Professor de História com pós-graduação em História da África e do Negro no Brasil.CONTATO PROFISSIONAL: 21-9439-5803 (Niterói e São Gonçalo.)
terça-feira, 5 de abril de 2011
sábado, 4 de dezembro de 2010
Hélio Luz: “O Estado criou estes caras”
Dica do leitor Fábio Passos
do Zero Hora, via Instituto Humanitas Unisinos e Consciência.Net
Hélio Luz, radicado em Porto Alegre, sua cidade natal e onde residem familiares, o ex-chefe da Polícia do Rio de Janeiro (de 1995 a 1997, durante o governo de Marcello Alencar) acompanha com interesse a situação lá. Delegado aposentado, Luz dirigia a Polícia Civil do Rio quando agentes prenderam o traficante Marcio Nepomucemo, o Marcinho VP, apontado como um dos líderes do tráfico no Complexo do Alemão – para onde fugiram bandidos armados expulsos da Vila Cruzeiro, na última quinta-feira.
A entrevista para o Zero Hora é de Carlos Etchichury; foi publicada em 28 de novembro de 2010.
A imagem de jovens esfarrapados, armados com fuzis, escopetas, metralhadoras e pistolas, não surpreende Hélio Luz.
– O Estado nunca teve uma política de segurança de médio ou longo prazo. O Estado sempre atuou com uma política de segurança imediata – diz.
Eis a entrevista.
Zero Hora — Como funciona o comando do tráfico no Complexo do Alemão?
Hélio Luz – Ele é diferente das demais favelas. É preciso voltar no tempo. Um dos fundadores do Comando Vermelho (CV), Rogério Lemgruber, o Bagulhão, foi preso na Ilha Grande, na época da ditadura, e conviveu com presos políticos.
Zero Hora — Qual a influência da convivência com os presos políticos?
Hélio Luz — Quando ele saiu da Ilha Grande, começou a se organizar e se juntou com outros líderes. Um deles era o Orlando Jogador, que era do Complexo do Alemão. O Comando Vermelho começou a tomar o espaço de outras favelas, mudando a relação com a comunidade. O pessoal que assumia não tinha respeito com a população, porque era de outra área. O Orlando Jogador cresceu naquela área até ser morto, em 1994. Em seu lugar, assumiu o Marcinho Nepomucemo, o Marcinho VP (Vila da Penha), que era o braço direito do Orlando. Ele era da comunidade, e isso fez toda diferença (mesmo preso, Marcinho VP continua dominando o Complexo do Alemão).
Zero Hora — As imagens da Rede Globo o surpreendem?
Hélio Luz – É uma situação antiga. Esta formação não foi feita em dois anos, cinco anos. Ela foi feita ao longo de 30 anos. Eles conseguem se sustentar no Complexo do Alemão, diferentemente de outras áreas, porque são de lá. Eles conhecem bem o terreno e a comunidade. Mas eles não constituem exército, milícia, coisa nenhuma. É um bando de garotos que não têm nada na cabeça. O fato de eles fugirem juntos supõe algum nível de organização de enfrentamento. Mas não têm.
Zero Hora — Qual foi o momento em que o Estado perdeu o controle da situação?
Hélio Luz – O Estado nunca teve uma política de segurança de longo prazo. Nem de médio prazo. O Estado sempre operou com política de segurança de resultados. Há duas causas para o que nós estamos vendo. Uma, mais remota, e mais grave, que é a questão social. Outra, mais próxima, é restrita à área de segurança.
Zero Hora — A impressão é de que se trata de um grupo organizado.
Hélio Luz -- Quando ocorre esta ação espetacular, você pensa que o Estado venceu e que nós estamos derrotando um inimigo. Mas eles não são inimigos do Estado, eles são integrantes do Estado, mas foram marginalizados. O Estado criou estes caras. É produto direto do que nós fizemos. Num nível mais direto da segurança é resultado da corrupção das polícias do Rio.
Zero Hora — A polícia do Rio é corrupta, como mostrou os filmes Tropa de Elite e Tropa de Elite II?
Hélio Luz -- É muito mais. Se fosse como o filme, seria ótimo. O grande problema é quantas vezes estes garotos foram presos e soltos? Foram para delegacia e liberados? Nem fichados são. Por quê? Porque tem acerto. Eles existem pela permissividade da polícia. Além disso, há questões de fundo. Eles prendem estes 200 que nós vimos fugindo, mas vão colocar aonde? E os outros, sei lá, 20 mil que têm no complexo com a idade deles? Tem política para eles? Vai ser proporcionada uma vida decente para eles? Como será feita a manutenção da área ocupada?
Zero Hora — Qual a opinião do senhor sobre as UPPs?
Hélio Luz — É interessante. Eu não entendo por que colocam recrutas para montar UPPs. Eles dizem que, na média, são uns 200 recrutas com um oficial. Nas 14 UPPs, dá algo em torno de 2,8 mil recrutas, 3 mil recrutas. Então, 3 mil recrutas estão resolvendo a situação da criminalidade no Rio? Tem um contingente de 40 mil policiais, mais 10 mil na Polícia Civil, que não resolveram o problema da criminalidade. É isso que estão dizendo? Se é isso, estão confirmando que o problema é corrupção.
Zero Hora — Qual a solução para o Rio?
Hélio Luz – É desconcentração de renda. Quem tem de dar palpite sobre a segurança no Rio é aquele professor de Pernambuco, o Mozart Neves (ex-reitor da Universidade Federal de Pernambuco, integrante do movimento Educação para Todos). O negócio é educação. Não tem saída.
Zero Hora — O senhor já participou de grandes operações no Complexo do Alemão?
Hélio Luz -- Já participei de operações, mas não de grandes operações. Não precisa. Claro que agora, com essa situação, são necessárias mobilizações. Mas os principais vagabundos do Rio foram presos sem dar um tiro. Tu prende o cara no asfalto.
Zero Hora Esta é a situação mais crítica do Rio?
Hélio Luz -- Em 1994, havia 140 pessoas sequestradas no Rio. O problema era muito sério. Os empresários, na época, queriam sair do Rio. Eles faziam seguro com empresas americanas para ter segurança na cidade. Foi um período de caos. Acabou o sequestro no Rio. Por que acabou? Porque a polícia antissequestro parou de sequestrar.
Fonte: http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/helio-luz-o-estado-criou-estes-caras-2.html
domingo, 21 de novembro de 2010
Marilena Chauí: “A mídia brasileira é uma das mais autoritárias do mundo”
A guerra se deu entre o preconceito e a verdadeira informação
Em entrevista à Carta Maior, Marilena Chauí avalia a guerra eleitoral travada na disputa presidencial e chama a atenção para a dificuldade que a oposição teve em manter um alvo único na criação da imagem de Dilma Rousseff: “o preconceito começou com a guerrilheira, não deu certo; passou, então, para a administradora sem experiência política, não deu certo; passou para a afilhada de Lula, não deu certo; desembestou na fúria anti-aborto, e não deu certo. E não deu certo porque a população dispõe dos fatos concretos resultantes das políticas do governo Lula”. Para a professora de Filosofia da USP, essa foi a novidade mais instigante da eleição: a guerra se deu entre o preconceito e a verdadeira informação. E esta última venceu.
da Redação de Carta Maior
Carta Maior: Qual sua avaliação sobre a cobertura da chamada grande mídia brasileira nas eleições deste ano? Na sua opinião, houve alguma surpresa ou novidade em relação à eleição anterior?
Marilena Chauí: Eu diria que, desta vez, o cerco foi mais intenso, assumindo tons de guerra, mais do que mera polarização de opiniões políticas. Mas não foi surpresa: se considerarmos que 92% da população aprovam o governo Lula como ótimo e bom, 4% o consideram regular, restam 4% de desaprovação a qual está concentrada nos meios de comunicação. São as empresas e seus empregados que representam esses 4% e são eles quem têm o poder de fogo para a guerra.
O interessante foi a dificuldade para manter um alvo único na criação da imagem de Dilma Rousseff: o preconceito começou com a guerrilheira, não deu certo; passou, então, para a administradora sem experiência política, não deu certo; passou, então, para a afilhada de Lula, não deu certo; desembestou na fúria anti-aborto, e não deu certo. E não deu certo porque a população dispõe dos fatos concretos resultantes das políticas do governo Lula.
Isso me parece a novidade mais instigante, isto é, uma sociedade diretamente informada pelas ações governamentais que mudaram seu modo de vida e suas perspectivas, de maneira que a guerra se deu entre o preconceito e a verdadeira informação.
CM: Passada a eleição, um dos debates que deve marcar o próximo período diz respeito à regulamentação do setor de comunicação. Como se sabe, a resistência das grandes empresas de mídia é muito forte. Como superar essa resistência?
MC: Numa democracia, o direito à informação é essencial. Tanto o direito de produzir e difundir informação como o direito de receber e ter acesso à informação. Isso se chama isegoria, palavra criada pelos inventores da democracia, os gregos, significando o direito emitir em público uma opinião para ser discutida e votada, assim como o direito de receber uma opinião para avaliá-la, aceitá-la ou rejeitá-la.
Justamente por isso, em todos os países democráticos, existe regulamentação do setor de comunicação. Essa regulamentação visa assegurar a isegoria, a liberdade de expressão e o direito ao contraditório, além de diminuir, tanto quanto possível, o monopólio da informação.
Evidentemente, hoje essa regulamentação encontra dificuldades postas pela estrutura oligopólica dos meios, controlados globalmente por um pequeno número de empresas transnacionais. Mas não é por ser difícil, que a regulamentação não deve ser estabelecida e defendida. Trata-se da batalha moderna entre o público e o privado.
CM: Você concorda com a seguinte afirmação: “A mídia brasileira é uma das mais autoritárias do mundo”?
MC: Se deixarmos de lado o caso óbvio das ditaduras e considerarmos apenas as repúblicas democráticas, concordo.
CM: Na sua opinião, é possível fazer alguma distinção entre os grandes veículos midiáticos, do ponto de vista de sua orientação editorial? Ou o que predomina é um pensamento único mesmo.
MC: As variações se dão no interior do pensamento único, isto é, da hegemonia pós-moderna e neoliberal. Ou seja, há setores reacionários de extrema direita, setores claramente conservadores e setores que usam “a folha de parreira”. A folha de parreira, segundo a lenda, serviu para Adão e Eva se cobrirem quando descobriram que estavam nus.
