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terça-feira, 5 de junho de 2012

O dedo do Lula e o ódio de classe

O dedo do Lula e o ódio de classe

Por Emir Sader, no sítio Carta Maior:

A sociedade brasileira teve sempre a discriminação como um dos seus pilares. A escravidão, que desqualificava, ao mesmo tempo, os negros e o trabalho – atividade de uma raça considerada inferior – foi constitutiva do Brasil, como economia, como estratificação social e como ideologia.


Uma sociedade que nunca foi majoritariamente branca, teve sempre como ideologia dominante a da elite branca, Sempre presidiram o país, ocuparam os cargos mais importantes nas FFAA, nos bancos, nos ministérios, na direção das grandes empresas, na mídia, na direção dos clubes – em todos os lugares em que se concentra o poder na sociedade, estiveram sempre os brancos.

A elite paulista representa melhor do que qualquer outro setor, esse ranço racista. Nunca assimilaram a Revolução de 30, menos ainda o governo do Getúlio. Foram derrotados sistematicamente pelo Getulio e pelos candidatos que ele apoiou. Atribuíam essa derrota aos “marmiteiros”- expressão depreciativa que a direita tinha para os trabalhadores, uma forma explicita de preconceito de classe.

A ideologia separatista de 1932 – que considerava São Paulo “a locomotiva da nação”, o setor dinâmico e trabalhador, que arrastava os vagões preguiçosos e atrasados dos outros estados – nunca deixou de ser o sentimento dominante da elite paulista em relação ao resto do Brasil. Os trabalhadores imigrantes, que construíram a riqueza de Sao Paulo, eram todos “baianos” ou “cabeças chatas”, trabalhadores que sobreviviam morando nas construções – como o personagem que comia gilete, da música do Vinicius e do Carlos Lira, cantada pelo Ari Toledo, com o sugestivo nome de pau-de-arara, outra denominação para os imigrantes nordestinos em Sao Paulo.

A elite paulista foi protagonista essencial nas marchas das senhoras com a igreja e a mídia, que prepararam o clima para o golpe militar e o apoiaram, incluindo o mesmo tipo de campanha de 1932, com doações de joias e outros bens para a “salvação do Brasil”- de que os militares da ditadura eram os agentes salvadores.

Terminada a ditadura, tiveram que conviver com o Lula como líder popular e o Partido dos Trabalhadores, para o qual canalizaram seu ódio de classe e seu racismo. Lula é o personagem preferencial desses sentimentos, porque sintetiza os aspectos que a elite paulista mais detesta: nordestino, não branco, operário, esquerdista, líder popular.

Não bastasse sua imagem de nordestino, de trabalhador, sua linguagem, seu caráter, está sua mão: Lula perdeu um dedo não em um jet-sky, mas na máquina, como operário metalúrgico, em um dos tantos acidentes de trabalho cotidianos, produto da super exploração dos trabalhadores. O dedo de uma mão de operário, acostumado a produzir, a trabalhar na máquina, a viver do seu próprio trabalho, a lutar, a resistir, a organizar os trabalhadores, a batalhar por seus interesses. Está inscrito no corpo do Lula, nos seus gestos, nas suas mãos, sua origem de classe. É insuportável para o racismo da elite paulista.

Essa elite racista teve que conviver com o sucesso dos governos Lula, depois do fracasso do seu queridinho – FHC, que saiu enxotado da presidência – e da sua sucessora, a Dilma. Tem que conviver com a ascensão social dos trabalhadores, dos nordestinos, dos não brancos, da vitória da esquerda, do PT, do Lula, do povo.

O ódio a Lula é um ódio de classe, vem do profundo da burguesia paulista e de setores de classe média que assumem os valores dessa burguesia. O anti-petismo é expressão disso. Os tucanos são sua representação política.

Da discriminação, do racismo, do pânico diante das ascensão das classes populares, do seu desalojo da direção do Estado, que sempre tinham exercido sem contrapontos. Os Cansei, a mídia paulista, os moradores dos Jardins, os adeptos do FHC, do Serra, do Gilmar, dos otavinhos – derrotados, desesperados, racistas, decadentes.

Fonte: http://altamiroborges.blogspot.com.br/2012/06/o-dedo-do-lula-e-o-odio-de-classe.html?spref=tw

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Por IPI zero para bicicletas

Para deter a desaceleração da indústria automobilística no Brasil, o governo decidiu baixar o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) sobre automóveis novos. Para carros de mil cilindradas, o imposto foi zerado.
Porém, uma pergunta que faço é: com o trânsito cada vez mais caótico nas grandes cidades brasileiras, ainda vale a pena comprar um carro?
Eu, particularmente, prefiro continuar andando a pé, de ônibus, lotação, táxi, carona… Se assim eu já sou um cara estressado, imaginem se dirigisse nesse caos todos os dias? É portanto duvidoso o benefício econômico do “IPI zero” para automóveis: quem não é facilmente seduzido pela propaganda vai pensar bem antes de decidir comprar um carro.
Mas, talvez realmente as pessoas saiam a comprar mais carros. Teremos assim mais motoristas nas ruas, cada vez mais estressados. Mais poluição atmosférica. Consequentemente, os hospitais ficarão ainda mais lotados com gente doente.
Já se o “IPI zero” fosse para bicicletas, veríamos o contrário. A venda de bicicletas certamente aumentaria, afinal, elas já são mais baratas que automóveis. Teríamos um estímulo a mais bicicletas e menos carros nas ruas – e consequentemente menos poluição atmosférica, visto que as bicicletas não emitem gases (a não ser que o ciclista peide muito). Só isso já seria benéfico à saúde da população, mas como se não bastasse, andar de bicicleta é também um excelente exercício; portanto, o benefício à saúde seria duplo.
Na verdade, triplo: bicicletas ocupam menos espaço que carros, e assim o trânsito fluiria muito melhor. As pessoas se estressariam menos, e por isso, ficariam menos doentes.
Fonte: http://www.sul21.com.br/blogs/caouivador/

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Padre Marcelo S.A. e o Opus Dei

Por Altamiro Borges

Paparicado pela mídia, com destaque pela católica fervorosa TV Globo, o padre Marcelo Rossi deve ter cometido alguma heresia diante da Folha. Em menos de uma semana, ela publicou dois petardos contra o religioso. No primeiro, intitulado “Padre Marcelo S.A.”, o jornal informa, em tom jocoso, que “o sacerdote é seu próprio empresário e adota jargão executivo”.

“De R$ 12 a R$ 18 milhões”

O mote da crítica é o livro “Ágape”, que em 13 meses vendeu 6 milhões de cópias. Segundo relata o jornalista Morris Kachani, “ele é uma espécie de diário escrito em dois meses”, vendido a R$ 19,90, e que já rendeu milhões de reais à Editora Globo. “Editores de best-sellers ouvidos pela Folha acreditam que nenhum livro lançado no país atingiu esse número em um período tão curto”.

Ainda segundo o repórter, “o padre usa o livro na missa dominical transmitida ao vivo pela TV Globo e no programa matinal diário que mantém na rádio Globo AM... O valor dos royalties ele não divulga – diz que ganhou ‘milhões e milhões’. Mas é consenso no mercado de que menos do que 10% a 15% do valor de capa – ou seja, de R$ 12 milhões a R$ 18 milhões – certamente não foi”.

“Eu me dou bem com o Opus Dei”

Num outro trecho da reportagem, bastante elucidativa, Padre Marcelo revela suas predileções religiosas e políticas. Expoente da chamada Renovação Carismática, ele confessa: “Eu me dou bem com o Opus Dei, mas com a Teologia da Libertação não muito – eles acham que sou midiático. Ficam no debate teórico sobre ricos e pobres. É uma teologia que, com todo respeito, é pobre”.

Vale lembrar que o Opus Dei é uma seita de ultra-direita, nascida durante a sanguinária ditadura do general Francisco Franco na Espanha (1939-1976). Ela tem outros famosos seguidores no Brasil, como vários colunistas da mídia e o governador de São Paulo, o tucano Geraldo Alckmin, de quem o Padre Marcelo é um grande amigo e aliado.

O milagre da Bienal do Livro

O segundo petardo contra o Padre Marcelo foi desferido hoje pelo cronista Ruy Castro, no artigo intitulado “Milagre na Bienal”. O texto é corrosivo, irônico. Reproduzo alguns trechos do artigo:

*****

Segundo os jornais, das 11h20 às 17h30 de quarta-feira passada, padre Marcelo autografou 1.200 livros no estande de sua editora. De tanto assinar e cumprimentar leitores, sua mão inchou de tal forma que teve de ser enfaixada por paramédicos e a sessão, encerrada. Mas, como a multidão não arredasse pé, padre Marcelo convenceu seu público a trocar o autógrafo e o aperto de mão por uma bênção individual, donde distribuiu 6.000 bênçãos entre 17h30 e 19h40. Não é invejável?

Vejamos agora. Das 11h20 às 17h30, são 370 minutos. Significa que, durante seis horas e dez minutos, padre Marcelo autografou 3,2 livros por minuto – sem parar. Equivale a um livro autografado (e uma mão apertada) a cada 18,7 segundos. É digno de The Flash. Já as bênçãos, só com ajuda da velocidade divina. Das 17h30 às 19h40, são 130 minutos. Significa que, com mão enfaixada e tudo, padre Marcelo distribuiu 46 bênçãos individuais por minuto. Uma bênção a cada 1,3 segundo! Milagre?

Os números são da editora de padre Marcelo. E depois tem gente que não acredita no sobrenatural.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Por Rodrigo Vianna, no blog Escrevinhador: via blog do Miro

O Jobim pode ser arrogante. O Jobim pode ser oportunista. O Jobim pode ser uma espécie de Fouché brasileiro, na sua capacidade de servir a tucanos e petistas ao sabor das conveniências.

O Jobim, além de tudo, maltrata um dos nobres sobrenomes brasileiros. Jobim é nome de maestro, nome de poeta. Não deveria ser nome de minsitro fanfarrão.



Jobim pode ser tudo isso: arrogante, oportunista e fanfarrão. E muito mais. Mas uma coisa ele não é: bobo.

Ninguém acredita que um homem experiente, que já passou pelos 3 poderes da República, teria sido “infeliz” em seguidas declarações “desastradas”.

