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segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Coreia do Norte alerta sobre o risco de guerra

Governo norte-coreano condena exercícios militares programados pela Coreia do Sul e Estados Unidos


A Coreia do Norte advertiu nesta sexta-feira (26) que a península coreana encontra-se em risco de guerra graças às manobras aeronavais conjuntas da Coreia do Sul e dos Estados Unidos, anunciadas para este domingo (28).

No comunicado, o governo norte-coreano considerou que “os exercícios militares dos imperialistas estadunidenses e de sua marionete bélica sul-coreana são dirigidos contra a Coreia do Norte”.

“A situação na península coreana está à beira de uma guerra, devido ao projeto imprudente desses fanáticos do gatilho”, acrescenta o documento, divulgado pela estatal Agência Central de Notícias da Corea do Norte (KCNA, por sua sigla em inglês).

Na terça-feira (23) houve uma troca de disparos de artilharia entre ambas as Coreias na sensível zona fronteiriça do Mar Amarelo. O acontecimento serviu de desculpa para que o governo sul-coreano programasse novas manobras conjuntas com os Estados Unidos, sob o argumento de que foi a Coreia do Norte o país atacante.

No entanto, o governo norte-coreano emitiu um comunicado no qual assegurou que os disparos de artilharia contra a ilha de Yeonpyeong foram uma resposta imediata com medidas militares ao fogo disparado primeiramente pela Coreia do Sul.

“O inimigo sul-coreano, apesar de nossas reiteradas advertências, realizou provocações militares com disparos de artilharia contra nosso território marítimo ao lado da ilha de Yeonpyeong”, informaram as autoridades de Pyongyang na terça-feira.

Os Estados Unidos têm acompanhado a Coreia do Sul em vários exercícios militares nas disputadas águas do Mar Amarelo, sensível fronteira que compartilham as duas nações da península poreana.

A Coreia do Norte considera que tais manobras na fronteira com a Coreia do Sul representam uma ameaça contra si, pelo que tem advertido, da mesma maneira, uma possível resposta militar ante qualquer agressão.

Não é o primeiro incidente militar que envolve as duas Coreias. Em março deste ano houve o afundamento da corveta sul-coreana Cheonan, ação pela qual o governo da Coreia do Sul responsabiliza a sua vizinha do norte.

A Coreia do Norte, contudo, tem manifestado em diversos cenários internacionais que não tem responsabilidade alguma no naufrágio do navio de guerra sul-coreano, ao mesmo tempo em que tem qualificado as denúncias contra si como elementos de uma manobra que busca gerar uma imagem má do país ante a opinião pública mundial.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Haiti: cólera, furacão e lucro

O Haiti é hoje a nação mais pobre do continente americano



Thalles Gomes,

de Maceió (AL)

"Precisamos absolutamente deste dinheiro o mais rápido possível para evitar que sejamos superados por esta epidemia. Todos os esforços de combate à doença podem se tornar inúteis a menos que a verba seja angariada”. Este apelo categórico foi pronunciado na última sexta-feira, 12 de novembro, por Elisabeth Byrs, porta-voz do Escritório para a Coordenação de Assuntos Humanitários da Organização das Nações Unidas [ONU]. A quantia a que se refere Byrs é o montante de R$ 163,9 milhões de dólares que, segundo a ONU, seria necessária para controlar a epidemia de cólera que se propaga no Haiti desde meados de outubro e que matou até momento mais de 900 pessoas, além de infectar outras 14 mil.

As palavras de Byrs se somam a recente declaração do Departamento de Saúde da Flórida, estado estadunidense que possui mais de 240 mil migrantes de origem haitiana. A preocupação das autoridades sanitárias é com a possibilidade da epidemia se alastrar para outros países vizinhos, inclusive os EUA. Segundo a página oficial na internet do Departamento “a cólera não se espalha tão facilmente em países desenvolvidos como os EUA, mas queremos assegurar que não deixaremos situações de alto risco passarem despercebidas, como o cólera em alguém que manipule alimentos, ou focos isolados".

Controlar a epidemia e evitar a propagação da doença para fora das fronteiras haitianas é a preocupação atual da ONU e das ONGs estrangeiras presentes na ilha. De fato, essa parece ser a tônica da atuação da comunidade internacional no país: combater as conseqüências das tragédias e fechar os olhos para suas causas.

Cólera

Cólera é uma infecção intestinal aguda causada por uma bactéria chamada Vibrio Cholerae que se transmite pela ingestão de água ou alimentos contaminados principalmente por fezes de pessoas infectadas. Apesar de alcançar proporções epidêmicas em regiões empobrecidas da África e Ásia, até o início de outubro passado nenhum caso de cólera havia sido registrado em território haitiano, segundo informações de Claire-Lise Chaignat, chefe do grupo de controle global da cólera da Organização Mundial de Saúde.