Na mídia, a “folha de parreira” consiste em dar um pequeno e controlado espaço à opinião divergente ou contrária à linha da empresa. Às vezes, não dá certo. O caso do Estadão contra Maria Rita Kehl mostra que uma vigorosa voz destoante no coral do “sim senhor” não pode ser suportada.
Fonte: www.viomundo.com.br
quarta-feira, 31 de março de 2010
O que é o Sionismo
Ralph Schoenman foi diretor-executivo da Fundação pela Paz Bertrand Russel, papel através do qual conduziu negociações com inúmeros chefes de Estado. Com seu trabalho assegurou a libertação de prisioneiros políticos em muitos países e fundou o Tribunal Internacional dos Crimes de Guerra dos Estados Unidos na Indochina, organização da qual foi secretário-geral. Velho militante, fundou o Comitê dos 100, que organizou a desobediência civil massiva contra as armas nucleares e as bases americanas na Grã-Bretanha. Foi também fundador e diretor da Campanha de Solidariedade ao Vietnã e diretor do Comitê “Quem Matou Kennedy?” Tem sido líder do Comitê por Liberdade Artística e Intelectual no Irã e co-diretor do Comitê em Defesa dos Povos Palestino e Libanês e do Movimento de Solidariedade de Trabalhadores e Artistas Americanos. Atualmente é diretor executivo da Campanha Palestina, que clama pelo fim de toda ajuda a Israel e por uma Palestina laica e democrática.
Stylianos Tsirakis (ST) – Em seu livro The Hidden History of Zionism (A História Oculta do Sionismo), você descreve quatro mitos sobre a história do sionismo. Nós gostaríamos que você explicasse um pouco seu livro.
Ralph Schoenman (RS) – O meu trabalho na Fundação Bertrand Russel foi importante por me dar a chance de documentar fatos da formação do Estado sionista de Israel. Em cursos e palestras que proferi em mais de uma centena de universidades americanas e européias, pude constatar que as pessoas não sabiam, não tinham conhecimento da história do movimento sionista, dos seus objetivos e de vários fatos. Nessas ocasiões deparei com concepções equivocadas sobre a natureza do Estado de Israel e foi isso que impulsionou o meu trabalho de escrever o livro, The Hidden History of Zionism, no qual eu abordo o que chamo de os quatro mitos que têm moldado a consciência nos Estados Unidos e na Europa sobre o sionismo e o Estado de Israel.
ST - Quais são esses quatro mitos?
RS – O primeiro mito é o da “terra sem povo para um povo sem terra“. Os primeiros teóricos sionistas, como Theodor Herzl e outros, apresentaram para o mundo a Palestina como uma terra vazia, visitada ocasionalmente por beduínos nômades; simplesmente, uma terra vazia, esperando para ser tomada, ocupada. E os judeus eram um povo sem terra, que se originaram historicamente na Palestina; portanto, os judeus deveriam ocupar essa terra. Desde o começo, os primeiros núcleos de colonos, promovidos pelo movimento sionista, foram caracterizados pela remoção, pela expulsão armada da população palestina nativa do local onde essa população vivia e trabalhava.
ST - Quais os outros três mitos?
RS – O segundo mito que o livro pretende discutir é o mito da democracia israelense. A propaganda sionista, desde o início da formação do Estado de Israel, tem insistido em caracterizar Israel como um Estado democrático no estilo ocidental, cercado por países árabes feudais, atrasados e autoritários. Apresentam então Israel como um bastião dos direitos democráticos no Oriente Médio. Nada poderia estar mais longe da verdade.
Entre a divisão da Palestina e a formação do Estado de Israel, num período de seis meses, brigadas armadas israelenses ocuparam 75% da terra palestina e expulsaram mais de 800 mil palestinos, de um total de 950 mil. Eles os expulsaram através de sucessivos massacres. Várias cidades foram arrasadas, forçando assim a população palestina a refugiar-se nos países vizinhos, em campos de concentração e de refugiados. Naquele tempo, no período da formação do Estado de Israel, havia 475 cidades e vilas palestinas, que caíram sob o controle israelita. Dessas 475 cidades e vilas, 385 foram simplesmente arrasadas, deixadas em escombros, no chão, apagadas do mapa. Nas 90 cidades e vilas remanescentes, os judeus confiscaram toda a terra, sem nenhuma indenização. Hoje, o Estado de Israel e seus organismos governamentais, tais como o da Organização da Terra, controlam cerca de 95% da terra palestina.
Pela legislação existente em Israel, é necessário provar, por critérios religiosos ortodoxos judeus, a ascendência judaica por linhagem materna até a quarta geração, para poder possuir terra, trabalhar na terra ou mesmo sublocar terra. Como eu digo sempre, nas palestras em que apresento meus pontos de vista, em qualquer país do mundo (seja Brasil, EUA, onde for), se fosse necessário preencher requisitos parecidos com esses, ninguém duvidaria do caráter racista de tal Estado; seria notória a existência de um regime fascista.
A Suprema Corte em Israel tem ratificado que Israel é o Estado do povo judeu e que, para participar da vida política israelense, organizar um partido político, por exemplo, ou ter uma organização política, ou mesmo um clube público, é necessário afirmar que se aceita o caráter exclusivamente judeu do Estado de Israel. É um Estado colonial racista, no qual os direitos são limitados à população colonizadora, na base de critérios raciais.
O terceiro mito do qual falo em meu livro é aquele criado para justificativa da política de Israel, que se diz baseada em critérios de segurança nacional. A verdade é que Israel é a quarta potência militar do mundo. Desde 1948, os EUA deram a Israel US$ 92 bilhões em ajuda direta. A magnitude dessa soma pode ser avaliada quando observamos que a população israelense variou entre 2 a 3 milhões nesse período. Se o governo americano dá algum dinheiro para países como Taiwan, Brasil, Argentina, e a aplicação desse dinheiro tiver alguma relação com fins militares, a condição é que as compras desse material têm que ser feitas dos EUA. Mas há uma exceção: as compras de material bélico podem ser feitas também de Israel. Israel é tratado pelos EUA como parte de seu território, em todos os assuntos comerciais.
O quarto mito a que me refiro no livro, que tem influenciado a opinião pública mundial, refere-se à origem do sionismo, à origem do Estado de Israel. O sionismo tem sido apresentado como o legado moral do holocausto, das vítimas do holocausto. O movimento sionista tem como que se “alimentado” da mortandade coletiva dos 6 milhões de vítimas da exterminação nazista na Europa. Esta é uma terrível e selvagem ironia. A verdade é bem o oposto disso. A liderança sionista colaborou com os piores perseguidores dos judeus durante o século XIX e o século XX, incluindo os nazistas.
Quando alguém tenta explicar isso para as pessoas, elas geralmente ficam chocadas, e perguntam: o que poderia motivar tal colaboração? Os judeus foram perseguidos e oprimidos por séculos na Europa e, como todo povo oprimido, foram empurrados, impelidos a desafiar o establishment, o statu quo. Os judeus eram críticos, eram dissidentes. Eles foram impelidos a questionar a ordem que os perseguia. Então, o melhor das mentes da inteligência judia foi impelido para movimentos que lutavam por mudanças sociais, ameaçando os governos estabelecidos. Os sionistas exploraram esse fato a ponto de dizer para vários governos reacionários que o movimento sionista iria ajudá-los a remover esses judeus de seus países. O movimento sionista fez o mesmo apelo ao Kaiser na Alemanha, obtendo dele dinheiro e armas. Eles se reivindicavam como a melhor garantia dos interesses imperialistas no Oriente Médio, inclusive para os fascistas e os nazistas.
ST - Como se deu essa colaboração dos sionistas com os nazistas?
RS – Em 1941, o partido político de Itzhak Shamir (conhecido hoje como Likud) concluiu um pacto militar com o 3º Reich alemão. O acordo consistia em lutar ao lado dos nazistas e fundar um Estado autoritário colonial, sob a direção do 3º Reich. Outro aspecto da colaboração entre os sionistas e governos e Estados perseguidores dos judeus é o fato de o movimento sionista ter lutado ativamente para mudar as leis de imigração nos EUA, na Inglaterra e em outros países, tornando mais difícil a emigração de judeus perseguidos na Europa para esses países. Os sionistas sabiam que, podendo, os judeus perseguidos na Europa tentariam emigrar para os EUA, para a Grã- Bretanha, para o Canadá. Eles não eram sionistas, não tinham interesse em emigrar para uma terra remota como a Palestina. Em 1944, o movimento sionista refez um novo acordo com Adolf Eichmann. David Ben Gurion, do movimento sionista, mandou um enviado, de nome Rudolph Kastner, para se encontrar com Eichmann na Hungria e concluir um acordo pelo qual os sionistas concordaram em manter silêncio sobre os planos de exterminação de 800 mil judeus húngaros e mesmo evitar resistências, em troca de ter 600 líderes sionistas libertados do controle nazista e enviados para a Palestina. Portanto, o mito de que o sionismo e o Estado de Israel são o legado moral do holocausto tem um particular aspecto irônico, porque o que o movimento sionista fez quando os judeus na Europa tinham a sua existência ameaçada foi fazer acordos, e colaborar com os nazistas.
* Escritor e jornalista brasileiro de origem grega. Ralph Schoenman, escritor, de origem judaica, é autor do livro «A História Oculta do Sionismo»
Esta entrevista foi publicada na Revista Teoria & Debate (Brasil)
sexta-feira, 12 de março de 2010
Futebol, identidade e questões raciais
Futebol, identidade e questões raciais
Para Gerson Wasen Fraga, doutor em História, mais do que um evento esportivo, uma Copa do Mundo mobiliza sentimentos nacionais, interesses econômicos e de Estados
Construir uma identidade nacional em uma nação fissurada por conflitos sociais e raciais em décadas anteriores. Uma Copa do Mundo como oportunidade de demonstrar ao mundo sua modernidade e desenvolvimento. Poderíamos estar falando da Copa da África neste ano, mas estes eram também os sentimentos em torno da Copa de 1950 no Brasil.
O doutor em História pela UFRGS, Gerson Wasen Fraga, estudou a construção da identidade nacional a partir daquele evento esportivo. Em entrevista ao Brasil de Fato, Fraga discute estas delicadas relações entre o futebol, identidade e questões raciais.
Brasil de Fato - O que significava em 1950 receber a Copa do Mundo aqui no Brasil?
Gerson Wasen Fraga - Receber um evento esportivo de magnitude internacional sempre significa projetar alguma atenção sobre o país que o organiza. Quando a sede se localiza em algum país que não integra o grupo daqueles considerados como “de primeiro mundo”, isto é ainda mais reforçado, pois representa uma chance ímpar de não frequentar as páginas dos principais periódicos do mundo apenas como um lugar exótico ou o palco de alguma tragédia qualquer.