O que move Jobim?

Augusto da Fonseca, no “Festival de Besteiras da Imprensa”, testa uma hipótese: Jobim quer comandar a oposição. Por isso, Dilma teria tolerado tantas bobagens ditas pelo fanfarrão. Tudo o que ele quer é ser demitido, pra sair como vítima de uma presidenta que “maltrata” aliados (?!). A hipótese de Augusto é que Jobim esteja preparando o terreno para voltar ao leito original: um peemedebista a serviço do demo-tucanismo, a serviço de Serra.

Pode ser…. Mas, pergunto eu ao Augusto, por que Jobim teria resolvido agir agora? A eleição de 2014 não está longe demais? Parece cedo para fazer o papel do melindrado que salta para o barco do tucanismo.

Vou testar outra hipótese: Jobim era o principal articulador da concorrência para compra dos aviões da FAB. No governo Lula, tudo apontava para os “Rafalle” – aviões franceses. Jobim era o fiador dessa escolha, a maior concorrência para compra de aviões militares no mundo. Não era pouca coisa. Não era pouco dinheiro em jogo.

No governo Dilma, os concorrentes do Rafalle (suecos e norte-americanos) parecem ter voltado ao páreo. Jobim, teria sido colocado de escanteio na negociação? A súbita verborragia do (ex) ministro – que (com um nao de atraso) resolveu declarar voto em Serra, além de atacar o núcleo da coordenação política do governo Dilma - parece indicar que há algo no ar além dos aviões franceses…

Seja como for, a saída de Jobim deixa uma gostosa avenida aberta para o verdadeiro partido de oposição, a velha mídia brasileira. Sem Jobim, o “caosaéreo” já pode voltar às manchetes. Também surge uma chance de prolongar a tal “crise entre os aliados do governo”. Jobim fora do governo, fora de um ministério poderoso, é chance para muita fofoca, para muita intriga a mostrar que a aliança com o PMDB “não vai bem”.

A velha mídia vai deitar e rolar.

E daí?

E daí, nada.

Na minha modestíssima opinião, Dilma ganha muito ao se livrar de Palocci e Jobim. Os dois eram parte da face mais “atucanada” desse governo - que começou titubeante em muitas áreas.

Ainda mais porque já se confirma: Celso Amorim será o novo ministro da Defesa. Sai o Jobim que se apequena diante de embaixadores estrangeiros, entra o Amorim que comandou a política externa independente sob Lula.

Além dessa ótima notícia, surgem aos poucos outros sinais positivos no governo:

- Dilma mostra que vai defender a economia brasileira da guerra cambial; não se renderá à lógica idiota dos comentaristas liberais; o governo vai intervir (e já começou a intervir) para defender indústrias e empregos;

- Dilma faz a autocrítica por se afastar de sua base original; mostrou isso ao se unir de surpresa a sindicalistas que estavam no Palácio – Dilma pediu desculpas por não ter incluído as centrais no debate sobre a nova política industrial.

Livre dos atucanados, firme na defesa da indústria (e dos empregos), e caindo na real sobre quem são os verdadeiros aliados: essa é a Dilma de agosto.

O que parece “crise” (nas manchetes da velha mídia e nas “reportagens” do JN de Ali Kamel) pode ser o começo de nova fase de governo. Dilma se fortalece – na opinião pública – ao se livrar de “aliados” como Jobim, Palocci e “a turma do PR” . E vai-se fortalecer mais se fizer movimentos para reorganizar sua base de apoio original (na sociedade).

Dilma precisará dessa força para enfrentar as “crises fabricadas”, os ataques da velha mídia e as turbulências da economia mundial.

Forte, e com a economia em ordem apesar dos sacolejos no mundo, Dilma poderá olhar para Jobim e tirar a conclusão lógica: essa é uma ausência que preenche uma lacuna!

Fonte: http://turcoluis.blogspot.com/

terça-feira, 28 de junho de 2011

NO BRASIL, FUTEBOL É RELIGIÃO

Pastor Ed Renê Kivitz entra no debate sobre intolerância no Santos

Por: Redação Creio

O pastor da Igreja Batista em Água Branca, em São Paulo, Ed Renê Kivitz, também entrou no acalorado debate sobre futebol e religião. A ação foi motivada a polêmica visita do time do Santos, durante a páscoa, a um centro espírita. Na ocasião, Robinho e Cia não quiseram realizar a entrega de ovos de páscoa a crianças portadoras de deficiência no local. Renê entrou no debate. Leia o texto abaixo:

NO BRASIL, FUTEBOL É RELIGIÃO

Os meninos da Vila pisaram na bola. Mas prefiro sair em sua defesa. Eles não erraram sozinhos. Fizeram a cabeça deles. O mundo religioso é mestre em fazer a cabeça dos outros. Por isso cada vez mais me convenço que o Cristianismo implica a superação da religião, e cada vez mais me dedico a pensar nas categorias da espiritualidade, em detrimento das categorias da religião.

A religião está baseada nos ritos, dogmas e credos, tabus e códigos morais de cada tradição de fé. A espiritualidade está fundamentada nos conteúdos universais de todas e cada uma das tradições de fé.

Quando você começa a discutir quem vai para céu e quem vai para o inferno, ou se Deus é a favor ou contra à prática do homossexualismo, ou mesmo se você trem que subir uma escada de joelhos ou dar o dízimo na igreja para alcançar o favor de Deus, você está discutindo religião. Quando você começa a discutir se o correto é a reencarnação ou a ressurreição, a teoria de Darwin ou a narrativa do Gênesis, e se o livro certo é a Bíblia ou o Corão, você está discutindo religião. Quando você fica perguntando se a instituição social é espírita kardecista, evangélica, ou católica, você está discutindo religião.

O problema é que toda vez que você discute religião você afasta as pessoas umas das outras, promove o sectarismo e a intolerância. A religião coloca de um lado os adoradores de Allá, de outro os adoradores de Yahweh, e de outro os adoradores de Jesus. Isso sem falar nos adores de Shiva, de Krishna e devotos do Buda, e por aí vai. E cada grupo de adoradores deseja a extinção dos outros, ou pela conversão à sua religião, o que faz com que os outros deixam de existir enquanto outros e se tornem iguais a nós, ou pelo extermínio através do assassinato em nome de Deus, ou melhor, em nome de um deus, com d minúsculo, isto é, um ídolo que pretende se passar por Deus.

Mas quando você concentra sua atenção e ação, sua práxis, em valores como reconciliação, perdão, misericórdia, compaixão, solidariedade, amor e caridade, você está no horizonte da espiritualidade, comum a todas as tradições religiosas. E quando você está com o coração cheio de espiritualidade, e não de religião, você promove a justiça e a paz. Os valores espirituais agregam pessoas, aproxima os diferentes, faz com que os discordantes no mundo das crenças se deem as mãos no mundo da busca de superação do sofrimento humano, que a todos nós humilha e iguala, independentemente de raça, gênero, e inclusive religião.

Em síntese, quando você vive no mundo da religião, você fica no ônibus. Quando você vive no mundo da espiritualidade que a sua religião ensina – ou pelo menos deveria ensinar, você desce do ônibus e dá um ovo de páscoa para uma criança que sofre a tragédia e miséria de uma paralisia mental.

Ed René Kivitz, cristão, pastor evangélico, e santista desde pequenininho.

Fonte: http://www.creio.com.br/2008/noticias01.asp?noticia=8239


quarta-feira, 18 de maio de 2011

Defesa da Ku-Klux-Klan não tira grandeza de Lobato, diz biógrafo

A polêmica em torno do suposto racismo de Monteiro Lobato — levantada no ano passado após o Conselho Nacional de Educação recomendar a inclusão de notas explicativas no livro Caçadas de Pedrinho — ganhou novo fôlego. Tudo por causa da publicação de cartas inéditas do escritor na última edição da Bravo!.

Nelas, são revelados o pouco apreço do autor de Urupês por "mestiços" e sua simpatia pela Ku-Klux-Klan, sociedade secreta norte-americana que defende a supremacia branca. Em algumas cartas, Lobato também se mostrava favorável à eugenia — estudo fundamentado na ideia de aprimoramento da espécie humana a partir da genética, que serviu de base para o nazismo e os argumentos sobre a pretensa superioridade da raça ariana.

O historiador Vladimir Sacchetta, co-autor da biografia Monteiro Lobato — Furacão na Botocúndia, relativiza a identificação do criador de Emília com a eugenia. Segundo ele, as acusações de racismo endereçadas ao escritor não passam de "bobagem", uma atitude “extemporânea”.

“No livro (Caçadas de Pedrinho), eles caçam e matam uma onça pintada. Hoje seria um crime ambiental. Naquele momento, não era. O mesmo acontece com as expressões usadas pela Emília. Se ela chama a Tia Nastácia de "negra beiçuda" ou "negra de estimação", isso não significa que ela está com uma atitude racista”, afirma o biógrafo em entrevista a Ana Cláudia Barros, do Terra Magazine.

Para Sacchetta, no entanto, “é indefensável" a defesa que Lobato faz da Ku Klux Klan. “Isso é bem pesado. Mas, ao mesmo tempo, Lobato tinha sido editor do Lima Barreto. Entendeu? Ele funcionava por impulso. Sabe excitação intelectual? Aí, ele banca uma Emília, que mostra a língua. Isso não diminui a importância do Lobato para a cultura brasileira.”

Confira abaixo a entrevista.

Terra Magazine: Qual era a relação de Monteiro Lobato com a eugenia?
Vladimir Sacchetta: É preciso entender a relação do Lobato com a eugenia no seu tempo. Não adianta olhar para a eugenia hoje, tendo acontecido o que aconteceu na aplicação desta teoria para se chegar à raça pura, coisa que o nazismo fez.

É a mesma coisa que discutir as malcriações que a Emília fazia para a tia Nastácia em 1933, passando pelo filtro do politicamente correto do século XXI. Hoje é inadmissível que se coloque, em qualquer livro, expressões como "negra beiçuda", "negra de estimação", coisa que o Lobato fazia naquele momento no qual não se discutia o politicamente correto. Ponto.

Lobato tinha o maior apreço pela Tia Nastácia dentro da sua obra. Tanto que ela é a própria criadora da Emília, seu personagem mais importante. Ela é a detentora de um saber popular, diferente do saber livresco do Visconde de Sabugosa.