Não há ainda um consenso a respeito da origem da epidemia, que se tornou evidente a partir do dia 20 de outubro quando dezenas de pacientes começaram a morrer com febre alta e diarréia num hospital da cidade de Saint Marc, departamento de Lartibonite. A principal suspeita dos especialistas é de que a enfermidade tenha vindo do estrangeiro e se difundido pelo país através da contaminação do Rio Lartibonite.

A MINUSTAH [Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti] destacou em comunicado oficial “a dificuldade, inclusive a impossibilidade” de saber como a cólera chegou ao país, visto que foi comprovado que o microorganismo que causou a epidemia é igual ao encontrado na Ásia meridional. No entanto, entre a população haitiana as suspeitas recaem justamente sobre os soldados da própria MINUSTAH, especificamente um batalhão oriundo do Nepal, país asiático onde a cólera é endêmica. Localizado no município de Mirebalais, a poucos quilômetros de Saint Marc e às margens do Rio Lartibonite, o atual contingente de soldados nepaleses chegou ao Haiti nos primeiros dias de outubro, depois de um novo surto de cólera ter atingido seu país de origem.

Edmonde Suplice Beauzile, senadora do departamento haitiano de Plateau Central, solicitou uma investigação sobre a responsabilidade da MINUSTAH na propagação da epidemia. Para Beauzile, os soldados nepaleses “contaminaram o rio, causando a morte de muitas pessoas. Pedimos à MINUSTAH que solicite a um organismo independente a abertura de uma investigação".

Confirmada essa hipótese, a MINUSTAH verá sua função de estabilização do Haiti novamente comprometida, justamente quando seu mandato foi renovado por mais um ano durante a última reunião do Conselho de Segurança da ONU ocorrida em 15 de outubro. Ocupando o território haitiano desde 2004, quando foi criada sob o pretexto de que o Haiti representava “uma ameaça à paz e segurança da região”, sendo necessário portanto o envio de uma força militar de ocupação para conter as mobilizações populares depois da derrubada violenta do então presidente Jean Bertrand Aristide, a MINUSTAH passa hoje por uma de suas maiores crises de legitimidade. Durante os últimos seis anos, foram recorrentes as denúncias de tortura, estupro e assassinato. Além disso, passados dez meses desde o terremoto que abalou o país em 12 de Janeiro de 2010, as tropas da ONU ainda não foram capazes de dar uma resposta eficaz às vitimas do terremoto. Ruínas e acampamentos improvisados tomam as ruas da capital Porto Príncipe, mas não se vê nenhuma movimentação por parte das tropas militares para a retirada dos escombros e início da reconstrução de prédios e edifícios. E por fim, a cólera.

Furacão

Com a aceleração da epidemia nos últimos dias, a previsão é de que “um total de até 200 mil pessoas deverão ter os sintomas da cólera, indo dos casos de leve diarréia até a desidratação mais grave", informou a porta-voz da ONU, Elizabeth Byrs, que completa: “Espera-se que os casos surjam numa explosão de epidemias que ocorrerão subitamente em diferentes partes do país”.

Na cidade de Gonaives foram registradas ao menos 60 mortes por cólera e na capital Porto Príncipe, onde mais de um milhão de desabrigados do terremoto vive em acampamentos sem as condições mínimas de saneamento, 27 óbitos foram causados pela epidemia. "Porto Príncipe é uma imensa favela onde as condições são muito ruins em relação às instalações sanitárias e de água. São as condições perfeitas para uma propagação rápida da cólera", afirmou Jon K. Andrus, subdiretor da Organização Pan-Americana de Saúde (OPS).

Para agravar ainda mais a situação, no dia 05 de novembro o Furacão Tomas alcançou o território haitiano, afetando principalmente as regiões noroeste e sul do país, deixando ao menos 21 mortos e cerca de 6.000 famílias desabrigadas.

As chuvas e inundações causaram deslizamento de terra, bloqueando diversas estradas e inundando o rio Lartibonite, suspeito de ser o principal foco da epidemia de cólera. Os relatos são de que os estragos nas áreas agrícolas foram enormes gerando perdas que podem chegar a 70% dos cultivos como banana, milho e feijão que formam a base da alimentação local. De acordo com o historiador José Luis Patrola, que coordena a Brigada Dessalines de cooperação entre a Via Campesina Brasil e as organizações camponesas do Haiti, “os problemas causados pelo furacão terão maior efeito nos próximos dois meses onde a falta de comida atingirá outra vez os camponeses pobres dessas duas regiões consideradas as mais isoladas e abandonadas do país”.

Este não é o primeiro furacão a assolar o território haitiano. Entre os meses de setembro e outubro de 2008, a passagem do furacão Gustav e da tempestade tropical Hanna deixou mais de 500 mortos e milhares de desabrigados. Patrola ressalta que “cada ciclone ou furacão que costuma atingir a região do Caribe nessa temporada tem maior impacto sobre o Haiti que vive um grave problema de desmatamento acompanhado de técnicas agrícolas predatórias ao meio ambiente que levarão a um caos generalizado caso o problema não se resolva de maneira sólida e estrutural”. O desmatamento no Haiti já destruiu mais de 95% das matas originais e a principal fonte de energia do país – utilizada por mais de dois terços da população – ainda é o carvão vegetal.

