurar a fertilidade dos campos e dos rebanhos. As cerimônias ocorriam no dia 15 de fevereiro de cada ano e coincidiam com a primavera, que começava no dia 5 de fevereiro. Elas são associadas a um ritual de expiação de todas as ofensas aos deuses cometidas pelos homens. Daí vem a etimologia do mês de fevereiro, em latim februarius, que vem de Februa, a festa da purificação. Nessa data, fazia-se uma grande limpeza nas casas e, em seguida, espalhavam-se sal e trigo pelos cômodos.

Os 12 lupercos, os “sacerdotes-lobo”, reuniam-se na Lupercal, a famosa gruta, onde sacrificavam bodes e um cachorro. Durante a cerimônia, lambuzavam de sangue dois jovens oriundos das mais antigas famílias aristocráticas de Roma, apresentados como descendentes diretos dos fundadores da Cidade Eterna – os Fabianos e os Quintiliares, aos quais Júlio César acrescentaria os Julianos. Esses jovens eram conduzidos até o altar de sacrifícios e suas testas ungidas com o sangue dos animais executados. A marca era imediatamente apagada por um chumaço de lã embebido em leite. Os jovens deviam então dar uma gargalhada ritual.

Em seguida os lupercos lançavam-se numa perseguição através das ruas da velha Roma quadrata, a cidade fortificada construída pelo próprio Rômulo. Após terem dado a volta ao monte Palatino, rindo e derramando vinho para purificar o sítio, eles percorriam a cidade, cobertos por peles de animais, chicoteando a população com tiras das peles dos animais mortos naquela manhã. Uma crença popular rezava que esses açoites traziam a fertilidade e favoreciam a descida do leite das mães, de maneira semelhante à flagelação com um ramo de murta durante a festa da Lucaria, em julho. Na esperança de livrar-se das dores do parto, as mulheres grávidas ofereciam-se espontaneamente ao chicote.
© WENDY FARRINGTON / SHUTTERSTOCK

Foto atual das ruínas do Germanum, no monte Palatino, onde foi encontrada a gruta
Como acontecia freqüentemente entre os romanos, esse dia de festa terminava com ágapes, grandes banquetes durante os quais os convidados praticavam jogos de azar. Em especial, uma loteria do amor, sob o signo de Juno, deusa do casamento. As jovens escreviam o nome em fichas que depositavam em uma grande urna, de onde os homens solteiros sorteavam aquela com a qual partilhariam a noite. Dizem que não era raro que os casais assim formados terminassem por se unir perante os deuses. Alguns acreditam que, com a Liberalia, que acontecia por volta de 15 de março, as lupercais faziam parte de um ciclo de rituais iniciáticos que marcavam o fim da infância para os romanos. Outros vêem nos extravasamentos sensuais que acompanhavam os banquetes uma explicação da ambigüidade etimológica que preside à lenda de Rômulo e Remo: a lupa não significa somente loba, mas também prostituta, como o atesta o termo “lupanar” (prostíbulo).

Tais práticas concorreriam mais tarde, a partir de 495, com duas festas católicas instituídas por iniciativa do papa Gelásio I: a da purificação da Virgem no dia 2 de fevereiro e a de são Valentim, no dia 14 de fevereiro. As lupercais seriam definitivamente proibidas em 518, por ordem do imperador bizantino Anastácio.

A descoberta, em novembro de 2007, da lendária gruta de Rômulo e Remo nos faz mergulhar na história fantástica da origem da mais importante cidade da Antigüidade. E, por inacreditável que pareça, ao menos o sítio lendário tornou-se realidade.
CRONOLOGIA

HO NEW / REUTERS
Foto do interior da gruta. O espaço foi alterado durante o reinado do imperador Augusto para celebrar os Lupercais

753 A.C.
Ano estimado de fundação de Roma

Século I A.C.
Início das festividades dos Lupercais em Roma

495
O papa Gelásio I cria duas festas católicas para concorrer com o Lupercal

518
A celebração dos Lupercais é proibida pelo Imperador bizantino Anastácio

2007
Encontrada, em 20 de novembro, a caverna onde Rômulo e Remo teriam sido amamentados pela loba
A FRONTEIRA ENTRE MITO E HISTÓRIA NÃO VALE MAIS
Esclarecimentos de Alexandre Grandazzi, professor de literatura latina em Paris IV – Sorbonne e especialista em Roma.

Baudoin Eschapasse – Há anos que os arqueólogos procuram Lupercal, a gruta onde a loba teria amamentado Rômulo e Remo. Por que lhe dão tanta importância?
Alexandre Grandazzi – Porque, talvez, ela transporte diante de um local de culto maior, que tinha um grande valor simbólico de comunidade e identidade. Porém devemos ser prudentes: por enquanto ninguém entrou nesta cavidade que ainda está quase cheia de terra [a exploração foi feita com uma câmera]. Mesmo se os textos antigos indicam que a Lupercal se localizava realmente na zona onde foi encontrada.