Terra Magazine: Na sua interpretação, essas expressões apontadas pelos críticos de Lobato são racistas?
VC: Não chamo de racistas. Racista é uma atitude muito negativa com relação à raça negra. Elas se tornam racistas se você enxergá-las sob o prisma do politicamente correto dos dias de hoje.

Terra Magazine: O que você está destacando é que eram expressões correntes na época...
VC: Correntes, correntes. A Emília é uma projeção do próprio Lobato, é o alterego do Lobato para dar voz e vez às crianças daquele tempo que não tinham voz nem vez. O Lobato quebra essa hierarquia adulto-criança e cria essa personagem que questiona, é irreverente, pensa com a cabeça própria. Lobato veio subverter a ordem adulto-criança. Mais do que isso: ele considerava a criança um ser inteligente. Não era um adulto em miniatura, nem um idiota. A obra dele coloca a criança como um ser inteligente o tempo todo.

Chamar o Lobato de racista é complicado. Tanto que se você pegar o conto Negrinha, que dá título ao livro de 1920, 1921, vai ver a história da negrinha, filha de ex-escrava que é massacrada, torturada, violentada dentro de uma casa de uma senhora virtuosa, branca. Aquilo é um libelo contra uma sociedade branca, racista e mais, com a conivência da igreja católica.

Terra Magazine: Como biógrafo de Lobato, como você avalia essas críticas, acusações de que ele seria racista?
VC: Acho uma bobagem. É uma discussão extemporânea. Primeiro, a obra de Lobato não tem que ser modificada, alterada nem mexida. Cabe ao professor, que faz a mediação entre o livro e a criança ou a ao pai, uma explicação disso. Por que essa expressão era corrente e possível naquela época. Estamos falando de 1933, ano de Caçadas de Pedrinho, que é o tema atual por conta do parecer do Conselho Nacional de Educação.

No livro, eles caçam e matam uma onça pintada. Hoje seria um crime ambiental. Naquele momento não era. O mesmo acontece com as expressões usadas pela Emília. Se ela chama a Tia Nastácia de "negra beiçuda" ou "negra de estimação", isso não significa que ela está com uma atitude racista.

Terra Magazine: Você falou em contextualizar, mas um dos argumentos dos que criticam essas expressões na obra de Lobato é que nem todo professor, nem todas instituições de ensino estariam preparados para fazer essa contextualização. Há quem defenda que os livros, por essa razão, não deveriam ser adotados pelas escolas públicas. O que você acha disso?
VC: É uma atitude radical. O professor tem que estar preparado para essa mediação e para essa explicação. Dentro da preparação de um educador, de quem faz essa mediação da leitura...Estamos falando em crianças e jovens de 12, 14 anos, no máximo. É essa faixa que lê a obra.

Terra Magazine: Um pouco mais jovem...
VC: Um pouco mais novos. Acho que cabe ao educador apontar, contextualizar, datar, explicar falando que isso hoje é inadmissível. Se a Emília vivesse hoje, não usaria essas expressões.

Tivemos uma abolição tardia. O Lobato nasce seis anos antes da Abolição. Ainda estava muito fresco. Tanto o interior quanto a cidade de São Paulo tinham ex-escravos. Ele teve ama de leite. As histórias que ele traz para sua obra, Saci, mitos brasileiros, ele ouviu das ex-escravas. Lobato teve uma Nastácia que foi babá de um dos filhos dele.

Terra Magazine: Voltando para a questão da eugenia. Numas das carta que ele escreveu para Godofredo Rangel, o escritor sugeriu que a literatura "é um processo indireto de fazer eugenia, e os processos indiretos, no Brasil, 'work' muito mais eficientemente". No livro Raça Pura, da historiadora Pietra Diwan, Lobato também é citado como alguém que demonstrava simpatia pelo movimento eugenista. Na condição de biógrafo, como você descreve a relação do Lobato com a eugenia?
VC: O Lobato, como um intelectual curioso com as ideias, se metia a pensar a respeito de tudo e dava suas opiniões, seus palpites. Creio que, naquele momento, ele achava isso. Isso não significa que ele, mais para frente, vá defender a eugenia.

Lobato estava sempre revendo seus conceitos. Em 1914, ele cria o Jeca Tatu e diz que era indolente, preguiçoso, sacerdote da lei do menor esforço. Quatro anos depois, ao tomar contato com as pesquisas do Belisário Pena e do Arthur Neiva sobre saúde pública, ele vê que o Jeca Tatu é um homem do campo excluído e doente. Na segunda edição de Urupês, ele pede desculpa ao Jeca Tatu e diz: - Jeca, você não é assim. Você está assim porque carrega vermes, protozoários, amebas. Ele usa Expressão "zoológico de protozoários".

Terra Magazine: O que você está querendo destacar é que Lobato era capaz de reconsiderar uma posição?
VC: Reconsiderou uma posição. Nessa carta que deu a polêmica entre a autora Ana Maria Gonçalves e o Ziraldo (a carta enviada a Godofredo Rangel que fala sobre mestiçagem), ela cita um trecho que está na primeira edição da Barca de Gleyre, de 1944. Na segunda edição, que está na obra completa, organizada por Lobato para a Brasiliense, aquele trecho foi suprimido.

Terra Magazine: Por que foi suprimido?
VC: Porque ele repensou, viu que não tinha nada a ver e cortou.

Terra Magazine: Numa carta escrita a Arthur Neiva, em 15 de dezembro de 1935, e publicada na última edição da Bravo!, Lobato, ao se referir à mestiçagem na Bahia, diz: "Mas que feio material humano formiga entre tanta pedra velha!A massa popular é possivelmente um resíduo, um detrito biológico. Já a elite que brota como flor desse esterco tem todas as finuras cortesãs das raças bem amadurecidas".
VC: O Lobato tinha esses impulsos. Ele falava o que achava. Isso não diminui a grandeza dele e nem deve ser posto sob o tapete por seus admiradores, biógrafos.

Terra Magazine: Uma crítica que costuma ser feita é que esse lado do Lobato simpático à eugenia, o suposto racismo não são retratados pelos biógrafos. Como você vê isto?
VC: Lobato é um escritor, cidadão cercado de preconceitos por todos os lados. Por exemplo, Lobato e a Semana de 22, que se coloca como marco zero da cultura brasileira e a partir dela se cria uma figura teórica do Pré-modernismo. A semana de 1922 quis trazer Lobato para seu grupo e ele não topou porque achava que os modernistas brasileiros estavam importando escolas estrangeiras, europeias, sem o devido espírito crítico.

Ele faz aquela crítica à exposição da Anita Malfatti. Os modernistas e os críticos da escola modernista pegam e recortam essa crítica dele e pegam trechos em que Lobato é radicalmente contra essa importação dos "ismos", como ele dizia, chamava de arte caricatural. Eles descontextualizam o texto em que Lobato fala que Anita era uma pintora poderosa, dominava a técnica. Ele faz muitos elogios a ela.

Mas pegam o trecho em que ele critica dessa forma "lobatiana". Ele usa expressões muito duras porque era um polemista. Aí, inventam um rompimento radical com o movimento modernista, o que é uma mentira, uma bobagem.

Terra Magazine: Em outra carta de Lobato, também publicada na Bravo! — e apresentada em fevereiro na "Carta aberta a Ziraldo" da escritora Ana Maria Gonçalves —, ele diz: "País mestiço onde branco não tem força para criar uma Ku Klux Klan, é país perdido".
VC: Claro que a defesa da Ku Klux Klan é indefensável. Isso é bem pesado. Mas, ao mesmo tempo, Lobato tinha sido editor do Lima Barreto. Entendeu? Ele funcionava por impulso. Sabe excitação intelectual? Aí, ele banca uma Emília, que mostra a língua.

Isso não diminui a importância do Lobato para a cultura brasileira. É um homem que levantou a bandeira do petróleo na década de 1930 e hoje temos a Petrobrás. Concebeu, por exemplo, a literatura paradidática. Hoje, ela está em todas as escolas.

Terra Magazine: Na sua opinião, essas questões que estão sendo levantadas podem, de alguma forma, arranhar a imagem do Lobato escritor?
VC: Acho que não. O escritor é um homem como outro qualquer. Tem suas contradições. Não é um ser imaculado e puro, coerente o tempo todo. É um ser humano sujeito a chuvas e trovoadas.

Lobato, quando foi preso pela questão do petróleo, passou por um primeiro julgamento no Tribunal de Segurança Nacional, que era um tribunal de exceção da Ditadura Vargas e, nesse primeiro julgamento, ele foi absolvido. O que ele faz? Ele pegou uma caixa de bombons meio comida, incompleta e mandou essa caixa para o presidente do Conselho Nacional do Petróleo, general Horta Barbosa, e disse o seguinte, que estava mandando um presente, agradeceu o tempo em que passou preso, quando teve oportunidade de conhecer gente muito melhor do que o primeiro escalão do governo.

O que aconteceu? O tribunal recorreu e ele foi condenado por conta desse ato intempestivo. Esse era o Lobato. Um cara que funcionava intempestivamente.

Terra Magazine: O que o senhor acha da inclusão de notas explicativas nas próximas edições dos livros de Lobato?
VC: Acho que alterar a escrita dele, de forma alguma. Talvez, colocar numa introdução, uma explicação, até para orientar o mediador para a leitura da criança, seja o pai, seja o professor.

Fonte: Terra Magazine

terça-feira, 5 de abril de 2011

Ou a bomba atômica ou submissão

Os EUA estão de olho no pré-sal e na Amazônia

Nenhuma nação pode se considerar soberana se não dominar a energia nuclear.

Para o bem ou para o mal.

Infelizmente essa é a realidade do mundo atual.

Se no século 19 as nações possuíam forças armadas, a partir do século 20 as forças armadas passaram a possuir nações.

Basta consultar o mapa-múndi.

O continente africano foi estraçalhado pelos colonialistas.

O mesmo aconteceu com o continente asiático.

Nem as Américas escaparam.

O ideal seria que não houvesse fronteiras geográficas, as únicas que ainda resistem.

E a depender a indústria bélica, elas jamais desaparecerão.

Enquanto prevalecerem as fronteiras físicas, o Brasil precisa tomar duas providências se quiser manter a sua independência.