Lucro

“Foi preciso mais uma catástrofe para evidenciar o problema e fazer com que o Estado e a ‘comunidade internacional’ abrissem os olhos para tamanha vulnerabilidade da população pobre. Esta epidemia deveria envergonhar aqueles que ‘ajudam’ o Haiti há muitos anos e mesmo assim mais de 90% dos camponeses consomem água suja”, denuncia José Luis Patrola.

De fato, a atual epidemia de cólera, os estragos do furacão Tomas e as milhares de mortes causadas pelo terremoto de 12 de Janeiro são conseqüências dos graves problemas estruturais que levam a maioria da população haitiana a uma vulnerabilidade permanente. O Haiti é hoje a nação mais pobre do continente americano, com 56% da população abaixo da linha da pobreza e com uma expectativa de vida de 58,1 anos. No Haiti, a miséria já existia antes de qualquer terremoto, furacão ou cólera.

Ao não lidar com os problemas estruturais, atuando para amenizar as conseqüências das tragédias ao invés de buscar combater suas causas, o Estado haitiano e a comunidade internacional transformam as catástrofes naturais e a miséria no Haiti numa fonte inesgotável de lucros. Aos 163,9 milhões de dólares demandados pela ONU para combater a atual epidemia de cólera, podemos somar os 126 milhões que a ONG estadunidense USAID está investindo no campo haitiano, os 9,9 bilhões de dólares para a reconstrução do país pós-terremoto prometidos por Bill Clinton e seus doadores, os 3,6 bilhões consumidos para manter as tropas da MINUSTAH no país e os 7,5 milhões de dólares gastos mensalmente somente com o aluguel dos banheiros químicos para os desabrigados em Porto Príncipe.

É essa atitude que explica a situação paradoxal de ser o Haiti o país mais pobre das Américas mesmo sendo o maior destinatário da ajuda internacional no mundo. 60% do PIB haitiano é oriundo de verbas estrangeiras que, assim como os furacões e ciclones, apenas passam pelo território haitiano, mantendo a infra-estrutura e os altos salários dos funcionários da ONU e das milhares de ONGs, sem chegar às mãos da população e sem alterar as condições sócio-econômicas do país.

“O Estado haitiano e a comunidade internacional deverão pensar o Haiti sob outra ótica que não a das permanentes tragédias que aqui ocorrem”, aponta José Luis Patrola, para concluir que: “Ou pensamos a ajuda ao Haiti desde um ponto de vista de resolver problemas estruturais ou viveremos grandes espetáculos midiáticos acompanhados de grande propaganda sobre doações para ajudas emergenciais. Dois ou três anos em seguida as catástrofes retornarão e veremos o mesmo espetáculo da tragédia se repetindo”.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Todos os quadros de inteligência trabalhavam para a CIA”

27/10/2010

Blanche Petrich

de Quito (Equador)

La Jornada

O presidente Rafael Correa chega com um pouco de atraso a seu escritório no Palácio de Carondelet, onde havia marcado com o La Jornada, porque tinha ido visitar, no hospital infantil, um menino de 11 anos que, no dia 30 de setembro, entre o caos e a violência desatada, recebeu um disparo de bala expansiva na perna. O menino sofreu duas paradas cardíacas, mas, finalmente, quase um mês depois dos acontecimentos, se restabelece satisfatoriamente.

Durante a entrevista, Correa se expressa, algumas vezes, com uma franqueza pouco comum em chefes de Estado: “estamos cegos, zerados, em matéria de inteligência para a segurança interna”. Mostra-se indignado com os setores que participaram na conspiração, incluídas as organizações indígenas que, diz ele, agora fazem política em aliança com a oposição de direita. E cauteloso antes de avalizar a lealdade das Forças Armadas a seu governo: “se portaram profissionalmente. Não todos, mas em geral. Lá também há infiltração”. Leia, a seguir, a entrevista:

Depois do golpe contra Manuel Zelaya, em Honduras, o senhor declarou: “eu sou o próximo”. Quais sinais o senhor via na ocasião?

Rafael Correa – Desde o primeiro dia de meu governo, vivemos uma conspiração permanente, como todos os governos da mudança na América Latina. Que casualidade que fomos nós – Venezuela, em 2002; Bolívia, em 2008; Honduras, em 2009: e Equador, em 2010 – que sofremos tentativas de golpe. A possibilidade de que isso seja casualidade é nula. Por quê? Porque estamos mudando as coisas.

Surpreende a forma com que o senhor reconhece que as estruturas de inteligência foram penetradas pela CIA.