Em 1950, isto já era uma preocupação dos dirigentes brasileiros em passar uma boa imagem do país para o exterior, especialmente através dos jornalistas e dos jogadores estrangeiros que viessem ao Brasil, já que os turistas, torcedores de outras seleções, eram poucos naquele momento. E esta boa imagem necessariamente envolvia a percepção de um país moderno, desenvolvido e organizado, o que contrariava o senso comum de que o Brasil era apenas um punhado de cidades cercadas por selvas, onde as ruas comportavam feras selvagens e indígenas andando nus em meio a um povo sem iniciativa para nada.
Dentro desta lógica, por exemplo, é que se deve entender a construção de um estádio das dimensões do Maracanã, afinal, erguer o maior estádio do mundo em um curto espaço de tempo seria uma prova incontestável da capacidade de realização do povo brasileiro. Lembremos que boa parte dos nossos intelectuais, na primeira metade do século 20, difundia a ideia de que éramos um povo triste, sem iniciativa para nada que fosse além do necessário para a subsistência mais imediata.
Haviam outros interesses em jogo?
Uma Copa do Mundo nunca é um evento tão somente esportivo. Há uma série de interesses que perpassam pela sua realização. Em 1950, Mendes de Morais, então prefeito do Rio de Janeiro, não somente assistia as partidas do selecionado brasileiro no Maracanã, como ainda esperava dar seu nome ao estádio, ao mesmo tempo em que um busto seu ornava a entrada principal. Não há dúvida alguma de que ele, assim como outros tantos mandatários, tinha interesse em se promover politicamente com uma conquista brasileira naquele momento.
Há semelhanças entre a expectativa com a Copa de 2014 e o que ocorreu em 1950?
Assim como os contextos históricos, as expectativas são diversas. Em 1950, o que queríamos era afirmar, diante do mundo, nossa condição de modernidade. De lá para cá muita coisa mudou. Contudo, há dois pontos que certamente serão lembrados em 2014 e que se aplicam também à África do Sul agora. Primeiro, a organização deverá ser perfeita, caso contrário, não faltará alguém que associe eventuais falhas à nossa condição de “país em vias de desenvolvimento”. E segundo, há a questão da segurança. Não por acaso a África do Sul apressou-se em afirmar ao mundo, após o atentado sofrido pela seleção de Togo na última Copa Africana de Nações, que Angola é outro país, e que a organização de um evento nada tem a ver com outro, pois, aos olhos de muitos segmentos do “primeiro mundo”, o continente africano, assim como a América Latina, é um todo homogêneo. Da mesma forma, as constantes explosões de violência no Rio de Janeiro costumam ser percebidas como uma ameaça à realização dos eventos de 2014 e 2016, e provocam declarações apressadas das autoridades de que tudo sairá a contento.
Com a Copa de 2014 e as Olimpíadas em 2016, entramos num clima de “ninguém segura este país”. Há diferenças entre este ufanismo vivenciado agora e aquele de 1950?
Na Copa de 1950, muitas das expectativas projetadas sobre o futebol eram de outra natureza, digamos, mais voltadas à afirmação de nossa identidade. Era através dele que esperávamos afirmar para o mundo a nossa capacidade de engenho e conquista. Ao mesmo tempo, havia uma certa inocência do brasileiro em relação ao seu selecionado e seu próprio país, julgávamos que o sucesso no campo de jogo poderia extrapolar de alguma forma para outras áreas da vida. Hoje, o ufanismo em torno da realização da Copa de 2014 possui outros ingredientes, talvez mais “pragmáticos”. Por exemplo: as pessoas que comemoravam a indicação brasileira diante das câmeras de televisão não comemoravam apenas o orgulho de terem mais uma Copa em seu país. Na verdade, este talvez seja o menor dos fatores. Não será nenhuma surpresa se após a Copa de 2010, as notícias sobre a preparação material das cidades que servirão de sedes ou mesmo de sub-sedes ganharem espaço igual ou até maior do que a própria preparação da seleção brasileira para o certame. Fora isto, há o ufanismo da imprensa, que, historicamente, pouco se difere do ufanismo do torcedor: comemoram-se as vitórias da seleção como algo coletivo, exaltando especialmente uma ou duas figuras principais, e procuram-se os responsáveis nos momentos de derrota.
De qualquer forma, esta relação entre futebol e identidade nacional é sempre complexa. Como explicar estas construções?
Por mais que tenhamos consciência de que o sentimento de nacionalidade seja algo construído ao longo de nossas vidas, essa construção se dá através de instrumentos muito eficientes. Normalmente, as pessoas começam a aprender que possuem uma nacionalidade definida muito cedo, com a família. Quando chega a época da escola, passamos a aprender sobre símbolos pátrios, sobre as datas comemorativas, sobre as virtudes, reais ou não, de nosso país... Nesse contexto, uma Copa do Mundo ou mesmo os Jogos Olímpicos são um prato cheio para ser trabalhado. É interessante ainda notar que há um aspecto desta identidade que você acaba aprendendo não na escola, mas fora dela: a de que a sua identidade só existe porque existem outras que lhe são apresentadas como opostas, enquanto outras ainda lhe são completamente ocultadas. Um bom exemplo disto é nossa pretensa relação de rivalidade com o selecionado argentino. Você não aprende – ou ao menos não deveria aprender – na escola que os argentinos são seus rivais. Por que não, ao invés disto, explorar a existência de uma identidade comum latino-americana?
Nesta construção de identidade, entram também os interesses do Estado, não?
Há a atribuição de uma carga ideológica passível de ser explorada pelo Estado – seja ele qual for – que é inerente a competições desta magnitude. As vitórias da Itália em 1934 e 1938 foram apresentadas ao mundo como vitórias do fascismo. Em 1954, a Alemanha ganhou não somente uma Copa, mas o direito de poder se auto-celebrar novamente após o nazismo, enquanto em 1990 sua conquista não pode ser dissociada das comemorações pela reunificação do país após a Guerra Fria (o que esta reunificação significou para os povos da antiga Alemanha Oriental é algo que ficou de fora dos holofotes naquele momento). Já para o Brasil e a Argentina, as conquistas dos anos 1970 foram vendidas pelos regimes militares como uma prova de sua eficiência, de que internamente tudo ia bem.
Convém destacar que, em verdade, as conquistas esportivas são capitalizadas pelos Estados, independente de qual seja o matiz ideológico de seu regime. Não é a toa que equipes ou atletas vencedores são recebidos por governantes, pois eles são a representação de uma pátria que se quer vencedora. O que tornou os casos da Itália nos anos 1930, do Brasil em 1970 e da Argentina em 1978 tão emblemáticos, é a crueldade de tais regimes, capazes de promover grandes festejos enquanto torturavam e matavam seus próprios cidadãos nos porões de suas ditaduras.
A derrota de 1950 teria sido atribuída aos jogadores negros do time. Na tua opinião, de lá para cá, houveram avanços no debate racial na sociedade brasileira?
No caso da Copa de 1950, há uma coisa muito curiosa: se você for procurar nos jornais da época, você encontrará várias versões diferentes sobre quem seria o culpado pela derrota. Nem todos os cronistas esportivos culparam Barbosa, Bigode e/ou Juvenal e, aqueles que assim o fizeram, não vincularam, explicitamente ao menos, esta culpabilidade à questão racial.
Há um trabalho de uma historiadora carioca chamada Gisella Moura, chamado “O Rio corre para o Maracanã”, onde ela aponta que esta culpa atribuída especificamente aos jogadores negros não foi algo criado naquele momento, e que poderia, assim, ter sido gerada ao longo dos anos seguintes. Eu, quando levantei as fontes para meu trabalho, igualmente não encontrei nenhuma atribuição de culpa individual que explicitasse a questão racial. No entanto, me pergunto se isto seria necessário, dada a proximidade histórica entre a abolição da escravatura e a realização da Copa no Brasil, afinal, não é humanamente impossível que um ex-escravo se encontrasse nas gerais do Maracanã no dia 16 de julho de 1950.
Os preconceitos sociais são estruturas de pensamento, e isto não é algo que se mude do dia para a noite. As manifestações racistas ainda são frequentes em qualquer campo de jogo ou arquibancada ao redor do mundo, e creio que infelizmente ainda teremos um longo trajeto até que estas coisas mudem. Este, aliás, deverá ser um aspecto importante a ser notado agora na Copa de 2010, uma vez que a África do Sul parece ser o palco por excelência para campanhas contra o racismo, ao mesmo tempo em que o discurso da unidade nacional em torno da seleção sul-africana deverá ser utilizado na tentativa de aparar as arestas que ainda existam dos tempos do Apartheid.
terça-feira, 3 de novembro de 2009
Em São Paulo, como pobres e ricos são tratados
Em entrevista, defensor público do núcleo de cidadania e DH analisa a diferença de tratamento dada pelo poder público do estado.
Patrícia Benvenuti,
da Reportagem
A sequencia de confrontos entre moradores e forças de segurança que ocorreram ao longo deste ano em São Paulo evidencia a divisão existente entre pobres e ricos dentro da cidade.
A análise é do defensor público e coordenador auxiliar do Núcleo Especial de Cidadania e Direitos Humanos da Defensoria Pública do Estado de São Paulo Antonio Maffezoli Leite. Para ele, a agitação das favelas é uma resposta às constantes violências da polícia, que oferece às periferias o pior tratamento possível.
"Pegando o último [caso] de Heliópolis, em que há perseguição de um suposto bandido que viria de São Caetano, com tiroteio. Isso jamais aconteceria em um bairro rico. O Rio de Janeiro tem vários casos sobre isso também, recentemente. A forma da polícia atuar nos bairros pobres e nas favelas é diferente", avalia.
Na entrevista a seguir, Maffezoli fala sobre as consequencias da desigualdade social para os moradores de áreas pobres, as responsabilidades do poder público e da mídia em relação à divulgação dos fatos e a necessidade de uma polícia que seja mais integrada ao cotidiano das comunidades.
Como vem sendo analisada essa sequencia de conflitos envolvendo moradores de áreas pobres de São Paulo e, de outro lado, forças policiais?