1) Cuidar para que a mídia não destrua a auto-estima do brasileiro;

2) Iniciar a construção da bomba atômica.

Ultimamente a mídia tem servido como ponta de lança do imperialismo.

Nem vou me perder em detalhes, pois qualquer pessoa minimamente informada sabe disso.

Quanto à bomba atômica, basta ver como o Império e seus asseclas agem.

Atiraram no lixo a autodeterminação dos povos e não dão a mínima para as criticas.

Colocam seus interesses acima da lei e da ordem o que transforma o Brasil na bola da vez.

Petróleo e água são bens preciosos.

Atualmente os mais preciosos, diga-se.

O Brasil possui os dois.

O que transforma o país em alvo de cobiça.

Os Estados Unidos já avisaram que tecnicamente a área do pré-sal não pertence ao Brasil porque fica além das 20 milhas do litoral brasileiro.

Para bom entendedor isso é o suficiente.

Sobre a cobiça fluvial basta dar um pulo até a Amazônia.

Infelizmente esta é a realidade.

O ideal seria desarmar o planeta, mas enquanto isto não acontece, é bom que o Brasil comece a se armar de verdade.

A não ser que entenda como algo natural a invasão e o saque das riquezas de nações independentes, apenas porque elas não têm como se defender.

O Brasil precisa decidir.

A bomba atômica ou a submissão.

Fonte: http://blogdobourdoukan.blogspot.com/

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Porque Angra é diferente de Fukushima

Autor:

O plano de emergência para evacuação de área quando em casos de desastres nucleares aplicado no Japão é semelhante ao esquema adotado pelo Brasil na região de Angra dos Reis, onde operam hoje as usinas Angra 1 e Angra 2.

O especialista em análise de acidentes em usinas nucleares e presidente da Associação Brasileira de Energia Nuclear, (Aben) Edson Kuramoto, explica que a cada dois anos a população é submetida a um treinamento de evacuação de área que envolve unidades de defesa civil do estado, município, exército e marinha.

As ações para retirada de pessoas acompanham uma simulação de propagação de material radioativo iniciado pela retirada de pessoas a 5 km de distância da usina, por exemplo, depois a 10 km, e assim por diante.

A região de Angra dos Reis foi escolhida para a construção da primeira usina nuclear brasileira, da década de 1970, por ser relativamente afastada dos centros urbanos, inabitada. Hoje a cidade não só abriga os funcionários das duas usinas e seus familiares, como uma população de 169 mil habitantes, para uma área de 825 km2. A beleza natural e a construção da BR 101, facilitando a mobilidade, são os principais fatores para o desenvolvimento da cidade.

Kuramoto destaca que os riscos do Brasil sofrer um acidente igual ao que ocorreu nas três centrais nucleares japonesas - Onagawa, Fukushima e Tokai – são muito pequenos. Para começar, a probabilidade de ocorrer um terremoto, e da mesma magnitude que atingiu o Nordeste do Japão, de 9,0 graus na escala Richter, é bastante remota no Brasil. Já a probabilidade de um tsunami dessa magnitude é de a cada milênio. Acredita-se que o último tenha sido responsável por afundar Alexandria.

O segundo ponto levantado pelo engenheiro é que a tecnologia das usinas de geração e distribuição do Japão é do tipo BWR, consideradas menos seguras que as do tipo PWR, utilizada no Brasil. Em primeiro lugar, o sistema de refrigeração do reator nuclear de Fukushima é único, ou seja, a água que passa pelo circuito de resfriamento é a mesma que é posta em contato com o reator. Enquanto que o sistema de refrigeração do reator do tipo PWR é independente, separado em sistemas primário e secundário.

Em segundo lugar o resfriamento das usinas BWR para atmosfera ocorre através de válvulas, de contato direto com o núcleo do reator para o meio ambiente. Nas usinas brasileiras, a válvula de alívio e segurança fica no sistema secundário, sem contato com o núcleo do reator. Por último, a fonte de água usada para resfriar um reator do tipo de Fukushima é apenas uma: água do mar. As usinas de Angra 1 e Angra 2 utilizam sistemas auxiliares, de água de alimentação auxiliar de emergência e de proteção contra incêndio.

Acesse resumo para comparação de usinas em Fukushima e Angra

Mesmo com todas as diferenças estruturais que facilitam a contaminação do meio por acidente, as usinas japonesas foram capazes de resistir um dos terremotos mais fortes já registrado desde que a escala Richter foi desenvolvida, em 1935. Seus sistemas desligaram automaticamente, conforme o programa de segurança previa. O problema foi o tsunami, que interrompeu o processo de resfriamento de combustível iniciado logo após o terremoto.

As usinas japonesas foram projetadas para suportar um impacto de onda de 5 metros, sendo que as ondas que chegaram às usinas foram de 10 metros, explica Kuramoto.

Programa nuclear brasileiro

Segundo dados da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), entre 2004 e 2010, os investimentos no setor foram multiplicados por 5, alcançando os R$ 60 milhões, que envolvem não só a produção de energia, mas o uso médico e industrial, nas áreas de mineração e esterilização de alimentos, por exemplo, da física nuclear.

O PDE 2030 (Plano Decenal de Energia) também prevê investimentos nessa fonte energética. O Brasil tem a 6ª maior reserva de urânio do mundo, tendo prospectado apenas 30% de todo seu território. Isso quer dizer que há possibilidades do país ter a 2ª maior reserva do planeta, estimada em 900 mil toneladas de minério. "Esse potencial energético é equivalente ao estimado para o pré-sal", completa Kuramoto.

Em 2030 o país estará consumindo o dobro de energia que consome hoje. Até lá, o potencial hidrelétrico estará esgotado, por isso o PDE 2030 prevê investimentos na diversificação da matriz energética brasileira. Quanto à energia nuclear, a ideia é que sua participação geral continue em 3% da matriz, a partir da implantação de pelo menos cinco novas usinas, entre elas Angra III, já em construção e estimada em R$ 10,4 bilhões.

quarta-feira, 30 de março de 2011

A polêmica Jair Bolsonaro

A polêmica Jair Bolsonaro

Em entrevista ao programa CQC, segunda-feira à noite, o deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ), fez várias declarações polêmicas, ofensivas, que podem lhe custar até o mandato.

Ao ser perguntado sobre a hipótese de ter um filho gay, respondeu: “Isso nem passa pela minha cabeça, eu dei uma boa educação, fui pai presente, não corro esse risco.”

Questionado por que é contra as cotas raciais, disse: “Eu não entraria em um avião pilotado por um cotista nem aceitaria ser operado por um médico cotista.”

Indagado pela cantora Preta Gil sobre o que ele faria se um filho dele se apaixonasse por uma negra, respondeu: “Ô Preta, eu não vou discutir promiscuidade com quer que seja. Eu não corro esse risco. Meus filhos foram muito bem educados. Não viveram em ambiente como, lamentavelmente, é o teu.”

Preta Gil vai processar Bolsonaro: “Racismo é crime! E ele assume que o é!”, escreveu no Twitter, ao anunciar o processo. “Não farei somente por mim e pela minha família, que foi ofendida e caluniada por ele, mas também por todos os negros e gays deste país”.

O presidente da Ordem dos Advogados no Brasil (OAB)- seção Rio de Janeiro, Wadih Damous, oficializou abertura imediata de processo por quebra de decoro parlamentar conta o deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ). Para Damous, as declarações do deputado são inaceitavelmente ofensivas, pois tem cunho racista e homofóbico, comportamento incompatível com as tradições parlamentares brasileiras.

Também nessa terça-feira, 29, deputados protocolaram, representação para que o deputado Jair Bolsonaro seja investigado pela Corregedoria da Câmara por quebra de decoro parlamentar. Os deputados acusam Bolsonaro de ter feito comentários racistas feitos durante o programa CQC, da TV Bandeirantes, exibido na segunda-feira (28).

A representação, assinada por 20 deputados, pede ainda que Bolsonaro seja destituído da Comissão de Direitos Humanos pelo seu partido. “Não cabe uma pessoa que não defenda esses direitos atuar em uma comissão voltada para esse fim”, disse a presidente da Comissão, deputada Manuela d’Ávila (PCdoB-RS).

Íntegra da representação dos deputados contra Bolsonaro

Os parlamentares infra-assinados vem, respeitosamente, à presença de Vossa Excelência representar contra o deputado JAIR BOLSONARO pelas razões de fato e de direito na seguinte:

REPRESENTAÇÃO DOS FATOS

Na noite de 28 de março de 2011 foi ao ar o programa da TV Bandeirantes entitulado CQC – Custe o Que Custar, no qual foi veiculada uma entrevista com o Deputado Jair Bolsonaro no quadro do CQC denominado “O povo quer saber”. No decorrer da entrevista, o referido parlamentar, ao ser indagado pela artista e promotora Preta Gil “se seu filho se apaixonasse por uma negra, o que você faria?” Eis a resposta literal do entrevistado: “ô Preta, eu não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja, eu não corro esse risco porque meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambientes como lamentavelmente é o seu” (!).

Esta resposta caracterizada por evidente cunho racista culminava uma série de afirmações em desapreço a diversos grupos sociais e em apologia a graves violações de direitos humanos, no decorrer de toda a referida entrevista.

Na realidade tem sido recorrentes as manifestações de cunho racista proferidas pelo Sr. Jair Bolsonaro nesta Casa e fora dela, contra diversos grupos sociais e organizações defensoras de direitos humanos, dentre as quais a própria Comissão de Direitos Humanos e Minorias, da qual ele é membro suplente por designação do partido a que é filiado, o PP.

DO DIREITO

A difusão de conteúdos ideológicos por meio da mídia eletrônica é de conhecido poder de multiplicação, principalmente quando se trata de programa que conta com significativa audiência, como o CQC. O Sr. Jair Bolsonaro ao utilizar-se de um espaço midiático para propagar atos que configuram crimes, extrapola a liberdade de expressão para ofender a dignidade, a autoestima e a imagem não só da pessoa que fez a pergunta naquele momento, mas de toda a sociedade, uma vez que os direitos e princípios constitucionais ofendidos pertencem à toda a sociedade.

A Lei 7.716, de janeiro de 1989, que define os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor, inclui, no seu Art. 20, “que praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional” é crime passível de reclusão de um a três anos e multa.