É que isso é verdade. Quando cheguei ao governo, sinceramente, por minha origem acadêmica, esse tema não era sequer prioridade. Foi meu grande erro. O que me devolveu à realidade? O dia 1° de março de 2008, quando tivemos evidências de que as instâncias de segurança do Estado equatoriano tomaram conhecimento, com antecipação, do ataque colombiano a Angostura e não nos informaram. Avisaram a Embaixada dos Estados Unidos. Então, nos demos conta de que essas unidades recebiam recursos dos EUA. Formou-se uma comissão, que passou a investigar, e, entre suas recomendações, está o desmantelamento dessas instâncias. Temos evidências de que seu chefe, o coronel Mario Pazmiño, era funcionário da CIA. Quando o despedi e decidimos que nós que iríamos nomear a diretoria da unidade, a Embaixada dos EUA decidiu levar embora os equipamentos que havia doado. Mas os diretores não lhes deram apenas os equipamentos, suas caminhonetes, seus computadores, mas, também, a informação dos computadores! Veja que servilismo dessa gente.

Qual o tamanho do estrago que foi feito na segurança interna?

Ficamos zerados. Todos os quadros de inteligência trabalhavam para a CIA. Tivemos que buscar quadros alternativos, algo que não se forma da noite para o dia. Em 2009, conseguimos aprovar a lei do sistema nacional de inteligência.

Essa debilidade foi o que se manifestou no dia 30 de setembro?

Claro. Houve traição de certos setores de inteligência da polícia.

E das Forças Armadas?

Também. O Partido Sociedad Patriótica esteve envolvido. Sua origem é militar. Há núcleos duros que, segundo consta no informe da Comissão da Verdade, atentaram contra os direitos humanos e se sentem identificados com esses partidos.

Você confia na lealdade das Forças Armadas?

Bem, eles se portaram profissionalmente. Não todos. Em geral, eles têm uma gratidão por este governo, já que duplicamos seus salários, os equipamos. Quando chegamos, os encontramos em um estado de impotência. Apenas 7 mil policiais, de 42 mil, tinham armas. Os dotamos de patrulhas, munições, equipamentos de telecomunicações. O mesmo aconteceu na Força Aérea. No princípio, não tínhamos praticamente nada, nem helicópteros. Agora, já temos 14 Super Tucanos. Mas há grupos duros, com vinculação política, que não se interessam nem pela Força Aérea nem pela democracia, e sim por manter seus privilégios e condutas repressivas.

Quais os mecanismos que a cidadania possui para se defender de conspirações desse tipo?

Nisso, Hugo Chávez e Evo Morales levam vantagem sobre nós. Chávez tem uma formação militar, conhece disso e transformou o imenso capital político que tem em estruturas organizadas. Evo vem dos movimentos sociais, de uma longa luta, e tem o apoio de todas essas bases. No Equador, o projeto da Alianza País [partido governista] é uma reação da cidadania diante de tanto desastre e saques. E, sinceramente, não sou especialista em questões militares o policiais. O desafio da revolução cidadã é transformar o apoio popular que temos em estruturas mobilizadas como a melhor maneira de dissuadir essas tentativas.

O senhor vem da academia, mas da mão de um movimento popular. O Equador, nos anos 1990, foi pioneiro na participação do movimento indígena. Essa já não é a base de seu governo?

Temos o apoio de muitos movimentos sociais, mas, cuidado: tem-se usado muito o nome de movimento social. Agora, qualquer coisa é movimento social, quando muitos de seus dirigentes são, na verdade, políticos fracassados que perderam as eleições e fazem política a partir de suas estruturas, para impor sua agenda. Há um movimento social e indígena que está com o status quo, com a direita. Deve-se separar o joio do trigo. A senhora tem razão quando diz que o despertar do movimento indígena do Equador nos anos 1990 foi o movimento social mais importante da América Latina. E nós estamos com eles. Mas essa pureza inicial tem sido muito distorcida. Esse movimento fez um partido político, o Pachakutik. Sua diretoria está tomada por certos líderes que votam com a direita, e no dia 30 de setembro pediam a renúncia do presidente. É uma pena enorme. A Conaie e o Pachakutik perderam totalmente o norte.

O primeiro pronunciamento do Conaie foi de rechaço ao golpe.

Depois se retrataram. Os assembleístas do Pachakutik estiveram e estão com os golpistas. Há alguns dias, Lourdes Tibán [uma das assembleístas do movimento] usou expressões muito grosseiras. Disse que se o presidente tivesse morrido, não seria por ser corajoso, e sim por ser imbecil. Seu irmão, por acaso, é policial, e está preso.

O senhor descarta um reencontro com esses setores?

Não. Estou aberto a isso. Mas, atenção: movimento indígena como processo histórico de emancipação, nisso estamos totalmente de acordo. Nosso governo é dos indígenas. Nas eleições passadas, nossa maior votação foi na província de Embaburo, que tem a maior população indígena do país. Com os dirigentes da Conaie, com sua miopia, com as barbaridades que disseram – me chamaram de genocida, xenófobo, etnocida –, com eles, vai ser muito difícil.

O senhor fala da penetração da CIA, mas não do governo estadunidense. Qual foi seu papel nesse episódio?