Primeiro que isso não é novidade. Agora aconteceram alguns casos em áreas grandes, envolvendo comunidades muito grandes como Paraisópolis e Heliópolis, e ganharam uma visibilidade da mídia. Isso acaba só demonstrando uma forma que é já histórica das polícias não só de São Paulo, como elas veem e tratam os moradores de comunidades carentes. Considerando inclusive essa estrutura militarizada da polícia de entender essas pessoas como inimigas, essas comunidades como inimigas, o que, no final das contas, é um traço cultural da nossa sociedade. A sociedade brasileira, com esse sistema de desigualdade social, acaba segregando uma grande parcela dela para guetos ou outros nomes que se dê a isso, e essas pessoas não são vistas como pessoas iguais a todas as outras, como todos nós. As forças de segurança desse Estado, que é o Estado formado por essa sociedade, acabam reproduzindo isso na medida em que quando têm que intervir em qualquer coisa, simples ocorrências do cotidiano, acabam usando uma força totalmente desproporcional e uma atuação sem controle. O paralelo é o seguinte: as intervenções acontecidas em vários desses casos, por exemplo, pegando o último de Heliópolis, em que há perseguição de um suposto bandido que viria de São Caetano, com tiroteio. Isso jamais aconteceria em um bairro rico. O Rio de Janeiro tem vários casos sobre isso também, recentemente. A forma da polícia atuar nos bairros pobres e nas favelas é diferente da maneira como eles perseguem bandidos ou intervém em conflitos entre pessoas. Em uma briga entre marido e mulher, por exemplo, em um bairro rico, a polícia intervém de uma forma diferente da forma como ela intervém em uma briga de marido e mulher em um bairro pobre por causa desse pré-conceito. E de não conseguir ver, nessas pessoas mais pobres que habitam essas regiões, pessoas iguais a nós, e nisso incluindo alguma coisa do tipo "são todos pobres e bandidos". Eu ressalto essa questão que é cultural porque os policiais militares, principalmente, na sua maioria, advêm de classes sociais menos privilegiadas. Na verdade eles pertencem às mesmas camadas sociais, mas apesar disso eles [policiais] acabam reproduzindo essa visão preconceituosa, que afasta as pessoas e é excludente com o grosso da sociedade.
Na sua avaliação, o que teria chamado mais atenção sobre esses casos por parte da mídia?
Primeiro porque foram em comunidades grandes e, segundo, porque essas comunidades reagiram de uma forma mais forte também. A revolta pela injustiça das mortes, do absurdo da atuação policial e também por terem acontecido em locais determinados. A gente têm casos recentes do Rio de Janeiro de perseguição policial em que foram dados tiros que atingiram uma família que estava em um carro parado, mas isso era em um bairro pobre, não era uma favela, onde a comunidade é mais identificada pelos limites territoriais, geográficos. Então imagino que por ter acontecido em Paraisópolis e Heliópolis, duas comunidades bem definidas geograficamente, muito grandes e já antigas e superestruturadas, com famílias que estão lá há muito tempo, comércios estabelecidos, pessoas já com uma condição financeira e cultural melhor do que comunidades bem mais desprestigiadas, essas pessoas não aceitaram com tanta passividade esses abusos policiais que acontecem cotidianamente e não aparecem porque são comunidades mais distantes. Acho que isso é um detalhe também, essas comunidades estão muito inseridas na cidade, elas são muito próximas a grandes centros financeiros, políticos e comerciais. A gente tem casos conhecidíssimos de abusos policiais no bairro do Pantanal, na zona leste, no Sapopemba, Cidade Tiradentes, que são regiões mais distantes do centro e acabam ficando escondidas as atuações dentro da própria região.
A execução de moradores sem qualquer relação com o crime é apontada como o estopim de várias manifestações. Nesse sentido, como avalia a opção do poder poder público de, muitas vezes, reforçar o policiamento dentro das comunidades, como ocorreu em Paraisópolis, com a Operação Saturação?
Essa resposta do poder público já é um caso pensado, não uma coisa acontecida na correria, na perseguição, de imediato, que você pode atribuir a uma coisa pessoal de um policial, "aquele policial não era preparado e aí saiu, atirou quando não devia porque os nossos cursos ensinam que não pode atirar em movimento, não pode atirar em local com aglomeração de pessoas". As cúpulas sempre vão dizer isso e, eventualmente, até punir e afastar o policial, que também pode dizer "eu estava em uma perseguição, estava com medo, você não sabe o que é isso, podia morrer". Agora, quando no momento seguinte, a população se revolta e a cúpula da segurança pública decide "nós vamos fazer uma operação de saturação, de controle, de invasão", na verdade é a confirmação, aí sim, de política de Estado disso: de que aquele território é inimigo, é um território diferente, é um território alienígena, quando essas pessoas são, teoricamente, iguais a nós. Nós as ignoramos, no nosso caso pela condição social e, em outros países, por origem. Você tem o Estado tomando uma postura de guerra, de invasão e de controle em uma comunidade estruturada, bem estabelecida, com pessoas há muito tempo e trabalhadoras. Então essa reação do Estado, posterior, só confirma isso, e aí sem qualquer desculpa pela rapidez no momento, pela urgência, é isso mesmo: esse território é diferente, essas pessoas são diferentes, e nós, do conjunto da sociedade, precisamos controlá-las e diminuir seus ímpetos até as coisas passarem e voltarem a seu curso normal, que é o curso normal que esperamos para essas pessoas. Uma atuação do poder público também um tanto quanto limitada no sentido de garantir aqueles direitos fundamentais que todos têm de acesso à educação, saúde de qualidade e segurança nessas regiões cotidianamente, e em momentos de crise vem com essa força toda de invasão em prol da defesa da segurança.
Após esses episódios costumam aparecer uma série de versões, mas a que costuma predominar nos noticiários a tese de que o tráfico incitou os confrontos, gerando uma série de estereótipos para os moradores das comunidades. Como os moradores, porém, podem lutar contra esse estereótipo e tornar claras suas necessidades?
Eu acredito o seguinte: os moradores, no dia-a-dia de suas vidas, há muito tempo lutam contra esses estereótipos. Como eu já disse, a maioria dessas pessoas, quase a totalidade delas, trabalham arduamente, muitas em subemprego, com cargas horárias longas e salários menores porque são nomalmente serviços braçais. Mas muitas pessoas nessas duas comunidades especificamente já têm formação melhor, acesso a empregos melhores e lutam com isso, em ter que dar os seus endereços, "eu moro na favela de Paraisópolis" etc. Não sei se essas pessoas têm alguma coisa a mais do que tocarem suas vidas como tocam e tentar educar seus filhos nesse ambiente, com dificuldades e tudo. Quem tem que fazer alguma coisa contra esses estereótipos é o poder público e a imprensa, principalmente, na medida em que não repercuta essas acusações que sempre são sacadas pelo Estado, facilmente. "A culpa é do traficante ou é do PCC", aí cria aqueles monstros que depois justificam outras medidas mais graves, aumentos de pena em Brasília ou grandes blitze policiais aqui em São Paulo. No caso da imprensa, é não repercutir, questionar sempre que o Estado apresente alguma coisa. Tem um caso na zona norte de São Paulo sobre isso, que a polícia diz que matou em um confronto, "plantou" uma arma, só que tinha testemunhas e o caso está saindo do comum, de que é tudo resistência seguida de morte. Os governantes, as pessoas responsáveis pelas políticas de segurança é que têm que lutar contra esses estereótipos e a imprensa também, na medida em que não divulgar, ou divulgar criticamente, questionando sempre essas versões fáceis dada pela polícia nos momentos de conflito. A população em si, mais do que essas comunidades têm feito, inclusive nessas duas também, com apoio da sociedade civil. O que tem de projetos sociais instalados lá dentro, despertando vocações para música, artes, dança. Elas mesmas não sei o que podem fazer mais.
Falta investigação para esses episódios?
Não conheço especificamente esses dois casos [Paraisópolis e Heliópolis], mas o que eu posso dizer é que normalmente, em casos que envolvem excessos policiais, as investigações são extremamente superficiais e acabam não chegando em lugar nenhum. É exceção, como esse caso na zona norte, que uma armação e um excesso feitos pela polícia acabem sendo desvendado. Esse é um problema crônico sobre a impunidade, que acaba acarretando um círculo vicioso de excessos policiais porque os policiais acabam sabendo que dificilmente vão ser punidos por alguma coisa. A gente está falando das coisas mais graves porque tem aquela coisa diária que, comparado a isso pode parecer até pequeno, mas que acaba alimentando aquelas abordagens policiais nos jovens negros e pardos cotidianas, com agressões, tapas na cabeça, que acontecem simplesmente porque são jovens, negros e estão na periferia. Então começa por esses abusos desde as coisas pequenas que acabam, em algum momento, estourando em casos graves e acaba acarretando a perda da vida de uma pessoa inocente, que não tinha nada a ver com a história.
Essa efervescência nas comunidades pode também ser um reflexo do não enfrentamento de problemas habitacionais da camada mais pobre da população?
Não só especificamente habitacionais, mas acho que o poder público acaba falhando em várias políticas sociais que permitem, inclusive, que as pessoas tenham possibilidade de ascensão social. Por exemplo, com educação. Uma pessoa que tenha nascido em uma comunidade carente mas que, em um determinado momento, o poder público tenha investido em educação de qualidade para fazer com que o filho daquela pessoa que mora ali, com uma educação melhor, possa acender socialmente e depois morar em um outro bairro. Então eu diria que, mais do que política habitacional, acho que essas questões envolvem a falha na política educacional e de planejamento urbano. Acho que a questão das favelas e dessas grandes comunidades em São Paulo, especificamente, se devem mais à falta de planejamento urbano e permitir que muitas e milhares de pessoas acabem ocupando dessa forma a cidade em condições que não são adequadas, que prejudicam a convivência social e acabam agravando muitas dificuldades.
Que medidas poderiam ser consideradas prioritárias para amenizar esses conflitos?
O mais importante seria uma aproximação das forças de segurança com essas comunidades, uma aproximação permanente e constante, cotidiana, em que essas forças, o batalhão da área, a delegacia da área, pudessem interagir com a comunidade no seu dia-a-dia, e quebrando esses estereótipos de que são bandidos, de que são inimigos e vendo que as pessoas são trabalhadoras, são organizadas, têm valor, têm ideais, anseios e sonhos de vida, permitindo isso e reforçando esse senso de comunidade nas forças de segurança. Acho que a polícia comunitária é um pouco isso, funcionou bem em um ou outro bairro de algumas cidades pelo Brasil. O policial está inserido naquele contexto, ele conhece todo mundo, se envolve com aquilo e não é uma força inimiga, uma força externa que chega em um determinado local em algum momento do conflito.
domingo, 11 de outubro de 2009
A Guerra no Século XXI ou a terceirização da guerra
Em entrevista ao jornal argentino Página 12, Dario Azzelini, pesquisador italiano das novas guerras, defende que "a guerra não é mais para instalar outro modelo econômico; ela é o modelo". "O sentido da guerra mudou. Tradicionalmente era para trocar as elites e o controle das economias, ou introduzir outro modelo de domínio econômico ou político. Agora, em muitos casos as guerras são permanentes. Não se faz a guerra para implementar outro modelo econômico, mas a guerra mesmo é o mecanismo de lucros", afirma o historiador.