Essa Lei decorre de tratados internacionais de que o Brasil é signatário. A Constituição Cidadã é explícita ao repudiar o racismo como prática social, considerando-o como crime imprescritível e inafiançável. O Art. 1º da Carta Magna, que define como um dos fundamentos da República Federativa do Brasil “III – a dignidade da pessoa humana.”

O Art. 3º, que enumera os objetivos fundamentais da República, contempla “IV – promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.

Já o Art. 4º , que estabelece os princípios pelos quais se regem as relações internacionais do país, VIII – repúdio ao terrorismo e ao racismo (…).

O Art. 5º da Constituição Cidadã, por sua vez, define que “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza (…). O mesmo Artº 5º, em seu Inciso XLII, prevê que “a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei.

A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, com base no Recurso Especial 157805/DF, prevê que “Incitar, consoante a melhor doutrina é instigar, provocar ou estimular e o elemento subjetivo consubstancia-se em ter o agente vontade consciente dirigida a estimular a discriminação ou preconceito racial. Para a configuração do delito, sob esse prisma basta que o agente saiba que pode vir a causá-lo ou assumir o risco de produzi-lo (dolo direto ou eventual).”

Por sua vez, o Código Penal, define o crime de injúria no Art. 140, estabelecendo que se trata de injuriar alguém, ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro. O § 3º da mesma lei,estabelece que “se a injúria consiste na utilização de elementos referentes a raça, cor etnia, religião, origem ou a condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência, a pena é de reclusão de um a três anos e multa.

Ante o exposto, requerem os representantes se digne V. Excelência determinar, em respeito aos princípios da Declaração Universal dos Direitos Humanos, da Carta Magna de 1988 e da Lei vigente, a instauração do devido procedimento contra o Deputado JAIR BOLSONARO, para que seja:

1) Avaliada se a conduta do Deputado Jair Bolsonaro configura efetivamente a prática do crime de racismo;

2) Determinadas providências para requisição de vídeo tape do programa CQC à TV Bandeirantes exibido na noite de 28 de março de 2011 para melhor exame do caso;

3) Determinadas providências para requisição de transcrições de discursos do referido deputado nos quais se demonstram as práticas recorrentes de injúrias, ofensas à dignidade e incitação da discriminação e preconceitos, inclusive contra a Comissão de Direitos Humanos e Minorias;

4) Encaminhe à Corregedoria e, posteriormente, ao Conselho de Ética e Decoro Parlamentar abertura de processo sobre eventual quebra de decoro parlamentar.

Brasília(DF), 29 de março de 2011

Manuela d’Ávila (PCdoB-RS) – presidenta da Comissão de Direitos Humanos e Minorias

Brizola Neto (PDT-RJ)

Chico Alencar (PSol-RJ)

Domingos Dutra (PT-MA)

Édson Santos (PT-RJ)

Emiliano José (PT-BA)

Érika Kokay (PT-DF)

Fernando Ferro (PT-PE)

Ivan Valente (PSol-SP)

Jandira Feghali (PCdoB-RJ)

Jean Wyllys (PSol-RJ)

Luiz Alberto (PT-BA)

Luiz Couto (PT-PB)

Marina Santanna (PT-GO)

Perpétua Almeida (PCdoB-AC)

Para apoiar a manifestação, escreva para a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara: cdh@camara.gov.br

Diante da forte repercussão das declarações ao CQC, Bolsonaro alegou ter se equivocado na resposta. Disse ter entendido que a pergunta era se seu filho namorasse uma pessoa do mesmo sexo.

“Foi um mal-entendido, eu errei. Como veio uma sucessão de perguntas, eu não ouvi que era aquela pergunta, foi um equívoco. Entendi que a pergunta era se meu filho tivesse um relacionamento com gay, por isso respondi daquela forma”, disse. “Na verdade, quando eu vi a cara da Preta Gil eu respondi sem prestar atenção.”

Questionado sobre qual seria sua resposta à pergunta feita pela cantora, o deputado voltou ao ataque: “Eu responderia que aceito meu filho ter relacionamento com qualquer mulher, menos com a Preta Gil.”

Jair Bolsonaro divulgou esta nota de esclarecimento.

A respeito de minha resposta à cantora Preta Gil, veiculada no Programa CQC, da TV Bandeirantes, na noite do dia 28/03/2011, são oportunos alguns esclarecimentos.

A resposta dada deve-se a errado entendimento da pergunta – percebida, equivocadamente, como questionamento a eventual namoro de meu filho com um gay.

Daí a resposta: “Não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Não corro esse risco porque os meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambientes como lamentavelmente é o teu.”

Todos aqueles que assistam, integralmente, a minha participação no programa, poderão constatar que, em nenhum momento, manifestei qualquer expressão de racismo. Ao responder por que sou contra cotas raciais, afirmei ser contrário a qualquer cota e justifiquei explicando que não viajaria em um avião pilotado por cotista nem gostaria de ser operado por médico cotista, sem me referir a cor.

O próprio apresentador, Marcelo Tas, ao comentar a entrevista, manifestou-se no sentido de que eu não deveria ter entendido a pergunta, o que realmente aconteceu.

Reitero que não sou apologista do homossexualismo, por entender que tal prática não seja motivo de orgulho. Entretanto, não sou homofóbico e respeito as posições de cada um; com relação ao racismo, meus inúmeros amigos e funcionários afrodescendentes podem responder por mim.

Atenciosamente

JAIR BOLSONARO

Líbia: Gaddafi mata e o imperialismo mata mais

A situação na Líbia é muito complexa, isso é evidente. Mas faz falta uma análise sem reações instintivas, em um ou outro sentido, de alguns setores dos movimentos sociais e da esquerda do Ocidente. Com este texto não se pretende oferecer uma resposta completa e final, mas apresentar elementos que nos ajudem a decidir como nos posicionar. Mais importante que isso, como agir na atual situação.

David Karvala

Não à intervenção

Se podemos dizer alguma coisa em relação à Líbia neste momento deve ser "não à intervenção!".



A zona de exclusão aérea jamais consistiria na simples e inocente proteção dos rebeldes. Claro que a medida implicaria ataques aéreos dirigidos inicialmente contra as instalações militares de Gaddafi. Mas, como disse Joan Roure, diretor de notícias internacionais da TV3 (emissora de TV catalã), em um debate da Aturem la Guerra (entidade do movimento antiguerra na Catalunha), os bombardeios aéreos nunca são "cirúrgicos", sempre há "danos colaterais". Ou seja, ao atacarem as instalações antiaéreas de Gaddafi em Trípoli, matam civis, talvez dos mesmos bairros operários que se manifestaram reiteradamente contra Gaddafi desde o início da Revolução Líbia.

A hipocrisia da intervenção é assombrosa. Quando Israel fazia seus massacres no Líbano e em Gaza, nenhuma potência ocidental sequer exigiu que o Estado sionista parasse, nem muito menos pensou em obrigá-lo a fazê-lo com mísseis e bombas. Entre os que atacam agora a Líbia, estão os protagonistas das ocupações do Afeganistão e do Iraque que provocaram as mortes de centenas de milhares.



O mais flagrante é que no mesmo momento em que a "coalizão internacional" faz uma intervenção sob o pretexto de defender os opositores líbios, a Arábia Saudita – que apóia e colabora nesta coalizão – envia mil soldados ao Bahrein para se somar aos ataques assassinos contra os opositores nesse país. Os protestos massivos no Iêmen já causaram dezenas ou talvez centenas de mortes pelas mãos das forças de segurança do ditador Saleh, firme aliado do Ocidente. Aqui também não haverá intervenção para acabar com a violência do ditador.

Se os países ocidentais quisessem realmente ajudar os povos do mundo árabe na sua luta pela democracia, sairiam imediatamente do Afeganistão e do Iraque, deixariam de apoiar todas as ditaduras da região (rompendo relações políticas, econômicas e militares com elas), deixariam de apoiar os crimes de guerra de Israel e obrigariam-no, no mínimo, a cumprir as resoluções da ONU. Como não fazem nada disso, é evidente que não lhes interessa em nada defender a democracia, a justiça, nem nada do gênero.

Os motivos da intervenção

A explicação mais simples e evidente da intervenção é o petróleo. No entanto, há que se entender que não é o único motivo do ataque.


Um motivo que não convence é o de que Gaddafi seja um "inimigo do imperialismo". Voltaremos mais adiante a esse argumento.

O inimigo real do imperialismo é a onda de revoluções que se estende pela região. Já caíram Ben Ali na Tunísia e, muito mais grave por sua relevância em relação à Palestina, Mubarak no Egito. Outros ditadores aliados enfrentam movimentos maiores ou menores, como também é o caso de Asad na Síria, que é inimigo ou aliado do Ocidente, segundo o momento. As revoluções pegaram de surpresa todos os governantes do mundo. Todos seus serviços de espionagem não serviram para nada.


Se conseguem criar na Líbia um governo estável pró-ocidental, isso poderia ajudar a frear o processo revolucionário. Por um lado, fortaleceria a idéia de "mudar tudo para que nada mude" que é a maior esperança dos Estados Unidos para salvar os dedos, agora que as revoluções em curso ameaçam arrancar-lhes os anéis. Por outro lado, pressuporia ter um aliado estrategicamente localizado entre o Egito e a Tunísia, os dois países nos quais o processo revolucionário teve mais avanços até o momento. Dessa maneira, os Estados Unidos e seus aliados teriam mais capacidade de "dissuadir" possíveis mudanças mais radicais nesses países (evidentemente, este argumento apenas é valido se existe um reconhecimento de que há revoluções em curso no Egito e na Tunísia, também voltaremos depois a isso).

Para os Estados Unidos, cujas desastrosas ocupações do Afeganistão e do Iraque enfraqueceram muito a influência do país na região, o fato de se apresentar como defensor dos líbios poderia ajudá-lo a recuperar posições e servir de justificativa para suas ações militares.

Por fim, um aspecto interessante do ataque é a maneira como a França se reafirma como potência militar, após sua aproximação verbal (na qual até alguns intelectuais do Fórum Social Mundial acreditaram) com o pacifismo em 2003. Aqui há um complicado jogo de diversos lados e ângulos de alianças e rivalidades entre as diferentes potências imperialistas: Estados Unidos, diferentes países da União Européia, China, Rússia... Temos que estar atentos.