Como governo, eu acredito que os EUA, dessa vez, não intervieram. Não excluímos a participação de certos setores que atuam, inclusive, contra o presidente Barack Obama. Não tenho nenhuma prova, mas não excluo a possibilidade de que tenham intervindo de algum modo. Quem eu excluo, pela confiança que tenho neles, é Hillary Clinton e o presidente Obama.

Então sua relação com Obama é de confiança?

Ele me ligou duas vezes depois do dia 30 de setembro. Muito cortês, preocupado pelo que se dizia em certas publicações. Assegurou-me que não teve nada a ver. Respondi-lhe que ele não tinha que me dar explicações. É uma boa pessoa, mas não conseguiu mudar a inércia de grande parte do aparato político dos EUA.

A versão de que no dia 30 de setembro não houve uma tentativa de golpe encontrou muito eco. O que se pretende com a negação das evidências?

A ignorância da direita e de certos meios de comunicação é tal que nem sequer conhecem que uma das categorias básicas de sociologia política latino-americano diz que qualquer levante de força pública já é considerado um golpe de Estado. O que houve foi uma agenda política posta em marcha desde o momento em que eu cheguei ao Regimento Quito e cercaram a caravana presidencial. Lá estava o lugar-tenente do coronel Lucio Gutiérrez [ex-presidente golpista e derrocado ao mesmo tempo, fundador do partido opositor Sociedad Patriótica], Fidel Araujo, com colete à prova de balas, dirigindo a operação [Araujo foi detido sem direito a fiança no dia 5 de outubro]. Em suas declarações, ele disse que estava lá porque havia ido visitar sua mamãezinha, que estava perto.

Por que essa estratégia?

Porque tentam nos desacreditar. Negam a tentativa de assassinato, que estive sequestrado. Aí estão as provas, os mortos, os registros das telecomunicações das rádio-patrulhas com a ordem “matem o Correa”. Em um protesto policial por melhorias salariais, você tenta tomar as antenas de televisão, a televisão oficial, você fecha o aeroporto? Acho que, com essas mentiras, estão caindo no ridículo. Enfim.

Esses dias, a propósito do plano B, o do magnicídio, há quem tenha lembrado o livro La hoguera bárbara, sobre o brutal assassinato, há um século, de Eloy Alfaro.

Não vou me comparar a Eloy Alfaro, o único que fez uma verdadeira revolução neste país e que, para nós, é uma inspiração. Mas isso que aconteceu no dia 30 de setembro teve, sim, muito de bárbaro. Vim de uma visita a um menino que, a três quarteirões daqui, foi ferido nesse dia. Esses desalmados deram 17 tiros numa ambulância, feriram o motorista e o assistente, e, nisso, uma bala atravessou a perna do menor.

O que passou pela sua cabeça? Achou realmente que poderia morrer?

Sim, claro. Não em um, mas em vários momentos. Agora, sei que, quando me levavam ao hospital, entre os gases e os sublevados que me batiam, o diretor do Hospital da Polícia [César Carrión] mandou pôr cadeados para que não pudéssemos entrar. Minha equipe de segurança teve que rastrear a área, foi por outro lado, tirou os cadeados e abriram as portas. Depois, o diretor declarou à CNN que eu não estive sequestrado, mas que havia sido perfeitamente atendido. A verdade é que quando nos levaram para a sala de emergência, não nos deixaram sair. Tivemos que nos refugiar no terceiro andar, com a pouca segurança que havia naquele momento, e fechar a porta. Quiseram-na derrubar. Estivemos o tempo todo encurralados, até que chegou uma unidade de elite para nos dar resguardo. Houve três ou quatro momentos em que senti a morte muito próxima. Um deles foi quando esses selvagens batiam na porta do terceiro andar, para nos buscar. Não vinham dar um oi, não é? E, depois... [Correa se detém por alguns segundos, dá um grande suspiro. É notório que está revivendo momentos de grande intensidade. Repõe-se instantaneamente e continua] Depois veio meu segurança e diz que havia interceptado comunicações com a ordem de me matar, que já estavam vindo, que franco-atiradores estavam subindo. Ouvia-se o tiroteio. A única coisa que fiz foi rezar um pai-nosso e deitar no chão do cômodo onde estava. Outro momento foi durante o resgate. Balas por todos os lados. Chegaram a resgatar-me em uma cadeira de rodas... tenho 25 pontos no joelho da última operação. Não se podia sair pela porta principal. Tiveram que me esconder por uns dez minutos em um quartinho de limpeza, escuro. Deram a ordem de sair por trás, e lá também atiraram em nós. Sentíamos a morte muito próxima, mas houve muita serenidade.

Desculpe a pergunta, mas, o que sentiu?

Mais que medo, uma indignação enorme com a traição. E tristeza. Se eu morresse, deixaria este processo na metade, deixaria minha família, meus filhos. Houve cinco mortes e dezenas de feridos do meu lado. É um verdadeiro milagre que eu esteja vivo, porque... como atiraram em nós!