Natália Aruguete e Walter Isaía - Página 12
A idéia do conflito permanente cria condições para o surgimento de um modelo econômico que seria impossível de instalar em condições de paz. Ao mesmo tempo, é cada vez mais importante a intervenção de Companhias Militares Privadas (CMPs) em todo o mundo, do Iraque até a Colômbia.
Que significa a denominação de novas guerras que o senhor usa no livro O Negócio da Guerra?
Azzelini: No debate acadêmico e − em parte − o político, a expressão novas guerras foi introduzida para denominar o fato que mais e mais guerras não se dão entre países mas no interior dos países ou, pelo menos, entre um exército regular e um irregular. A expressão, porém poderia se ampliada porque com as modificações de estratégias de sua condução, vemos que até os países com exércitos regulares estão transferindo a violência para empresas privadas ou estruturas paramilitares: atores que não são os tradicionais nas guerras comuns.
Acabaram as guerras entre Estados?
Azzelini: Não é que tenham acabado. Pelo contrário, na última década também houve um aumento das guerras entre países, mas se apresentaram de outra maneira. Os ataques ao Afeganistão ou Iraque foram guerras entre países, mas a porcentagem das guerras irregulares em comparação com as regulares está aumentando.
Isso obedece à lógica neoliberal?
Azzelini: Dizemos que obedece a certas lógicas do neoliberalismo no sentido de aumentar lucros. O sentido da guerra mudou. Tradicionalmente era para trocar as elites e o controle das economias, ou introduzir outro modelo de domínio econômico ou político. Agora, em muitos casos as guerras são permanentes. Não se faz a guerra para implementar outro modelo econômico, mas a guerra mesmo é o mecanismo de lucros.
Por exemplo?
Azzelini: Por exemplo, Colômbia. Muito dos lucros nesse país são porque − praticamente − é um país em guerra. Durante os últimos 20 anos, a passagem da pequena e média agricultura para a agroindústria se fez com uma guerra. Se não fosse assim, não teria sido possível expropriar as terras de milhões de camponeses e fazer uma reforma agrária ao contrário, na qual os latifundiários e paramilitares se apropriaram de 6 milhões de hectares de terra.
Neste cenário, como fica o lugar do Estado?
Azzelini: Em todo o discurso liberal se diz que o Estado está supostamente perdendo o controle desses atores armados. Fundamentalmente, no caso da Colômbia. Creio que os Estados não perdem o controle e, se o perdem, é em pequenos pontos. Simplesmente estão terceirizando as funções repressivas ou de guerra, criando mais confusão. Os grupos paramilitares colombianos foram criados pelas dificuldades do Estado em conseguir financiamento internacional nos anos 80, pela responsabilidade do exército ou da polícia em delitos contra os direitos humanos. Logo se montou o show da suposta desmobilização dos paramilitares, mas já no final dos 90 era de conhecimento público que o paramilitarismo estava coordenado, fomentado e controlado pelo exército e as autoridades colombianas.
Em 2000, a Human Right Watch publicou uma análise da Colômbia cujo título era Paramilitarismo, a sexta divisão do exército colombiano (o exército colombiano tinha cinco divisões). Nesse informe esclarecem que o paramilitarismo é parte integral da situação do exército colombiano e que o processo de desarmamento é uma farsa. Os supostos paramilitares desmobilizados aparecem em outras zonas da Colômbia onde ainda se necessita o paramilitarismo como estratégia ou como supostos grupos rearmados.
Como e quando nascem as Companhias Militares Privadas (CMPs)?
Azzelini: As primeiras nascem imediatamente depois da II Guerra Mundial, porque o exército dos Estados Unidos tinha grande capacidade de transporte que já não necessita manter e começou a privatizar parte do transporte. Porém o verdadeiro boom dessas empresas começou em fins dos anos 80 e foi reforçado de forma maciça nos 90. Na primeira guerra dos Estados Unidos contra o Iraque, a relação entre os empregados das CMPs e os soldados era de 1 para 100. No Afeganistão, de 1 para 50/40. Agora, no Iraque há 180 mil empregados das CMPs, segundo dados do próprio exército norte-americano. Quantidade maior do que a dos soldados do exército.
Que atividades exercem estas companhias?
Azzelini: Todas as que alguém possa imaginar. O emprego de armas sofisticadas (como aviões não tripulados, radares ou mísseis de navios estadunidenses) na primeira onda de ataques ao Iraque foi realizado por especialistas de empresas privadas. Além disso distribuem a correspondência, cozinham ou lavam a roupa dos soldados, montam os acampamentos militares, as prisões. No caso da prisão de Abu Ghraib houve julgamentos e investigações contra menos de 10 soldados dos Estados Unidos, quando deveria haver muitos mais implicados. A verdade é que a prisão era administrada em todas as suas funções por duas empresas privadas: CACI e Titan.
Quais são as vantagens de terceirizar esse tipo de tarefas para as CMPs?
Azzelini: Como formalmente são civis, não podem, portanto, ser julgados pela Justiça militar. Ao mesmo tempo, em seus contratos lhes é assegurado que não podem ser submetidos à Justiça civil dos países em que eles atuam. Praticamente se criou um campo de impunidade. E a única via para fazer algo contra esses crimes é iniciar processos nos Estados Unidos contra essas empresas. Quantas vítimas têm a possibilidade de fazer isso. Quase ninguém.
Cria-se uma espécie de marco normativo para acionar estas empresas?
Azzelini: Sim. Legaliza-se todo o negócio dos mercenários com esse marco de impunidade. Além disso, terceiriza-se a responsabilidade. Milles Frechette, ex-embaixador dos Estados Unidos na Colômbia, disse que é muito cômodo trabalhar com essas empresas porque se morrem, não são soldados dos Estados Unidos e, se fazem algo errado, a responsabilidade tampouco recai sobre os Estados Unidos. No caso da DinCorp que faz as fumigações de supostas culturas de amapola e coca, na Colômbia há um processo internacional porque fumigaram parte do Equador. Mas a empresa alega que eles não podem dizer nada porque parte de seu contrato é não dar informação a terceiros. O contrato vem do Pentágono. Então, se um congressista lhe solicita prestação de contas, o Pentágono apresenta o contrato e diz: eles fazem estas tar efas. Se faz algo mais não podemos controlá-la porque é uma empresa privada.
Estas empresas, geralmente estadunidenses, são contratadas pelo Pentágono?
Azzelini: A maioria. De fato, a maior parte do financiamento vem dos Estados Unidos. Do gasto militar no âmbito mundial os Estados Unidos executa a metade. Há empresas também na Europa, empresas russas, na Ásia. Mas as dos Estados Unidos só trabalham sob o consenso do Pentágono. Pode ser que treinem o exército da Coréia do Sul, mas com o de acordo do Pentágono. As empresas russas ou outras de países do Leste, contrata-as quem tem dinheiro.
Como convive o exército norte-americano com as CMPs?
Azzelini: Depende de que setores do exército falemos. No campo concreto provavelmente haja conflitos, já que os empregados dessas empresas de segurança costumam ganhar mais do que os soldados. Trabalham em assuntos de maior risco com menos segurança. Porém trabalhar juntos funciona muito bem porque as empresas de segurança são fundadas e organizadas por ex-membros do exército dos Estados Unidos. Também muitos políticos são donos ou copartícipes dessas empresas. Há empresas como a MPRI, fundada por generais dos Estados Unidos da primeira guerra contra o Iraque, que estiveram durante um tempo nas reuniões do Pentágono. Há ligações pessoais muito estreitas. A Eagle Aviation Services and Technology (EAST), que prestou serviços à CIA nos anos 80, é a encarregada do transporte de maquinaria no marco do Plano Colômbia e do Plano anti-drogas na América do Sul.
Quanto dinheiro movimentam estas empresas?
Azzelini: É um negócio que deve estar movimentando ao redor de 150 a 200 bilhões de dólares por ano no mundo. As pequenas foram compradas pelas maiores, movimentam muito dinheiro, várias têm cotação na Bolsa. Tornou-se um mega negócio no qual participam empresas que trabalham em outros campos. Mas também há ligações entre empresas transnacionais de recursos naturais como petrolíferas e mineradoras.
Pode nos dar um exemplo?
Azzelini: Na guerra no Congo, antes que Laurent Cabila ganhasse, havia mineradoras transnacionais que pagavam a mercenários ou a empresas militares privadas para acompanhar as diferentes facções. Uma vez liberado um território mineiro, já havia engenheiros e as CMPs com as mineradoras tinham o controle do território e faziam um acordo com a facção ganhadora para explorar a jazida.
Como é a contratação das CMPs?
Azzelini: São contratadas para fazer trabalhos. E esse também é outro assunto para escapar do controle. A lei norte-americana estabelece que todos os contratos que superem 50 milhões de dólares têm que ser aprovados pelo Congresso. Normalmente fracionam-se os contratos para que sejam inferiores e o Congresso nem se intera desses contratos ou do que estejam fazendo essas missões. É a possibilidade de os Estados Unidos fazer intervenções militares em outros países sem que apareçam como tais, porque não são seus soldados que atuam. Todos sabemos o impacto público que causa a imagem dos soldados mortos com a bandeira yankee que regressam aos Estados Unidos. Isso não acontece se morre um empregado de uma empresa privada: não causa indignação pública porque é como se morresse um empregado da IBM em Cingapura. Ninguém se importa com isso. No Iraque pode-se estimar que haja morrido, no mínimo, 2 mil empregados das CMPs. Isso ajuda a manter o número de baixas num nível baixo.
Contratam empregados na América Latina?
Azzelini: O recrutamento na América Latina cresceu muito nos últimos quatro anos. Antes recrutavam muito nas Filipinas, Nepal, Fiji, Estados Unidos, Inglaterra, França. Mais acostumados a trabalhar com certa modalidade. No Nepal, os gurkas têm uma tradição de 150 anos de mercenários e os de Fiji obtiveram muita formação em missões da ONU.
Como essas empresas aparecem nos meios de comunicação?