Gaddafi não é dos nossos

A esta altura, surpreende ter que insistir nisso, mas vale a pena tecer brevemente alguns comentários.

A chegada ao poder na Líbia em 1969 por parte de um grupo de militares, inspirados no feito dos militares egípcios em 1952, foi uma ação a partir de cima, sem contar com a mobilização social como fator determinante. Como em tantas lutas anticoloniais, houve melhorias sociais, mas se passou rapidamente da libertação a um regime autoritário. Nos anos 70, Gaddafi já era um ditador, mas com retórica radical suficiente para enganar certos setores da esquerda e assustar os governos do Ocidente.

Nos anos 90, entretanto, após a queda da União Soviética, os governos ocidentais e Gaddafi começaram a se entender. Aos primeiros lhes interessava o petróleo, enquanto que o último buscava apoio frente ao crescimento na região de grupos islâmicos do tipo da Al-Qaeda. Após o 11 de setembro, Gaddafi foi recebido como o filho pródigo, cortejado por Itália, França, Grã-Bretanha... Esses três países forneceram a Gaddafi dois terços das armas que ele agora utiliza contra a oposição. Gaddafi, por sua vez, assumiu de forma cada vez mais explícita o papel de fiel aliado do Ocidente, apresentando-se como o bastião contra o islamismo radical e a imigração africana.

Inclusive durante o conflito atual, Gaddafi tentou se defender dizendo que financiou a campanha eleitoral de Sarkozy e buscando o apoio de Israel.


A retórica radical que Gaddafi retomou nos últimos dias não deve enganar a ninguém. Ele não é um anti-imperialista, mas sim um servo do imperialismo que caiu em desgraça, como foi Saddam Hussein. Quem tenta argumentar o contrário apenas dificulta a mobilização contra o ataque militar ocidental, e fomenta a confusão sobre o que se supõe ser contra o imperialismo.

A Revolução Líbia é tão real como as outras

Alguns dos defensores de Gaddafi tentam apresentar as lutas na Líbia como algo totalmente diferente das revoluções em curso em outros países da região. Argumenta-se que os protestos na Líbia são "tribais" ou obra de agentes da CIA. Percebe-se a contradição ao elogiar os "avanços sociais" promovidos por Gaddafi para depois afirmar que a sociedade líbia é bastante atrasada para conduzir uma luta política que não seja tribal ou dependente de um poder estrangeiro.


Na verdade, todas as revoluções do mundo árabe têm coisas em comum e elementos muito específicos. No Iêmen, a divisão do país durante a Guerra Fria (com um norte pró-ocidental e um sul aliado de Moscou) ainda pesa muito. Desde a unificação do país em 1990, quem manda é Saleh, o antigo governante do norte, o que contribui para as lutas no sul. Por outro lado, um fator importante no norte são as tribos xiitas. No Bahrein, a divisão religiosa também é crucial: o rei é sunita, apoiado pela Arábia Saudita, e a maioria da população – e, portanto, dos manifestantes – é xiita... movimento que alguns consideram ser uma força secretamente apoiada pelo Irã, também majoritariamente xiita.

Portanto, a lógica que diz que não há revolução na Líbia devido a tal fator específico leva ao descarte de todas as revoluções na região. Para citar um exemplo: um tal Manuel Freytas escreveu que "o objetivo da "democratização" (que começa pela Tunísia e pelo Egito) é... instalar governos autoritários legitimados nas urnas... Em termos estratégicos, a troca do regime "militarista" de Mubarak por um governo "democrático" eleito nas urnas significa a combinação do "poder duro" (Pentágono) com o "poder brando" (Departamento de Estado dos EUA) dentro de um dispositivo convergente de controle pela "esquerda" e pela "direita"." Ou seja, tudo é uma manobra de cima para baixo da CIA e do Pentágono...

Lênin explicou em 1916 que em todas as revoluções autênticas há diversos fatores (lutas da pequena burguesia por questões nacionais, religiosas etc.) e que "quem espera uma revolução social pura, não a verá jamais. Será um revolucionário de palavra que não compreende a verdadeira revolução."

A fraqueza corrompe

O revolucionário palestino de origem judaica Tony Cliff dizia que "o poder corrompe, mas a falta de poder corrompe totalmente." A debilidade dos líderes opositores diante dos ataques de Gaddafi levou-os a se corromperem, buscando o apoio do Ocidente.


Não é a primeira vez que ocorre algo assim. No Iraque, os principais partidos do Curdistão iraquiano, que tinham trajetória de luta anti-imperialista, passaram a ser aliados dos Estados Unidos em 1991. Os dirigentes desses partidos foram totalmente corrompidos, mas esse não é um motivo para deixar de defender os direitos nacionais do povo curdo.


Os dirigentes da oposição que buscam a intervenção ocidental não foram tão longe como os curdos, mas cometem um grave equívoco. Pensam que podem compactuar com o diabo pela metade, exigindo uma zona de exclusão aérea, mas se opondo a qualquer presença de tropas estrangeiras. Na verdade, a mesma lógica que justifica ataques com aviões estrangeiros também poderia justificar exércitos estrangeiros e uma ocupação por completo.

Por mais desesperada que fosse a situação da revolução sob os bombardeios de Gaddafi, a intervenção estrangeira vai enfraquecê-la ainda mais. Não se pode fazer uma revolução sob a proteção militar dos Estados Unidos e Cia. Uma revolução não é uma questão principalmente militar, mas sim social. O ponto débil da Revolução Líbia foi Trípoli, onde Gaddafi manteve a hegemonia, apesar de protestos em muitos bairros operários. Os bombardeios ocidentais na cidade não vão melhorar o balanço político a favor da revolução, mas sim fortalecerão o ditador.

Qual é a alternativa? Alguns falam de impor sanções ao regime de Gaddafi, deixando de comprar petróleo dele ou vender-lhe armas, por exemplo. Parece fazer sentido, mas se por sua vez continuam vendendo armas e fazendo comércio com Israel, Arábia Saudita etc. reproduz-se de forma evidente as duas caras com o ataque militar. E é óbvio que a vontade dos países ocidentais em tomar medidas contra Gaddafi não se estende aos demais governos ocidentais e/ou assassinos. Tampouco devemos esquecer os terríveis efeitos sobre a população iraquiana das sanções que sofreu seu país nos anos 90. É "realista" exigir sanções contra Gaddafi, porque os poderosos podem apoiá-las. Mas não é nos demais casos, porque eles não vão querer aplicá-las.

A verdade é que nós, da esquerda e dos movimentos sociais no mundo inteiro, não temos uma maneira fácil de resolver o problema, como não a temos para o conflito palestino, nem muito menos para o fato de que 20 mil crianças no mundo todo morrem todo dia por doenças e fome. Se a própria revolução tivesse conseguido derrubar Gaddafi, seria um passo positivo na transformação global que precisamos. Mas o fortalecimento do imperialismo através de sua intervenção na Líbia – com as justificativas e desculpas humanitárias que forem – fortalecerá o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial, a Organização Mundial do Comércio e os demais organismos que provocam essas 20 mil mortes diárias de crianças. Quem são os que não se preocupam pela perda de vidas humanas?

Existe uma estranha simetria entre os setores da esquerda que apóiam Gaddafi e os que respaldam a intervenção ocidental. Em meio à maior revolução na história do mundo árabe. Os primeiros agarram-se a um déspota louco como alternativa ao imperialismo. Os outros esperam que as armas do Ocidente defendam uma revolução. Não são apenas os dirigentes de Benghazi os que deixaram que sua fraqueza os corrompa.

Uma solução: revolução

Isso já não é um lema abstrato. A alternativa à intervenção ocidental é a revolução na região… e esperemos com o tempo que vá mais além. É essencial entender que a Revolução Tunisiana não terminou em janeiro e que a Revolução Egípcia não acabou com a queda de Mubarak em 11 de fevereiro. Foi só o começo. Se conseguem derrubar ditadores em outros países (Iêmen, Bahrein e Síria) também será apenas um passo de um longo processo. Quem argumenta que as revoluções mudaram muito pouco perdem de vista que a polarização continua dentro delas. No Egito, por exemplo, a organização e as lutas dos operários estão crescendo, colocando as demandas econômicas que surgiram a partir de 25 de janeiro ao lado de exigências democráticas. Na Tunísia, quando a maioria dos correspondentes internacionais já havia ido embora, houve novos protestos e mais um governo caiu.

Uma nova vitória importante de qualquer uma dessas revoluções poderia dar novas perspectivas à revolução na Líbia em vários sentidos.

Antes de tudo, voltaria a colocar a revolução e a luta social em primeiro plano, afastando do cenário da "democratização" as forças ocidentais.


Através de bombardeios, Gaddafi pode impor um controle mais duro que nunca, em nome da defesa da pátria. Se não há alternativa, muita gente aceitará. Um novo impulso à revolução poderia lembrar a quem rechaça a ditadura que as opções não se limitam a Gaddafi ou Ocidente.


Tampouco existem motivos para pensar que o leste da Líbia, que aparentemente continuará por enquanto nas mãos do Conselho Nacional de Transição, liderado por ex-colaboradores de Gaddafi, não possa experimentar debates e mudanças políticas. Enquanto a revolução avançava, havia conflitos entre o Conselho Nacional de Transição e os comitês de cidades e bairros nas zonas libertadas. Era difícil saber com exatidão o que acontecia, mas a impressão era que o Conselho Nacional de Transição era mais partidário da aliança com o Ocidente do que os comitês locais, tanto é que ativistas de base detiveram agentes das forças especiais britânicas que tentavam fazer uma operação secreta no leste da Líbia.
Talvez, debaixo de bombardeios de Gaddafi, até esses grupos locais se deixaram convencer pela proposta de intervenção estrangeira, mas com o tempo – vendo a atuação do Ocidente de um lado e das revoluções árabes de outro – as diferenças podem voltar a surgir neste e em outros temas

A melhor esperança para derrubar o regime de Gaddafi não são as bombas estrangeiras, mas sim um movimento que construa uma alternativa social e política capaz de atrair os trabalhadores e oficiais de baixa patente do exército de ambas as partes do país, atualmente dividido. Esta alternativa não virá do conselho de transição de ex-ministros de Gaddafi, menos ainda do próprio Gaddafi.