Politicamente, como o senhor se sente agora? Quais são as perspectivas de seu projeto?

Dizem que no dia 30 de setembro houve uma vitória, porque aumentou nosso índice de popularidade. Mas eu me sinto um perdedor. Renunciaria a esses pontos de popularidade se pudesse fazer voltar à vida esses jovens que morreram nesse dia infeliz. Um dos homens de minha escolta está em um hospital nos EUA. Deus queira que não fique paraplégico. Todos perdemos.

É hora de mudar, de frear a revolução, ou, pelo contrário, de radicalizar algumas medidas?

Claro que radicalizar. Mudar o que, por que, se temos mais apoio do que nunca? Não podemos claudicar diante de balas assassinas. Seria trair os que morreram nesse dia, essa cidadania heroica que saiu desarmada a defender a democracia. Reconciliar com criminosos é impossível, isso seria permitir a impunidade. Vamos continuar. Mais ainda: radicalizaremos a revolução.

Tradução: Igor Ojeda

Em entrevista, o presidente Rafael Correa conta, em detalhes, como foi a tentativa de golpe levada a cabo em 30 de setembro

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Para o histórico militante da Teologia da Libertação, na América Latina, longe de alienar, a religião é a chave para a transformação social

Religião: chave para dialogar com o povo

Joana Moncau,

Desinformémonos

“Jamais haverá participação popular nos processos políticos latino-americanos sem incorporar a religiosidade do povo”, é o que afirma sem titubear o frei dominicano, jornalista e escritor, Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto.

Uma das principais referências da teologia da libertação no Brasil e com larga trajetória de lutador social, ocupa lugar privilegiado para versar sobre o tema. Não por acaso, seu livro “Fidel e a Religião” (1986) teve importante papel, segundo próprio bispo cubano, para "tirar o medo dos cristãos e o preconceito dos comunistas". Indubitavelmente, a reconciliação entre a Igreja Católica e o governo revolucionário cubano deve algo a Frei Betto.

No Brasil, militante dominicano desde sua juventude na época da ditadura (1964-1985), contribuiu para a realização de acontecimentos históricos. Entre eles a fundação do Partido dos Trabalhadores, o PT, governo do qual chegou a formar parte em seu início com a eleição de Lula a presidência da república, em 2002.

Política, religião e comunicação. Na entrevista que segue Frei Betto, recorre a esses três pilares para nos deixar sua impressão sobre o atual momento político por que passa a América Latina.

Como frei dominicano e militante junto às bases populares na época da ditadura brasileira, como avalia a importância da Igreja Católica para as lutas sociais na América Latina, especialmente no combate às ditaduras que assolaram a região durante a década de 60? De lá para cá, mudou o perfil da atuação social da Igreja?

Frei Betto: Nos anos 1960 e 1980 a Igreja Católica, renovada pelo Concílio Vaticano II e pela conferência episcopal latino-americana em Medellín (1968), teve papel preponderante nas lutas sociais na América Latina. Através das Comunidades Eclesiais de Base e do advento da Teologia da Libertação, decorrentes da "opção pelos pobres", muitos militantes foram formados pela Igreja segundo o método Paulo Freire. Em países sob ditadura, como Brasil e Nicarágua, essa formação resultou em opção revolucionária. Diria que, de certo modo, as eleições recentes de Lula, Correa, Evo, Funes e outros têm a ver com esse processo pastoral.

Com o pontificado de João Paulo II e a queda do Muro de Berlim, iniciou-se a "vaticanização" da Igreja latino-americana. A Teologia da Libertação foi censurada; os bispos progressistas afastados; padres conservadores nomeados bispos etc. Hoje a Igreja Católica, embora abrigando grupos progressistas comprometidos com as causas populares, reflui na opção pelos pobres e busca situar-se numa suposta neutralidade frente aos conflitos sociais.

Qual a ponte entre o cristianismo e a luta armada?

Hoje, na América Latina, a luta armada só interessa a dois setores: fabricantes de armas e extrema direita. Governos como Lula, Chavez, Mujica etc demonstram ser possível realizar reformas estruturais pelas vias pacífica e democrática. Porém, a questão da relação cristianismo e luta armada está, em tese, equacionada desde o século XIII por meu confrade Tomás de Aquino. Em caso de opressão prolongada e sem outro recurso para se evitar um mal maior fora da resistência armada, então esta é justa e legítima. Nos anos 1960 e 80 isso se aplicava a países da América Latina sob ditaduras, o que explica os testemunhos de Frei Tito de Alencar Lima, Camilo Torres e tantos outros cristãos que participaram da luta armada. Esse mesmo princípio tomista levou João Paulo II a comemorar os 50 anos da vitória da resistência europeia contra o nazifascismo. E, como sabemos, a resistência atuou com armas.

As lutas sociais latino-americanas incorporaram símbolos e princípios do catolicismo (como a Nossa Senhora de Guadalupe no México, as místicas do MST, etc). É possível falar em alguma luta que seja genuinamente popular na América latina e que desconsidere a força do catolicismo e da religião?