Azzelini: Um caso que passou muito pela imprensa foi em 2004 em Falluja, onde houve imagens fortes de uns supostos civis − como explicou em princípio a imprensa − que foram cercados pela população iraquiana , assassinados e seus corpos queimados e pendurados em uma ponte. A imprensa disse que esse pessoal acompanhava um comboio. Formalmente eram civis, mas eram empregados da Blackwater, uma das maiores empresas no campo militar. Estavam protegendo um comboio de soldados norte-americanos, uma tarefa militar. O problema é qual informação é obtida e é apresentada pela imprensa. Toda a informação que se tem do conflito do Iraque passa pelo departamento de relações de imprensa do exército dos Estados Unidos. São repórteres de imprensa militares. Eles só relatam ações nas quais participam os soldados do exército norte-americano, porém, como há mais empregados das empresas militares do que soldados, não temos nenhuma informação sobre muitas ações. Houve empregados de empresas privadas que repeliram o ataque das forças rebeldes iraquianas quando a cidade de Falluja esteve tomada pela resistência. As forças da empresa Blackwater se infiltraram para fazer atentados e pôr bombas.
Os empregados das CMPs são os contratistas que a cadeia CNN menciona, por exemplo?
Azzelini: Sim. São os empregados destas empresas. O exército contrata as empresas e a as empresas a estas pessoas. Porém não apenas o exército. No Iraque todas as embaixadas e empresas contratam CMPs para custódia e segurança. Na Colômbia, a colombiana Ecopetrol, que explora campos petrolíferos junto com a OXI dos Estados Unidos, contrata a CMP AirScan da Flórida para fazer sobrevôos e obter informação de tropas insurgentes que estejam perto dos campos e o oleoduto desde Caño Limon até o porto onde se exporta petróleo para os Estados Unidos. Em 1998, a vila de Santo Domingo foi bombardeada por helicópteros do exército colombiano e causaram quase 20 mortos. Fez-se uma investigação, julgaram os pilotos do exército colombiano que disseram que bombardearam, mas somente seguindo ordens. A AirScan passou informação ao exército de que nessa vila havia uma coluna guerrilheira , por isso a bombardearam.
Então cuidam dos negócios das empresas e brindam serviços ao exército.
Azzelini: É parte do trabalho. No caso do campo petrolífero de Cano Limon é uma cooperação bem organizada e partilhada. A empresa de segurança é paga pelas empresas e apoiada pelo exército colombiano e pelos Estados Unidos com tecnologia. É um conjunto de empresas públicas e privadas, exércitos, CMPs e polícias que formam uma rede que garante a saída do petróleo da Colômbia para os Estados Unidos.
Nessa trama, as CMPs têm relação direta com os Estados e os exércitos?
Azzelini: A operacionalização é a seguinte: os Estados Unidos fazem o Plano Colômbia e grande parte do dinheiro nunca chega à Colômbia, só atravessa a rua do Pentágono, já que em frente estão as sedes de muitas das empresas militares privadas que vão trabalhar na Colômbia. Há que destacar que enquanto nas guerras clássicas os soldados tinham o interesse de terminar a guerra, estas empresas não, porque só ganham se há conflito. Provavelmente não agem com o espírito de terminar com esses conflitos porque perderiam seu ganha-pão.
Há vínculos comprovados com o narcotráfico na Colômbia?
Azzelini: Houve casos de vários empregados de empresas que estiveram implicados em casos de narcotráfico. É muito difícil averiguar, mas pode-se supor que haja alguns contatos entre algumas empresas e o narcotráfico.
Dentro das tarefas das CMPs na Colômbia, inclui-se agir contra dirigentes sindicais?
Azzelini: Sim. A British Petróleo contratou uma empresa que fazia trabalhos de inteligência com movimentos sociais e indígenas que estavam na zona. Os paramilitares assassinaram líderes sociais e se sabe que as CMPs passavam informação ao exército. Os militares dizem que não os mataram, que foram os paramilitares, mas a ligação fica clara.
Como atuam estas companhias no México?
Azzelini: Há alguns mercenários israelenses que apoiaram o treinamento para a formação de grupos paramilitares em Chiapas. Mas é pouco claro. A construção do paramilitarismo no México é diferente do colombiano. Na Colômbia organizaram-se tropas irregulares que se apropriaram das terras, casas, etc. No México criaram-se comunidades paramilitares. Elas são infiltradas, preparadas e se tornam comunidades paramilitares.
Como se vincula a ação destas companhias com a violência sexual na Guatemala?
Azzelini: O caso da Guatemala é anterior ao das construções paramilitares como as autodefesas civis, pagas para apoiar o exército em seu trabalho genocida. A violência sexual se encaixa porque é parte integral da guerra desde sempre. Assassinavam os homens e violavam e ficavam com as mulheres. Isso rompe o tecido social de toda a comunidade.
Estas estruturas paramilitares, com as CMPs e os Estados, formam modos de controle social e paraestatalidades?
Azzelini: Sim, paraestatalidades porque têm território ou representam o Estado. Salvador Mancuso, ex-chefe paramilitar colombiano que foi extraditado em 15 de maio último para ser julgado nos Estados Unidos − disse em uma entrevista à RCN que controlavam congressistas e que, para chegar ao cargo, tinham que concordar com eles, se não, não recebiam votos. A Colômbia é claramente um narco-Estado paramilitar. Não controlam zonas senão as que estejam no Estado. Isso também explica as ligações com as empresas privadas. No norte da Colômbia, empresas bananicultoras pagavam uma porcentagem por cacho de bananas aos paramilitares para a segurança.
Há empregados das CMPs reféns das FARC?
Azzelini: Há três (*), mas é um caso complicado. Um avião pequeno, emprestado pelo Pentágono a uma empresa, sobrevoava as zonas guerrilheiras para transmitir informação sobre as colunas e os chefes guerrilheiros e foi abatida. Supunha-se que os estadunidenses em mãos das FARC eram da empresa, mas logo se soube que eram da CIA e que se usava a empresa como véu.
(*) Devem ser os três americanos libertados junto com Ingrid Betencourt.
Existe alguma estratégia dos Estados Unidos para a América Latina na qual participem as CMPs em médio ou longo prazo?
Azzelini: Há dois elementos, um é a grande base de dados de ex-militares formados que participaram de ditaduras e foram adaptados às novas formas de atuação do exército dos Estados Unidos para trabalhar no Iraque. Há milhares de empregados latino-americanos trabalhando para as CMPs: ex-militares da Argentina, Chile, Honduras, El Salvador e polícias especiais do Brasil e Peru. Neskowin tinha sua sede em Montevidéu e recrutava ex-militares argentinos e uruguaios para a Blackwater no Iraque. A segunda é a ampliação maciça do paramilitarismo em alguns países da América Latina. Na Venezuela começa a haver contatos com grupos da oposição. Na Bolívia também com os autonomistas de Santa Cruz. E no Equador, para formar como uma espécie de contra (revolução) reserva (stand by) a médio prazo. Na Venezuela pode-se traduzir em uma combinação entre as estruturas paramilitares e o pessoal contratado que monte algo similar a contra (revolução) como foi na Nicarágua.
(**) A Companhia das Letras editou Blackwater, a ascensão do exército mercenário mais poderoso do mundo, de Jeremy Scahill (R$ 41,00), com a história da CMP que, em menos de dez anos, tem contratos oficiais de US$ 600 milhões só com o governo dos EUA.
A Blackwater comprou da Embraer um Super Tucano, avião para treinamento militar avançado, e que foi entregue em 22 de fevereiro de 2008. Segundo a revista ASAS de abril/maio de 2008, a empresa norte-americana é a primeira operadora civil do Super Tucano.
Fonte: http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16184
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
“Se o povo não for pro pau ele não vai ter nada”
Aurélio Fernandes era químico quando em seu primeiro trabalho, ainda adolescente, percebeu a exploração aos trabalhadores. Foi demitido aos 19 anos, por tentar reverter esse cenário na empresa onde trabalhava. Arrumou outro emprego, mas largou tudo, por vocação, para ingressar na área de história: nesse período estabeleceu o seu primeiro contato com a política. Intrigado com a figura de Brizola, demonizado por uma parte da sua família e admirado por outra, acabou se aproximando do Partido Democrático Trabalhista (PDT), após assistir um debate na televisão, em 1982, com a participação do “velho” para as eleições do Estado do Rio de Janeiro e descobrir quem era Darcy Ribeiro, então candidato a vice-governador. Entrou para a campanha e no ano seguinte já estava filiado ao partido, no qual fez sua formação ideológica, apesar de sempre manter posições críticas nas discussões. No ano 2004 foi candidato a vereador, quando constatou na prática as suas teorias: “a democracia que a gente vive é uma tremenda farsa”. Depois, já percebendo “o processo de degeneração do PDT”, participou da criação dos Círculos Bolivarianos Leonel Brizola que, em 2007, criaram o Movimento Revolucionário Nacionalista (MORENA) – Círculos Bolivarianos. Há três meses Aurélio se desvinculou do partido, continua professor na rede pública estadual do Rio de Janeiro e se dedica inteiramente à militância no Morena, cujo movimento ele apresenta na entrevista a seguir.
Como surgiu o MORENA?
Organizávamos uma corrente dentro do PDT denominada PDT pela esquerda. Em determinado momento a conjuntura interna do partido nos levou a desarticulá-la e então criamos o Coletivo de Educação Popular. Era praticamente uma continuidade mas prestava assessoria aos movimentos populares, na área sindical, através de seminários e outras atividades. Iniciamos um trabalho de educação política na Federação de Favelas do Município do Rio de Janeiro.
Logo após a tentativa de golpe na Venezuela começamos a debater nas favelas o filme “A revolução não será televisionada”. Este filme é uma produção de dois jornalistas irlandeses e tem uma mensagem muito interessante: o Chávez é um coadjuvante, não é o protagonista do filme, o protagonista é o povo. Mostra o povo mais pobre se mobilizando, se conscientizando, se organizando, para enfrentar um golpe. O curioso é que quando você passa nas favelas, o pessoal se identifica. Vêem ali o seu semelhante, na forma de se colocar, na forma de agir, nas contradições, enfim em tudo, e dá uma sensação de “empoderamento”. Eles percebem que a política pode ser muito mais. Estávamos fazendo um trabalho desse tipo e a embaixada soube, não sei como.
A embaixada da Venezuela?