E nós?

Como diante dos ataques contra o Afeganistão em 2001 e o Iraque em 2003, temos que insistir em "não à guerra", não à intervenção ocidental. Mas a situação é mais difícil e complexa do que nunca.

Muitos que resistiram às tentações da intervenção humanitária naqueles casos cederam dessa vez. Iniciativa per Catalunya (partido político catalão que se reivindica ecossocialista) votou a favor de uma zona de exclusão aérea e até um intelectual marxista normalmente lúcido como Gilbert Achcar se deixou levar. Segundo ele: "de uma perspectiva anti-imperialista, não se pode e não se deve fazer oposição à zona de restrição aérea, dado que não há alternativa plausível de proteção à população em risco."

Não seria sensato nos centrarmos em denunciar as pessoas que tomam essa atitude como agentes do imperialismo. Mais produtivo será o debate paciente, junto a um acompanhamento cuidadoso dos acontecimentos. Inevitavelmente, cedo ou tarde, vão se dar conta do seu erro.

Um movimento contra a intervenção não tem por que excluir a esquerda pró-Gaddafi, mas seria um suicídio político permitir que sua visão, extremamente minoritária, fosse o discurso do movimento.

O principal desafio nas próximas semanas, talvez meses, sobre a Líbia será derrubar o mito da intervenção humanitária. Conseguimos derrubá-lo em relação ao Iraque. Foi enfraquecido no Afeganistão. Agora, tentam recuperá-lo na Líbia. Será necessário fazer um debate paciente para evitar que consigam.

Antes de mais nada, há que se romper é com a idéia de que a política se limita a escolher qual país ou qual liderança seguir. Antes era: Estados Unidos ou União Soviética? Agora é: Sarkozy ou Gaddafi? Obama ou Ahmadinejad? Zapatero ou Rajoy?

As revoluções na Tunísia, e acima de tudo, no Egito nos demonstram que a política de verdade consiste nas pessoas colaborando, lutando juntas para mudar suas vidas e, assim, mudar o mundo.

Em relação à intervenção na Líbia, mais do que discutir as disposições militares, devemos nos colocar uma questão muito mais simples: confiamos ou não em nossos governantes?

Se confiamos neles para solucionar os problemas internacionais, por que não confiamos neles também para resolver a crise? Se aceitamos os bombardeios na Líbia como uma tentativa séria de conseguir a paz e a democracia, por que não aceitar os presentes milionários aos bancos e os cortes sociais como uma tentativa de conseguir a justiça social?

Por outro lado, se sabemos que são uns mentirosos corruptos, incapazes de fazer algo de bom para o povo de seu próprio país, por que devemos pensar que vão fazer algo de bom para o povo líbio?

Não, devemos nos inspirar com toda a força no espírito da Praça Tahrir.

Não à intervenção! Sim às revoluções árabes!

FONTE: REVOLUTAS
SITE: http://www.revolutas.net
PUBLICAÇÃO: 27/03/2011

domingo, 12 de dezembro de 2010

Ao fim de 8 anos de governo, Frei Betto diz: "Obrigado, Lula"

Nunca antes na história deste país um metalúrgico havia ocupado a presidência da República. Quantos temores e terrores a cada vez que você se apresentava como candidato! Diziam que o PT, a ferro e fogo, implantaria o socialismo no Brasil.

Por Frei Betto*, em Adital

Quanta esperança refletida na euforia que contaminou a Esplanada dos Ministérios no dia de sua posse! Decorridos oito anos, eis que a aprovação de seu governo alcança o admirável índice de 84% que o consideram ótimo e bom. Apenas 3% o reprovam.

O Brasil mudou para melhor. Cerca de 20 milhões de pessoas, graças ao Bolsa Família e outros programas sociais, saíram da miséria, e 30 milhões ingressaram na classe média. Ainda temos outros 30 milhões sobrevivendo sob o espectro da fome e quem sabe o Fome Zero, com seu caráter emancipatório, a tivesse erradicado se o seu governo não o trocasse pelo Bolsa Família, de caráter compensatório, e que até hoje não encontrou a porta de saída para as famílias beneficiárias.

Você resgatou o papel do Estado como indutor do desenvolvimento e, através dos programas sociais e da Previdência, promoveu a distribuição de renda que aqueceu o mercado interno de consumo. O BNDES tornou as grandes empresas brasileiras competitivas no mercado internacional. Tomara que no governo Dilma seja possível destinar recursos também a empreendimentos de pequeno e médio porte e favorecer nossas pesquisas em ciência e tecnologia.

Enquanto os países metropolitanos, afetados pela crise financeira, enxugam a liquidez do mercado e travam o aumento de salários, você ampliou o acesso ao crédito (R$ 1 trilhão disponíveis), aumentou o salário mínimo acima da inflação, manteve sob controle os preços da cesta básica e desonerou eletrodomésticos e carros. Hoje, 72% dos domicílios brasileiros possuem geladeira, televisor, fogão, máquina de lavar, embora 52% ainda careçam de saneamento básico.

Seu governo multiplicou o emprego formal, sobretudo no Nordeste, cuja perfil social sofre substancial mudança para melhor. Hoje, numa população de 190 milhões, 105 milhões são trabalhadores, dos quais 59,6% possuem carteira assinada. É verdade que, a muitos, falta melhor qualificação profissional. Contudo, avançou-se: 43,1% completaram o ensino médio e 11,1% o ensino superior.

Na política externa o Brasil afirmou-se como soberano e independente, livrando-se da órbita usamericana, rechaçando a ALCA proposta pela Casa Branca, apoiando a UNASUL e empenhando-se na unidade latino-americana e caribenha. Graças à sua vontade política, nosso país mira com simpatia a ascensão de novos governantes democrático-populares na América Latina; condena o bloqueio dos EUA a Cuba e defende a autodeterminação deste país; investe em países da África; estreita relações com o mundo árabe; e denuncia a hipocrisia de se querer impedir o acesso do Irã ao urânio enriquecido, enquanto países vizinhos a ele, como Israel, dispõem de artefatos nucleares.

Seu governo, Lula, incutiu autoestima no povo brasileiro e, hoje, é admirado em todo o mundo. Poderia ter sido melhor se houvesse realizado reformas estruturais, como a agrária, a política e a tributária; determinado a abertura dos arquivos da ditadura em poder das Forças Armadas; duplicado o investimento em educação, saúde e cultura.

Nunca antes na história deste país um governo respaldou sua Polícia Federal para levar à cadeia dois governadores; prender políticos e empresários corruptos; combater com rigor o narcotráfico. Pena que o Plano Nacional dos Direitos Humanos 3 -quase um plágio dos 1 e 2 do governo FHC- tenha sido escanteado por preconceitos e covardia de ministros que o aprovaram previamente e não tiveram a honradez de defendê-lo quando escutaram protestos de vozes conservadoras.

Espero que o governo Dilma complemente o que faltou ao seu: a federalização dos crimes contra os direitos humanos; uma agenda mais agressiva em defesa da preservação ambiental, em especial da Amazônia; a melhoria do nosso sistema de saúde, tão deficiente que obriga 40 milhões de brasileiros a dependerem de planos de empresas privadas; a reforma das redes de ensino público municipais e estaduais.

Seu governo ousou criar, no ensino superior, o sistema de cotas; o ProUni e o ENEM; a ampliação do número de escolas técnicas; maior atenção às universidades federais. Mas é preciso que o governo Dilma cumpra o preceito constitucional de investir 8% do PIB em educação.

Obrigado, Lula, por jamais criminalizar movimentos sociais; preservar áreas indígenas como Raposa Serra do Sol; trazer Luz para Todos. Sim, sei que você não fez mais do que a obrigação. Para isso foi eleito. Mas considerando os demais governantes de nossa história republicana, tão reféns da elite e com nojo do "cheiro de povo", como um deles confessou, há que reconhecer os avanços e méritos de sua administração.

Deus permita que, o quanto antes, você consiga desencarnar-se da presidência e voltar a ser um cidadão militante em prol do Brasil e de um mundo melhor.


* Escritor e assessor de movimentos sociais

Fonte: http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=143550&id_secao=1

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

UPPs transformam favelas cariocas em campos de concentração

Opinião é da socióloga Vera Malaguti, que participou do seminário “Encarceramento em massa: símbolo do Estado penal”, realizado em São Paulo


Luciana Araujo

De São Paulo (SP)

Em meio à onda de legitimação das ações policiais nas comunidades cariocas da Vila Cruzeiro e do Complexo do Alemão, com o apoio espetacularmente armado do Exército e da Marinha, dezenas de entidades realizaram, entre 7 e 9 de dezembro, o seminário “Encarceramento em massa: símbolo do Estado penal”, no salão nobre da Faculdade de Direito da USP, no Largo de São Francisco, centro da capital paulista.

Na abertura do seminário, a socióloga Vera Malaguti, uma das palestrantes, afirmou que está em curso no Rio de Janeiro a transmutação do modelo da penalização exacerbada das camadas mais pauperizadas da população para um projeto de militarização da segurança pública. Vera afirma que essa realidade está levando à “transformação das periferias e das favelas em campos de concentração, como é o projeto das UPPs”.

Para Malaguti, a comparação se justifica pelo “controle absoluto e militarizado, com mortes em série,” imposto às comunidades. “É a ocupação militarizada dos territórios de pobreza”, afirma.

Nas favelas onde foram instaladas as chamadas Unidades de Polícia Pacificadora, a autoridade militar determina até mesmo o tipo de música que os moradores podem ouvir. O funk, um dos ritmos mais difundidos nas comunidades do Rio, está no rol das manifestações musicais proibidas. Também são controladas pelo comando das UPPs atividades como festas e churrascos e o horário de circulação dos moradores.

“Estamos vivendo, para que fluam os negócios olímpicos transnacionais, um verdadeiro massacre das favelas cariocas. Então você tem metáforas como as ‘cercas ecológicas’, ‘muros acústicos’. E todos aqueles ‘verdes’ da Natura aderindo. Quando os pobres ocupam o território, é como se eles poluíssem a natureza”, criticou Vera.

Para ela, que ocupa a secretaria geral do Instituto Carioca de Criminologia, “a classe trabalhadora brasileira está presa, dentro e fora das prisões”.