B. E. – Essa descoberta confirma a lenda da fundação de Roma?
A. G. – Por mais excepcional que seja, essa descoberta não é suficiente para provar a veracidade da lenda da fundação de Roma. Mas, se for comprovada, ela mostraria que a lenda romana apoiava-se em uma série de tradições e locais de culto, alguns dos quais poderiam ser muito antigos, pelomenos da idade do bronze: nesse caso, estamos lidando com o fenômeno bem conhecido das grutas cultuais, e muitos exemplos mostram em locais desse tipo uma freqüentação e práticas religiosas que vão desde a Pré-história até a Idade Moderna. Os textos dizem que a gruta havia sido reformada por Augusto e as imagens transmitidas pelos arqueólogos italianos mostram uma decoração que parece datar do início do império.

B. E. – Isso contribui para que a linha que separa mito e história não fique mais tão nítida?
A. G. – O que fica claro com essa descoberta, é que a linha de separação traçada pelos cientistas do século XIX, teoricamente intransponível, entre mito e história, entre verdadeiro e falso, não vale mais. Na realidade, a presença do mito não prova a ausência da história. Pelo contrário! Existe um mito sobre Napoleão, o que não implica que o imperador não tenha existido... Acontece o mesmo com Rômulo: o nascimento da cidade romana, no meio do século VIII antes da nossa era, foi um acontecimento de tão grande alcance histórico que, para guardá-lo na memória e celebrá-lo, os romanos contaram-no sob forma de mito, dando o melhor papel aos deuses e ao maravilhoso, e transformando-o assim em ritos de identidade coletiva. Se quisermos compreender o significado dessas lendas antigas, precisamos rever nossos preconceitos científicos herdados do século XIX.
Baudouin Eschapasse é jornalista e colaborador da revista Historia

Revista História Viva

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

A estreita ponte entre Brasil e Gana

Nossa história com Gana remonta a um período doloroso para muitos de nós. Digo isso, porque há pouco mais de quatro séculos milhares de africanos de várias regiões do continente foram tirados de suas terras e levados forçadamente para as Américas na condição de escravos.


Comunidade de pescadores de James Town, em Acra, capital de Gana.

Milhares desses homens, mulheres e crianças que resistiram tornaram-se nossos ancestrais e formaram o Brasil que temos hoje. Milhares desses homens e mulheres saíram em navios ancorados na margem do que hoje é o território ganense do Atlântico.

A ponte sobre o oceano Atlântico entre Brasil e Gana não se rompeu, mesmo com o fim do tráfico de cativos. Engana-se quem imagina um ganense rancoroso desse passado. Os laços que uniram nosso país a Gana está no nosso sangue, na nossa cultura e no imaginário dos que hoje vivem na outra margem do Atlântico e têm uma história incrível para contar.

A comunidade TABOM, formada por afro-brasileiros que retornaram ao território ganense desde as primeiras décadas do século XIX, luta para fortalecer os laços entre brasileiros e ganenses. Como a maior parte da história recente africana, essa também tem poucos registros, não despertou interesse à minoria que manteve um regime imperialista na África. Mas os afro-brasileiros retornados à Gana a partir do século XIX não deixaram esta história ser esquecida.


Rua Brazil Lane, onde fica a Casa do Brasil, em Acra, capital de Gana.

O nome TABOM é curioso. Segundo a tradição dos retornados quando os afro-brasileiros voltaram ao atual território ganense, antiga Costa do Ouro, eles não dominavam as línguas locais e apenas respondiam, ao ser inquiridos: “Tá bom!”

Assim, o nosso “tá bom”, ‘está tudo certo’, serviu para denominar o grupo de brasileiros de origem africana retornados ao território ganense. Na memória dos retornados ficou também o carinho e a curiosidade sobre uma terra distante, o Brasil, mas ainda muito perto dos corações. Ser ‘Tabom’ em Gana é ser feliz. Nós, brasileiros, somos bem recebidos pelos Tabom, como se encontrássemos parentes que há muito não tínhamos notícias.

Na Casa do Brasil, localizada na capital Acra, são ministradas aulas de português duas vezes por semana. Pelo vilarejo de James Town representantes da sexta e sétima geração de retornados falam de um Brasil que sonharam ou sonham em conhecer. A diplomacia brasileira tem suportado iniciativas de troca cultural entre as duas nações.