Que eu saiba não há nenhuma força política progressista na América Latina que apregoe o ateísmo e seja antirreligiosa. Desde que Fidel acentou, na entrevista que lhe fiz em 1985 (livro "Fidel e a Religião") a importância da religião como fator de libertação, o preconceito praticamente terminou. Jamais haverá participação popular nos processos políticos latino-americanos sem incorporar a religiosidade do povo. Aqui a porta da razão é o coração e a chave do coração é a religião.

Considerando essas questões, como interpretar o caso da revolução cubana? Como avalia a situação por que passa o país hoje?

A Revolução cubana incorporou os valores religiosos do povo, tanto que teve líderes assumidamente cristãos, como Frank Pais e José Antonio Echeverría, bem como capelão, o padre Guillermo Sardiñas, que após a vitória mereceu o título de Comandante da Revolução.

Hoje Cuba passa por um período de excelente relações entre Igreja e Estado, a ponto deste permitir quea Igreja Católica faça a mediação que possibilita a libertação de presos de consciência.

Que papel os movimentos sociais desempenham hoje na política latinoamericana? No Brasil, pode-se dizer que foram a maior herança de resistência e organizaçao da época da ditadura?

Sem os movimentos sociais a América Latina não estaria vivendo essa primavera democrática representada por Lula, Chávez, Funes, Mujica, Evo, Correa, Lugo etc. No entanto, ocorre hoje um refluxo dos movimentos sociais, muitas vezes porque suas lideranças foram cooptadas para aqueles governos. A queda do Muro de Berlim, a influência do neoliberalismo e das novas tecnologias, o advento da pós-modernidade, são alguns dos fatores que explicam a desmobilização dos movimentos sociais, embora alguns permaneçam ativos, como o movimento indígena e, no caso do Brasil, o MST. O movimento indígena, graças à eleição de Evo Morales, o primeiro indígena presidente, ganha autoestima e, devido ao tema ambiental estar em pauta, também relevância, sobretudo na proposta do BEM VIVER, nos ensinando que devemos aprender a considerar o necessário como suficiente.

Quanto aos governos com origem na esquerda partidária e nos movimentos sociais que vêm se consolidando no cenário latinoamericano, é possível classificá-los como governos de esquerda?

Não, são governos progressistas e, alguns, como é o caso da Venezuela, até explicitam o socialismo como projeto político. Mas também estão longe de serem governos de direita ou conservadores. Dentro de possibilidades reais, e não ideais, atuam em favor dos mais pobres e sobretudo desarticulam o poder político das oligarquias tradicionais, embora elas prossigam com muito poder econômico.

Tendo acompanhado o partido e colaborado com o PT desde sua fundação, como o senhor avalia os 8 anos de governo Lula em relação à proposta inicial do partido? Como o senhor define sua relação atualmente com o PT e com Lula?

Lula fez o melhor governo de toda a história republicana do Brasil. Permitiu que 19 milhões de pessoas saíssem da miséria. Estabilizou a economia. Mas não fez nenhum reforma estrutural e nem qualificou a saúde e a educação. Escrevi dois livros de avaliação do governo Lula: A MOSCA AZUL e CALENDÁRIO DO PODER (editora Rocco). Apesar das limitações, penso que é importante dar continuidade do governo do PT.

Como jornalista e escritor, qual o papel da comunicação para a transformação social? A comunicação ainda é o Quarto Poder? Como enfrentar esse poder?

A comunicação não é mais o quarto poder, é o primeiro. Vide o papel do marketing eleitoral nas campanhas políticas. Ocorre que os grandes veículos de comnicação se encontram em mãos da elite conservadora. Um dos desafios a serem enfrentados pelos setores progressistas é o de encontrar alternativas à comunicação controlada pelos monopólios poderosos.

Esteve preso por 4 anos. Como essa experiência interferiu na sua vontade de lutar contra a ditadura e as injustiças sociais?

Ao contrário, foi a minha militância por justiça social e contra a ditadura que me levou à prisâo. Esta apenas reforçou minha decisão de estar sempre ao lado dos oprimidos, ainda que aparentemente eles não tenham razão.

O senhor já escreveu mais de 50 livros, em quantas linguas já foi traduzido? Qual dos seus livros recomenda para nossos leitores que queiram conhecer melhor o Frei Betto?

Minhas obras já foram traduzidas em 32 idiomas e 23 paises. Para o leitor latino-americano sugiro obras em espanhol editadas em Cuba: FIDEL Y LA RELIGION; LA OBRA DEL ARTISTA - una vision holística del Universo; UN HOMBRE LLAMADO JESÚS (novela). E deve sair em breve LA MOSCA AZUL.

sábado, 4 de setembro de 2010

Ao se falar no Irã, a pedra tem dois lados

por Admin última modificação 02/09/2010 15:14

O ocidente, sob a batuta estadunidense, mostra “indignação seletiva”, segundo sociólogo

Eduardo Sales de Lima

da Redação


Leia mais

O Irã observado sob o chador



O caso da iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani, condenada a morte por adultério e por supostamente ter conspirado pelo assassinato de seu marido, tem se transformado em mais um instrumento de “demonização” do Estado iraniano por parte da mídia ocidental. As medievais execuções por apedrejamento no Irã ladrilham o caminho dos interesses estadunidenses de convencer a comunidade internacional da necessidade e da legitimidade de um ataque bélico ao país persa.