Vera Malaguti voltou a mencionar o regime totalitário ao afirmar que “nosso secretário de segurança [José Mariano Beltrame] diz que é um técnico, mas as SS nazistas também eram polícias técnicas altamente qualificadas”.

A grande mídia demanda mais violência

A socióloga também criticou duramente a cobertura da mídia às ações policiais e seus resultados. “A mídia é a grande produtora de uma demanda por mais prisões e mais penas”.

A omissão, pela quase totalidade dos veículos de comunicação, das mortes ocorridas durante a operação iniciada no dia 21 de novembro foi apontada como parte do processo de legitimação de uma ação eivada de ilegalidades por parte das polícias civil e militar do Rio de Janeiro com o apoio das forças armadas.

Há veículos que até hoje sustentam a versão de que não teria havido mortes de “civis”. No entanto, ao menos 51 pessoas foram assassinadas por disparos efetuados por agentes do Estado, de acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública. Entre eles uma adolescente atingida na cabeça dentro do quarto onde estudava, um agente de segurança morto diante das câmeras enquanto levava convites do aniversário do filho para vizinhos, um idoso e um dos suspeitos de envolvimento com o tráfico na Vila Cruzeiro fuzilado enquanto cruzava a estrada que liga aquela comunidade ao Complexo do Alemão, também sob a cobertura das principais redes de TV. Ressalte-se que a legislação brasileira não prevê a pena de morte e a Constituição Federal veda a prática da execução sumária.

Também participaram do debate a coordenadora do Núcleo de Questões Criminais e Penitenciárias da Defensoria Pública, Carmen Silvia Moraes de Barros, o ex-governador e secretário de Polícia do Estado do Rio de Janeiro, Nilo Batista, e o historiador Davison Nkosi.

O seminário foi uma iniciativa do Tribunal Popular: o Estado brasileiro no banco dos réus. O Tribunal Popular, como é conhecido, existe desde 2008 e é uma articulação de entidades e movimentos sociais que se propõe a discutir as violações aos direitos humanos promovidas pelos agentes do Estado e organizar ações de resistência e solidariedade às vítimas.

Fonte: http://www.brasildefato.com.br/node/5263

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Washington Araújo: mentira, deslealdade, cafajestagem no BBB 11

Mais algumas semanas e a TV Globo estará colocando no ar seu programa de maior audiência no verão brasileiro: Big Brother Brasil 11. Sucesso de público, sucesso de marketing, sucesso financeiro, sempre na casa dos milhões de reais. Fracasso ético, fracasso de cidadania, fracasso de respeito aos direitos humanos fundamentais.

Por Washington Araújo, no Observatório da Imprensa

A data já foi confirmada: 11 de janeiro, uma terça-feira. O prêmio será de R$ 1,5 milhão para o vencedor. O segundo e terceiro lugares levam, respectivamente, R$ 150 mil e R$ 50 mil. As inscrições para a próxima edição do BBB já estão encerradas. Ao todo, nas dez edições, foram 140 participantes. E já foram entregues mais de R$ 8,5 milhões em prêmios. Balanço raquítico, tanto numérico quanto financeiro para seus participantes, para um programa que se especializou em degradar a condição humana.

Aos 11 anos de existência, roubando sempre 25% do ano (janeiro a março) e agora entrando na puberdade como se humano fosse, o BBB começa anunciando que passará por mudanças na edição 2011. Se você pensou que as mudanças seriam para melhorar o que não tem como ser melhorado se enganou redondamente.

O formato será sempre o mesmo, consagrado pelo público e pelos anunciantes: invasão de privacidade com a venda de corpos quase sempre sarados, bronzeados e bem torneados e com a exposição de mentes vazias a abrigar ideias que trafegam entre a futilidade e a galeria de preconceitos contra negros, pobres, analfabetos funcionais.

Após dez anos seguidos, sabemos que a receita do reality show inclui em sua base de sustentação as antivirtudes da mentira, da deslealdade, dos conluios e... da cafajestagem. Aos poucos, todos irão se despir de sua condição humana tão logo um deles diga que "isto aqui é um jogo". Outros ensaiarão frases pretensamente fincadas na moral: "Mas nem tudo vou fazer para ganhar esse jogo."

Como miquinhos amestrados, os participantes estarão ali para serem desrespeitados, não poucas vezes humilhados e muitas vezes objeto de escárnio e lições filosóficas extraídas de diferentes placas de caminhões e compartilhadas quase diariamente pelo jornalista Pedro Bial, ao que parece, senhor absoluto do reality show.

Não faltarão "provas" grotescas, como colocar uma participante para botar ovo a cada trinta minutos; outra para latir ou miar a cada hora cheia; algum outro para passar 24 horas de sua vida fantasiado de bailarina ou para pular e coaxar como sapo sempre que for ativado determinado sinal acústico.

O domador, que terá como chicote sua lábia de ocasião ou nalgumas vezes sua língua afiada, continuará sendo Pedro Bial que, a meu ver, representa um claro sinal de como as engrenagens que movem a televisão guardam estreita semelhança com aqueles velhos moedores de carne.

O último a sair da jaula

É inegável que Bial é talentoso. É inegável que passou parte de sua vida tendo páginas de livros ao alcance das mãos e dos olhos. É inegável também que parece inconsciente dos prejuízos éticos e morais que haverá de carregar vida afora. Isto porque a cada nova edição do reality mais se plasmam os nomes BBB e Pedro Bial. E será difícil ao ouvir um não lembrar imediatamente o outro. Porque lançamos aqui nosso nome, que poderá ter vida fugaz de cigarra ou ecoará pela eternidade.

Imagino, daqui a uns 25 anos, em 2035, quando um descendente deste Pedro for reconhecido como bisneto daquele homem engraçado que fazia o Big Brother no Brasil. E os milhares de vídeos armazenados virtualmente no YouTube darão conta de ilustrar as gerações do porvir.

E, no entanto, essas quase duas dezenas de jovens estarão ali para ganhar fama instantânea, como se estivessem acondicionados naqueles pacotinhos de sopa da marca Miojo. Imagino cada um deles a envergar letreiro imaginário a nos dizer com a tristeza possível que "Coloco à venda meu corpo sem alma, meu coração quebrado e minha inteligência esgotada; vendo tudo isso muito barato porque vejo que há muita oferta no mercado".

E teremos aquele interminável desfile de senso comum. Afinal, serão 90 dias de vida desperdiçada, ou melhor, de vida em que a principal atividade humana será jogar conversa fora. O que dá no mesmo. E não será o senso comum exatamente aquele conjunto de preconceitos adquiridos antes de completarmos 15 anos de vida?

Friederich Nietzsche (1844-1900) parecia ter o dom da premonição. É que o filósofo alemão se antecipava muito quando se tratava de projetar ideias sobre a condição humana. É dele esta percepção: "O macaco é um animal demasiado simpático para que o homem descenda dele". Isto porque Nietzsche foi poupado de atrações quase sérias e semi-circenses, como o BBB.

No picadeiro, o macaco é aplaudido por sua imitação do humano: se equilibra e passeia de triciclo e de bicicleta, se veste de gente, com casaca e gravata, sabe usar vaso sanitário, descasca alimentos. No picadeiro do BBB, os seres humanos são aplaudidos por se mostrarem intolerantes uns com os outros, se vestem de papagaios, ladram, miam, coaxam, zumbem – e tudo como se animais fossem. Chegam a botar ovo em momento predeterminado. Se vestem de esponja e se encharcam de detergente a limpar pratos descomunais noite afora.

Em sua imitação de animal, o humano que se sobressai no BBB é aquele que consegue ficar engaiolado – digo, literalmente engaiolado – junto com outros bípedes não emplumados – por grande quantidade de horas. E sem poder satisfazer as necessidades humanas básicas, muitas vezes tendo que ficar em uma mesma posição, como seriemas destreinadas. E são os únicos animais que demonstram imensa felicidade em permanecer por mais tempo na gaiola. Não lhes jogam bananas nem pipocas, mas quem for o último a sair da jaula semi-humana ganha uma prenda. Pode ser um passeio de helicóptero, pode ser um carro, pode ser uma noite na Marquês de Sapucaí.

Heidegger reconheceria

O leitor atento deve ter percebido que em algum momento deste texto mencionei que o BBB 11 terá mudanças. Nem vou me dar ao trabalho de editar. Eis o que copiei do site G1:

"Boninho, diretor do BBB, falou em seu Twitter nesta quarta-feira, 24/11, sobre a nova edição do programa, a 11ª, que estreará em janeiro de 2011. E ele adianta que, desta vez, as coisas vão mudar. ‘Esse ano tudo vai ser diferente... Nada é proibido no BBB, pode fazer o que quiser’, postou Boninho em seu microblog. Questionado sobre o que estaria liberado no confinamento que não estava em edições anteriores, ele respondeu: ‘Esse ano... liberado! Vai valer tudo, até porrada’. Boninho também comentou sobre as bebidas no reality show: ‘Acabou o ice no BBB... Vai ser power... chega de bebida de criança’, escreveu."
Não terá chegado a hora de o portentoso império Globo de comunicação negociar com o governo italiano a cessão do Coliseu romano para parte das locações, ao menos aquelas em que murros e safanões, sob efeito de álcool ou não, certamente ocorrerão? E como nada compreendo de Heidegger, só me resta dizer que ao longo de toda sua vida madura Heidegger esteve obcecado pela possibilidade de haver um sentido básico do verbo "ser" que estaria por trás de sua variedade de usos. E são recorrentes suas concepções quanto ao que existe, o estudo do que é, do que existe: a questão do Ser (i.e. uma Ontologia) dependente dos filósofos antes de Sócrates, da filosofia de Platão e de Aristóteles e dos Gnósticos.

Quem sabe tivesse assistido uma única noite do BBB – caso o formato da Endemol estivesse em cena antes de 1976 –, o filósofo, por muitos cultuado, não apenas teria uma confirmação segura de que não valia mesmo a pena publicar o segundo volume de sua obra principal, O Ser e o Tempo, como também haveria de reconhecer a inexistência de algo anterior ao ser. Mas, com certeza, se fartaria com a miríade de usos dados ao verbo "ser".

Fonte:http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=142841&id_secao=6