Isso, entrou em contato com a gente e queria depoimentos de lideranças comunitárias em defesa do mandato do Chávez, porque estava tendo plebiscito revogatório na venezuela. Aí conversamos e conseguimos mobilizar sete lideranças comunitárias que se propuseram a dar os depoimentos. O que nos chamou atenção é que em seus depoimentos, as lideranças comunitárias mais velhas faziam ligações com a década de 60 e com o Brizola: aqui no Brasil teve também uma liderança parecida à beça com o Chávez que foi o Brizola, aí falavam dos posicionamentos políticos de Brizola na resistência ao golpe de 64, na campanha da legalidade e nas reformas de base e dos projetos que o Brizola fez em seus governos.
Quando terminamos surgiu uma reflexão em todos nós: curioso, a gente podia trabalhar alguma coisa nesse campo, hoje temos uma revolução bolivariana… Aí nós despertamos. O que é essa revolução bolivariana? Ainda não tinha ocorrido os processos bolivarianos na Bolívia, no Equador,. Nós achávamos que era um processo muito venezuelano. Mas por que a gente não discute isso? Vamos aproveitar e sentar para aprofundar essa discussão: O que é isso, o que não é, o que nós podemos fazer? Na época militávamos no Comitê de Solidariedade aos Povos em Luta na América Latina junto com um padre colombiano, e ele propôs: por que vocês não constroem um círculo bolivariano? Legal, tá aí, é uma idéia… Começamos a discutir e um companheiro perguntou: por que não criamos um circulo bolivariano Leonel Brizola? Pô, mas aí vai ficar uma coisa muito vinculada ao PDT? Não, vamos começar a desmistificar isso, o Brizola não é do PDT, o legado de Brizola é um patrimônio do povo brasileiro, como o Marighella, o Prestes, e é bom que essa iniciativa contribua para desmistificar isso. Então vamos fazer? Assim iniciamos a discussão sobre o Círculo Bolivariano Leonel Brizola cerca de cinco meses após a sua morte. Esse primeiro círculo surge em novembro de 2004.
Então aconteceu o que?
Os jovens do grupo inicial resolveram criar um círculo bolivariano de juventudes Che Guevara. Haviam os professores, criamos o círculo bolivariano de educadores Paulo Freire. Aí já não é mais um círculo bolivariano Leonel Brizola, transformou-se em um movimento: Círculos Bolivarianos Leonel Brizola / CBLB(m). O pessoal confundia como um espaço vinculado ao PDT. Para complicar, definimos o símbolo do CBLB(m) com outra intenção e acabou dando errado, esse desenho do Che com a rosa não tem nada a ver com o PDT. Foi um desenho de uma camiseta cubana que um companheiro ganhou quando participou de uma brigada de solidariedade a Cuba. Abaixo do desenho havia uma frase: “podem matar uma rosa, mas nunca conseguirão deter a primavera”, que é uma frase do comandante Che.
Fizemos uma panfletagem em 2005 no Fórum Social Mundial, um manifesto, 10 mil impressos em Xerox. Um repórter da Folha de São Paulo achou curioso um círculo bolivariano no Brasil. Ele fez uma entrevista com a gente, pensamos que não ia dar em nada, saiu ¹/4 de página no jornal. Procuraram o presidente do PDT, Carlos Lupi e ele declarou: Não, não tem nenhuma ligação com o PDT, a gente nem sabia que isso existia, mas entendemos que não tem problema nenhum em utilizar o nome de Brizola. Ficou uma matéria boa, saiu no Rio Grande do Sul, saiu em outros jornais, então começou a pipocar contato, o pessoal da Bahia, do Distrito Federal, de Santa Catarina, do Rio Grande do Sul…
Pessoal querendo participar?
Pessoal interessado, em função até dessa reportagem. Em São Paulo já havia um círculo bolivariano anterior ao surgimento dos nossos, mas ele se propunha a fazer solidariedade à Venezuela, não era um círculo bolivariano que tivesse a opção de discutir a revolução bolivariana no Brasil.
Termina 2005, vem 2006 e chegamos a conclusão da necessidade de ter um espaço físico para desenvolver um referencial. Nós já desenvolviamos um trabalho aqui na Federação de Favelas (FAFERJ), daí conversamos com a diretoria e propusemos fazer um projeto em conjunto: vamos criar a Casa Bolivariana! Vai ser o seguinte: a FAFERJ não tem dinheiro, não tem recursos, tem uma dificuldade muito grande de se manter, então nós vamos alugar uma sala diminuta por 200 reais por mês, nesse preço a gente podia alugar até em outro lugar, mas a gente quis manter uma sede dos círculos bolivarianos em uma federação de favelas exatamente pela mística do local,.
A partir daí transformamos, em um projeto conjunto com a diretoria da FAFERJ, o auditório da entidade no espaço Casa Bolivariana, um espaço de poder popular, ou seja, a Casa Bolivariana não é a sede dos círculos bolivarianos. É um espaço na FAFERJ que quem esteja identificado com a lógica do poder popular e quiser, pode fazer reunião aqui, a gente libera o espaço. Esse espaço estava cheio de lixo, era um depósito, fizemos uma limpeza, um mutirão. Já está no terceiro mutirão, foi bem pior do que está hoje, na primeira vez não tínhamos muitos recursos, principalmente financeiros. O movimento foi crescendo, a gente começou a auto-sustentação, cada companheiro contribui e com isso conseguimos uma estrutura um pouco melhor, daí pintamos o teto, fizemos a parte elétrica, compramos quadros. Em 2006, inaugurarmos a Casa Bolivariana com a presença de representantes do Congresso Bolivariano dos Povos, com sede na Venezuela, do Instituto Cubano de Amizade entre os Povos e homenageamos a presidente da Associação José Martí de solidariedade a Cuba.
E de onde surgiu a necessidade de se criar um jornal?
Nós queríamos fazer desde o início, antes da primeira assembléia bolivariana nacional em 2007. O nome do jornal “O Panfleto” tem uma ligação direta com as lutas antiimperialistas, populares e classistas da década de 60. Quando começamos a discutir a criação dos círculos bolivarianos, uma questão que também me chamou a atenção foi o fato de ser muito parecido com o grupo de onze, os comandos nacionalistas que o Brizola organizou para fazer a resistência meses antes do golpe civil-militar de 64. E esses grupos de onze aglutinavam a base do PCB, do PSB, do PTB, trotskistas, a Polop, um monte de organizações. A professora Vânia Bambirra tem um artigo no qual ela fala que esses grupos de onze provavelmente seriam o embrião de um novo partido revolucionário que estava surgindo no bojo do processo político na década de 60. Esses grupos de onze mantinham um jornal cujo nome era “O Panfleto”.
Vocês buscam também resgatar essa memória…
Um realidade curiosa com a qual brincamos muito é que parecemos uma organização política de professores de história. Muitos estudantes de história se identificam, professores também, não sei se é devido a defesa que fazemos sempre de resgatar a história brasileira. Um dia um de nossos professores levantou a seguinte questão: Vocês sabiam que logo depois do golpe de 64, quando se discutiu a organização da resistência entre o pessoal vinculado ao grupo dos onze, o Brizola propôs a criação do Movimento Revolucionário Nacionalista, cuja sigla seria Morena?
Brizola afirmava que essa sigla tinha a ver com a cara da esmagadora maioria povo pobre brasileiro, que não era branco europeu, era moreno e negro e tal. Então era um nome que vinculava a questão ideológica, o nacionalismo revolucionário, a libertação nacional e ao mesmo tempo pegava esse sentimento de brasilidade. Então porque a gente não retoma esse nome? Assim em 2007 na I Assembléia Bolivariana Nacional fundamos o Movimento Revolucionário Nacionalista – círculos bolivarianos. Ah, mas aí a esquerda não vai entender. Ah, dane-se a esquerda, o nosso discurso não é para a esquerda entender.
Não é pra jogar para a torcida…
Não é isso, entendemos que é esse discurso que mais nos aproxima daqueles que pretendemos catalisar no processo revolucionário. Não é representar, porque a gente acha que a organização política não representa o povo, ela pode ser o catalisador do processo – daí vem a minha influência da formação em química…
Esse conceito de catalisador para o campo social faz até sentido…
Muitos tentam definir o que é vanguarda. A melhor definição que eu consegui fazer é a do catalisador no processo químico: você tem lá os dois reagentes e não acontece reação nenhuma, daí você coloca duas gotinhas de um outro reagente, que é o catalisador, e acontece uma reação violentíssima e surgem novos produtos completamente diferentes. Ou seja, o catalisador quantitativamente não é quase nada, mas é fundamental, sem ele não ocorreria a reação. Nós entendemos o papel da vanguarda dessa forma, a vanguarda objetiva. Quem vai fazer revolução é o povo, a classe trabalhadora.
O papel da vanguarda é ser o catalisador, é descobrir qual é o projeto histórico que mobiliza a maioria desses trabalhadores, qual a metodologia de luta que vai mobilizar essa maioria para a luta e forjar quadros na classe para construir esse instrumento político. Não é auto proclamatório. Nós não temos a ilusão de que o MORENA vai ser a vanguarda da revolução brasileira. Nós queremos contribuir com esse processo de construção da vanguarda: isso pode até ser ilusão da nossa parte, mas a gente alimenta.
Uma coisa que sempre frisamos muito: o companheiro tem que estudar, porque conhecimento é fundamental na luta. Alguns militantes e dirigentes nossos entraram na UERJ e alguns acabaram ingressando no Centro Acadêmico de história (CAHIS). O CAHIS resolveu fazer um debate sobre o golpe militar de 64 e para o nosso espanto o auditório ficou cheio, o pessoal sentado no meio daquelas cadeiras, a lista tinha 350 pessoas. Não era gente só de história, tinha pedagogia, direito, sociologia, foi uma surpresa, alguma coisa está acontecendo e a lógica que colocamos no debate era discutir o golpe de 64 numa visão de retomar uma memória que a ditadura tentou e o sistema tenta manter esquecida.
Encheu, foi uma discussão muito legal e vários jovens e professores nos procuraram querendo discutir, participar, entender o ponto de vista do MORENA. Isso também estimulou muito para a criação do jornal, se existe esse clima temos que botar a nossa cara pra fora, temos que mostrar o que nós somos, até para as pessoas conhecerem, para poderem se aproximar, para o MORENA se organizar e cumprir o papel que acreditamos poder cumprir nesse processo.
Além disso, quais tipos de atividades vocês realizam?