No século XXI, brasileiros cruzam o Atlântico de olho no potencial de Gana. O país foi um dos primeiros a conquistar a independênia em 1957. Saiu na frente com estabilidade política e econômica, mas ainda batalha para crescer por meio de sua própria riqueza. Potencial não falta. As condições climáticas fazem de Gana um país bastante adequado para a produção de arroz. De olho nisso, gaúchos estão colhendo este ano, com sucesso, a primeira safra.


Pequenos produtores de arroz em final de colheita, interior de Gana.

O Brasil, através de iniciativas como a Embrapa África, sediada em Gana, tenta inaugurar uma nova forma de cooperação com o continente. A cooperação que consiste, de fato, em troca de conhecimento, visando o crescimento mútuo, digno de duas regiões do mundo em desenvolvimento.

Os produtores locais de arroz ainda saem em desvantagem, precisam de assistência técnica e financeira para competir com os brasileiros, com os estrangeiros que estão de olho na África. Os ganenses precisam de suporte para gerar a renda necessária a uma vida digna. O governo ganense ainda precisa fazer muito por eles.

Brasileiros partindo para Gana e ganenses chegando ao Brasil em busca de aprendizado. Eles vêm enxergando no país-irmão o exemplo e a possibilidade de se superarem. E nós, devemos dar as boas-vindas.

.:: TV Brasil

Fonte: http://civilizacoesafricanas.blogspot.com/2010/09/estreita-ponte-entre-brasil-e-gana.html

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Icaraí esconde abrigo antiaéreo construído durante a 2ª Guerra

Icaraí esconde abrigo antiaéreo construído durante a 2ª Guerra

Publicado em: 12/08/2010

Texto: Liliandayse Marinho

Quem passa pela Avenida Ary Parreiras, em Icaraí, nem imagina que bem debaixo dos milhões de concretos armados que normalmente são utilizados para a construção de edifícios, existe num dos prédios mais antigos e tradicionais do bairro, o Moema, um abrigo antiaéreo, construído entre os anos 39 e 45 com a intenção, provavelmente, de proteger seus moradores da temida 2ª Guerra Mundial, que acabou não chegando ao Brasil, muito menos a Niterói. Bem longe da Guerra e sem nunca ter sido utilizado para a função para qual teria sido construído, o abrigo hoje, funciona como depósito e bicicletário do prédio de 11 andares, já que não pode funcionar nem mesmo como garagem, pois à época de sua construção, como se temia um bombardeio, o abrigo foi reforçado com muitas pilastras e o pé direito construído muito baixo com o objetivo de salvaguardar a vida de quem ali se abrigasse.
Morador há 30 anos do local, o comerciante aposentado Aurelino Fernandes Machado, de 83 anos, é hoje o único que testemunhou a construção do prédio e a intenção de que ali fosse feito um abrigo. Na época, ele morava na rua vizinha, a Joaquim Távora, e a construção de um prédio com um abrigo desse porte era considerada normal.
“Ninguém achava muito anormal porque como estava acontecendo uma guerra e não se sabia se chegaria aqui ou não, então era melhor garantir. Nós achávamos muito interessante”, comentou Aurelino, lembrando que tão logo o prédio terminou de ser construído, o exército soviético (URSS) invadiu a Alemanha isolando os nazistas e o então Führer, Adolf Hitler. Só que aí, já não dava mais para voltar atrás, pois o prédio estava pronto e, à época, os apartamentos de dois ou três quartos foram comprados somente por funcionários e familiares de funcionários do Banco do Brasil.
Hoje com cerca de 250 moradores, o Moema continua sendo um dos edifícios mais tradicionais de Icaraí, mas quem hoje se candidata a morar em um dos três blocos, alugando um imóvel na faixa de R$ 500 a R$ 800, ou comprando por uma média de R$ 250 mil, e pagando condomínio a R$ 430, já sabe que no lugar da garagem existe um depósito que seria impossível ser transformado em garagem.
“Por ser o primeiro prédio alto construído em Icaraí, o Moema tem toda uma história e tradição. Os apartamentos são bem arejados e amplos. Nem todos sabem que aqui funcionaria um abrigo antiaéreo. Como as colunas são bem reforçadas e baixas não tem como quebrar para reformar. Então, utilizamos como depósito ou bicicletário”, conta o sindico Hélio Jorge Abicalil, morador do prédio há 40 anos.
Com o pé direito (altura) com cerca de 3,20 metros, nos apartamentos, o Moema reserva como todo o local que acompanhou a história nacional, fatos que chegaram a assustar moradores por conta do abrigo, mas que não passaram de mal entendido.
“Na época da ditadura colocamos um aviso que haveria uma reunião do PC no subsolo do prédio. Quando estávamos reunidos, o exército cercou o prédio dizendo que fazíamos uma reunião do partido comunista naquele abrigo. Só que o PC era uma sigla que usávamos para Casa de Força. Por sorte havia um coronel morando no Moema que acabou esclarecendo tudo, senão eles iam acabar levando todo mundo”, recorda-se Abicalil.