Fora a atuação em universidades e uma atuação incipiente no movimento sindical, aqui no Rio de Janeiro, por exemplo, militantes do movimento de sem teto e do movimento comunitário de favelas vinculados ao MORENA decidiram contribuir na reconstrução do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto). Isso começou a partir do apoio do MORENA a ocupação Serra do Sol na zona oeste. Esse trabalho resultou na criação do círculo bolivariano de trabalhadores sem teto Carlos Marighella e na ampliação da área de atuação do círculo bolivariano de favelas Hugo Chávez Frias.
Mas o MTST é muito mais amplo que nossos militantes, entendemos que deva ser um movimento de massa. Nós não vemos o movimento social como uma correia de transmissão da nossa organização, inclusive combatemos isso. Entendemos que se um movimento social se transformar em correia de transmissão de um partido político, pode ser de direita, de esquerda ou o que for, ele não vai cumprir o seu papel revolucionário: ele tem que ser uma força social autônoma, independente, para não acontecer, por exemplo, o que aconteceu agora no governo Lula.
A maioria dos movimentos sociais era correia de transmissão do Partido dos Trabalhadores e aí quando o PT entra no governo o que acaba acontecendo? Esses movimentos acabam entrando no governo, e o que é mais grave, fazendo a política do governo. Ao invés de combater no sentido positivo da coisa, exigindo do governo suas demandas históricas, eles tentam adaptar o movimento ao que o governo pode estar oferecendo em determinado momento e assim não há processo revolucionário que avance. O papel do movimento social é estar chicoteando qualquer governo, exigir as suas demandas, se isso não acontecer não vai mudar nada. E o papel do partido político qual é? É estar disputando o poder, estar aproveitando essa luta política para mostrar as limitações do sistema capitalista para chegar ao poder. Não é ao governo, e daí fazer uma verdadeira transformação social.
Hoje o que acontece na Venezuela é isso, os movimentos sociais vão todos para cima do governo e ele tem que dar resposta. Se não der resposta a tendência é se adaptar, ou pior o processo pode caminhar para a direita atendendo aos interesses mais poderosos do capital. E essa a luta que se trava na Venezuela. Algumas organizações de esquerda não conseguem entender o processo venezuelano, que aquele processo não é uma transição socialista. A Venezuela ainda está em uma transição rumo ao socialismo e não em um processo de transição socialista.
É muito complicado, porque se o movimento social não tiver força social autônoma, independência perante os governos, não consegue empurrar esse processo para frente. Não é o governo, é o processo, o governo é mais uma frente de luta, porque vai chegar um momento que vai surgir uma dualidade de poder. Vai chegar o momento em que as contradições vão se acirrar mais e aí vai ser a hora de realmente tomar o poder: vai ser a hora do processo de transição socialista. E isso é um processo ininterrupto, não são etapas. Poderia ser diferente, poderia acontecer como aconteceu em Cuba, onde os caras derrubaram uma ditadura. Mas não é o caso da Venezuela, não é o caso da Bolívia, não é o caso do Equador. Em Cuba eles derrubaram pela via armada uma ditadura e eles já tinham o poder nas mãos do exército rebelde, e mesmo assim, só vão assumir o processo de transição socialista em 1961.
E na prática, qual a função desse espaço aqui, por exemplo?
Aqui [sede do Morena] nós passamos filmes de formação, fazemos nossas assembléias, é um espaço aberto. Já ocorreram várias reuniões: do MST, do pessoal de economia solidária, da Famerj, da Consulta Popular, de Associação de Moradores, do MTST. É um espaço de fomento de poder popular que tentamos tornar o mais amplo possível em sua utilização politica. Como organização usamos para reunião dos círculos bolivarianos pois nosso principal desafio é dar uma organicidade ao movimento pela base.
Então o espaço é usado pelas nossas missões: a missão Lênin, relativa às questões de organização que estimula esses círculos bolivarianos, monta cartilha, faz reunião, vê a questão de finanças, vende material. A missão Rui Mauro Marini de formação política que organiza debates, cursos, esse ano a gente tem um sobre a América Latina: sábado agora vai ser a Colômbia, é uma experiência que estamos fazendo desde março, discutindo num sábado do mês um país específico, conta toda a sua história, a sua luta revolucionária.
Questionamos muito a questão do eurocentrismo, sentimos que esse é um dos grandes problemas da esquerda brasileira. Ela está voltada de frente para a Europa e de costas para a América Latina, daí a incapacidade de entender o papel do nacionalismo revolucionário. A incapacidade de entender que o nacionalismo revolucionário não tem nada a ver com o fascismo, não tem nada a ver com a direita. Todos os processos revolucionários na América o que mobilizou o povo na esmagadora maioria deles foram bandeiras democráticas populares anti-imperialistas, logo nacionalistas revolucionárias. Mas não conseguem entender, e por quê? Porque o referencial deles é a revolução russa, a luta da social democracia ou da esquerda radical na Europa. Não conseguem olhar para as lutas populares e classistas de nosso continente e aí vêem a realidade brasileira enviesada: a nossa história acaba não sendo entendida e, portanto, não é contada.
Por que esse estímulo à memória, a busca da história brasileira?
Para entender como a classe trabalhadora construiu sua consciência. Culturalmente falando, por que ela não é tão participativa, para você poder trabalhar tudo isso em sua estratégia e tática politica. Por que o Getúlio é um referencial popular e da classe quando fazem uma pesquisa? Em aula, às vezes, você chega para o aluno e pergunta: qual foi o maior presidente que o Brasil já teve? Um adolescente de 15 anos responde Getúlio. Por que Getúlio? Ah, porque o meu avô fala isso, meu pai fala isso, meu tio fala isso. Por que isso acontece? De onde vem isso? É meramente fruto de uma manipulação? Ou realmente houve um tipo de processo que atingiu os interesses da classe, claro que limitadamente, e construiu um nível de consciência?
O que a gente quer? A gente quer um desenvolvimento no Brasil voltado para a maioria, como é que você trabalha isso? Você tem que entender essa consciência real e muitas vezes possível da classe, para poder aumentar a consciência de classe. Você não vai chegar para um trabalhador e dizer: o Getúlio era um grande filho da puta, ele tinha um projeto nacionalista burguês… O que é isso? Nacionalista burguês?
Então vocês entendem a questão da linguagem como fundamental?
Mais do que a linguagem, é fundamental a construção de um discurso revolucionário que parta da consciência realmente existente da classe e contribua para que a classe avance em sua consciência da necessidade de superar o capitalismo. E daí analisar o seguinte, é viável hoje em dia um projeto como o Getúlioe que marcou profundamente a cultura da classe? É inviável em dois sentidos: no sentido de que não interessa as classes dominantes e isso o próprio Getulio denuncia na Carta Testamento. Um projeto nacionalista burguês não interessa a burguesia, não interessa ao imperialismo. Se aparece um maluco qualquer defendendo honestamente um projeto nacionalista burguês, um sujeito que consiga se eleger presidente e tenta implementar esse projeto, o derrubam como derrubaram Zelaya em Honduras, porque não interessa. Sabe que esse tipo de problema desata nós que criam uma série de problemas, ao estilo do minha casa minha Dilma agora.
Qualquer projeto para tentar sanar uma limitação do sistema no sentido de atender aos interesses populares, cria para o sistema mais problemas do que solução. Você hoje tem um projeto que aponta um milhão de moradias e sabe quantos inscritos tem? 18 milhões, eu quero ver darem resposta para todos. Aí que deve entrar a esquerda como catalisadora, ela tem que atuar os movimentos sociais para exigir os 18 milhões de casas, tem que organizar esse povo para exigir a sua casa. Porque se for na luta, ele vai reparando que esse sistema não vai me dar o que eu quero, ele vai aprender na luta, é pedagógico.
Então você pode argumentar: na época do Getúlio que o seu avô viveu tinha direito à moradia, não era essa história de habitação, os institutos de previdência que construíam as casas e você não tinha que pagar o aluguel, você pagava uma taxa para construir mais casa… E esse sistema “matou” o Getúlio, derrubou João Goulart…
É só isso que a gente quer? Não é, mas nem isso o sistema permite conquistar. Então o cara vai se conscientizar no processo e perceber que a necessidade é muito maior e que a sociedade tem que ser diferente. É nesse sentido que a gente tenta resgatar o processo histórico, a gente fala que é retomar o fio da história, porque foi isso que eles cortaram em 64. O golpe militar na verdade é uma contra-revolução, não estava ocorrendo uma revolução socialista, era um processo revolucionário que poderia caminhar rumo ao socialismo, um processo de acumulação de força, de aumento da consciência. Como todo processo, tem limitações, equívocos, o Lênin tem uma frase que eu acho espetacular: aquele que espera uma revolução pura está prestando um desserviço à revolução. Vai ter limitações, pode ser até que essas limitações levem ao reformismo ou à própria derrota da revolução depois dela estabelecida que é o período mais difícil.
Então para você combater, o indivíduo como instrumento político deve estar trabalhando nessas contradições. Nesse contexto é de fundamental importância o movimento social como uma força autônoma que tenha princípios socialistas na sua gestão, coletivos, solidariedade, democracia interna nos movimentos. Para garantir a democracia na revolução socialista, tem que começar a construção de uma democracia participativa a partir de agora. A grande maioria dos movimentos sociais e os sindicatos em particular, não exercem a democracia participativa.
Uma cúpula mantendo-se distante do trabalho de base…
Esse tipo de coisa nunca vai conseguir contribuir para a revolução, para a transformação política da realidade. Se acontecer uma revolução, essa cultura vai ser reproduzida no processo, daí vem os desvios, os caminhos errados, o aumento das contradições. Os inimigos da classe, os burocratas, vão usar isso para descaracterizar e combater o processo revolucionário. Mais difícil do que você fazer a revolução é permanecer com o poder , então são essas discussões que tentamos travar no MORENA, vinculadas ao trabalho permanente, à militância. Temos claro que somos um grupo pequeno, incipiente. O MORENA como organização política existe há dois anos e meio no máximo, achamos muito importante trabalhar a questão mística, a nossa bandeira preta e vermelha tem relação com a revolução cubana, com várias organizações de esquerda na América Latina que utilizam bandeiras rubronegras.
Fazemos tudo isso – o nome do jornal, o nome do movimento, o trabalho de educação política, a atuação nos movimentos sociais – tentando resgatar essa mística da memória: se o povo resgatar a sua memória de lutas vai perceber que se ele não for pro o pau ele não vai ter nada, vai continuar tudo do jeito que está, verá que não tem outra alternativa que não seja lutar. Se não lutar pelos seus direitos e reivindicações o povo trabalhador nunca perceberá o nível de miserabilidade em que vivemos, não perceberá que se não correr atrás do prejuízo não tem ninguém que vá correr não.