Fonte: http://www.atribunarj.com.br/noticia.php?id=5544&titulo=Icara%ED%20esconde%20abrigo%20antia%E9reo%20constru%EDdo%20durante%20a%202%AA%20Guerra

sexta-feira, 19 de março de 2010

Escravizados livres

Escravizados livres

por Adriano Belisário

Ao invés da abolição feita por brancos capitalistas, a liberdade como uma conquista dos negros após séculos de resistência. No lugar dos antigos coronéis, as grandes empresas do agronegócio. Outras faces da escravidão foram apresentadas ao público pelos pesquisadores Marcelo Badaró e Keyla Grinberg no debate do projeto Biblioteca Fazendo História de 16 de março.

Professora de História da UNIRIO, Keyla mostrou como a historiografia sobre abolição vem sendo atualizada, enfatizando o papel ativo dos negros neste processo. “A fronteira entre escravidão e liberdade era precária. As possibilidades de acesso à Justiça por parte dos escravos evidenciam uma situação bem tensa”, disse. Segundo ela, assim como era possível para um escravo conseguir a liberdade nos tribunais, também não era difícil um liberto ser re-escravizado. Tema de artigo publicado na RHBN, o caso de Liberata ilustra bem isto. “Essa história daria um filme”, garante a historiadora.

Conhecidos como ações de liberdade, os processos judiciais movidos por escravos ganharam grande repercussão nos debates jurídicos do país, a partir da segunda metade do século XIX. Ainda que os juízes não fossem necessariamente abolicionistas, criou-se uma jurisprudência favorável à libertação dos escravos. Um exemplo era a revogação da alforria por ingratidão, um direito garantido aos senhores de escravos que, aos poucos, se tornou letra morta.

“Negros libertos e escravos procuravam mais a Justiça contra seus senhores do que o contrário. Nestes casos, o Estado quebrava a relação de propriedade entre ambos, afirmando limites para o poder senhorial. A escravidão no Brasil foi uma das que teve mais alforrias. São ações individuais que foram engrossando o caldo que levou à abolição”, explicou Grinberg.

Mas os processos arrastados nos tribunais nem sempre davam conta das demandas dos escravos. Antecipando táticas posteriormente utilizadas pelo movimento operário, como os sindicatos e as greves, muitos deles se reuniam em associações e também cruzavam os braços em forma de protesto.

Propriedade de Barão de Mauá, a fábrica Ponta da Areia foi palco de um dos primeiros levantes do gênero. Em 1857, cerca de trinta escravos que trabalhavam no local paralisaram seus trabalhos até que fossem soltos três parceiros presos por desobediência, exigência prontamente acatada pelo chefe de polícia.

Segundo Badaró, os escravos se agrupavam em associações de ajuda mútua, como a Sociedade Beneficente da Nação Conga, criada antes de 1861, e chegavam até mesmo a solicitar o reconhecimento oficial destas organizações. “Por mais que fossem negados, estes pedidos aconteciam depois que as associações já estavam fundadas e funcionando. Os sindicatos são herdeiros desta tradição”, esclarece o professor da Universidade Federal Fluminense.

Escravidão hoje

Segundo ele, contra a exploração trabalhista, escravos e libertos deram as mão no século XIX. É o caso de João de Mattos, que organizou em 1876 uma greve dos trabalhadores de padaria em Santos, aproveitando a ocasião para forjar cartas de alforria e libertar cativos. “Ele dizia que após o fim da escravidão de fato, continuava a luta pelos escravizados livres”, sublinha Badaró.

Atual ainda hoje, a frase de João de Mattos serve perfeitamente para aqueles que estão em condições “análogas à escravidão”. Em geral, são trabalhadores do campo que, presos por dívidas, não possuem mobilidade, vivem em condições precárias e sofrem maus tratos. “É uma situação que não é residual. Pelo contrário, ela tem crescido. Até o início de 2000, ela predominava nas regiões norte e nordeste. Hoje, é no sudeste e em áreas de expansão do agronegócio, com grandes empresas, holdings”, afirma Marcelo Badaró.

Apesar das semelhanças, o historiador não vê continuidade entre a escravidão de outrora e o trabalho análogo a esta de hoje em dia. “Não é um resquício do passado, mas algo que se atualiza sempre no capitalismo contemporâneo”, assegura.

Saiba mais

Detetives do Passado - Experiências de ensino de História para alunos escolares