A ser observada sob dois ângulos, o mais evidente choca os olhos de quem vê. Desde a Revolução Iraniana, 109 pessoas morreram apedrejadas, segundo o Comitê Internacional contra Apedrejamento; por vezes as execuções ocorrem em segredo.


Adotada como sistema jurídico de Estado no Irã e na Arábia Saudita, a Sharia é a legislação derivada do corão, o livro sagrado dos muçulmanos, e da sunna (também conhecido como hadith), uma coleção sobre os feitos e passagens da vida do profeta Maomé (570-632). A partir da interpretação da Sharia moldada segundo a Escola Jafari, Sakineh foi condenada à morte por apedrejamento, que é a pena atribuída a aqueles que cometeram assassinato, adultério ou blasfêmia. Depois de muita pressão internacional, a condenação transformou-se em enforcamento, sem data prevista para a execução.


De acordo com a jornalista e autora do livro O Irã sob o Chador, Márcia Camargos, práticas de apedrejamento são comuns em países de tradições tribais nas áreas rurais mais miseráveis de países como a Somália, o Sudão, independentemente do aparato estatal. “No Irã hoje, um país que quer ser moderno, isso se torna um assassinato”, conclui. Ela reforça que não se pode confundir o Islã, nem a Sharia, com as práticas autoritárias derivadas de uma interpretação particular, “de cunho político, de controle social e repressão por imposição do medo e do terror”.


Yasmin Anukit, pesquisadora em história das civilizações, dentre outras coisas, defende que não existe a pena de apedrejamento no Alcorão. A questão, segundo ela, é que, “como a Sharia é passível de várias interpretações, alguns governos resolveram reinstituir esta antiga prática judaica, o que é um claro retrocesso e absurdo no contexto do Islã”, pontua.


“Certos crimes cometidos no Afeganistão contra as mulheres são compreendidos por

estrangeiros e pela mídia como 'aspectos culturais'. Pelo amor de Deus, não são aspectos culturais! São crimes!”, indigna-se Yasmin. Para ela, tal desvio de interpretação serve, intencionalmente, como incentivo à xenofobia, à islamofobia e às guerras. “O apedrejamento não é uma aspecto cultural, é uma síndrome anti-cultural sem respaldo religioso, um crime cometido por um governo criminoso”, dispara.


O curioso de tudo isso é que, de acordo com Márcia, o primeiro Código de Direitos Humanos do mundo de que se tem notícias foi o Cilindro de Ciro, da Pérsia Antiga, de 538 a.C. “É uma contradição porque esses reis do império persa eram conhecidos pela tolerância em relação aos inimigos, às liberdades religiosas”, explica.



Outro lado

Esse é um aspecto do caso de Sakineh. Porém, existe outro. “Há demonização do Irã pelo ocidente, pelo Império, os Estados Unidos e a Europa, que eles usam o exemplo da Sakineh para expor o Irã, tendo em vista também seus próprios interesses econômicos na região”, afirma Márcia.


De acordo com ela, as críticas da mídia ocidental não se preocupam com os direitos humanos das minorias naquele país; dentre elas, os curdos, os ba'hai, os homossexuais. Márcia contrapõe o tratamento que a mídia ocidental faz em relação à Arábia Saudita, parceira dos Estados Unidos, a qual não sofre nenhum tipo de condenação pública e que realiza as mesmas práticas que o Irã. “Ninguém pode aceitar o apedrejamento em pleno século 21, é uma prática medieval, mas, por outro lado, é preciso ficar muito atento e não cair nessa armadilha”, explica.


A indignação do governo estadunidense e de sua mídia é extremamente seletiva. É o que pensa o sociólogo Lejeune Mirhan; “são dois pesos e duas medidas”, resume. “Quantas mulheres iraquianas, palestinas e afegãs são diariamente estupradas por soldados americanos e israelenses e ninguém é punido por isso?”, questiona.


Para ele, o desgaste criado a partir do caso Sakineh funciona para colocar ainda mais a opinião pública internacional contra a nação persa, tentando convencer as pessoas de que, como no Iraque e no Afeganistão, poderemos acreditar em mais uma guerra contra o terror, “visando ataques que possam estar sendo inclusive preparados”.


Virgílio Arraes, professor de relações internacionais da UnB, exemplifica a situação por meio de um fato midiático, em que é possível apreender o “peso” crítico utilizado pela mídia estadunidense quando se refere a direitos humanos no Oriente Médio. “Há poucos dias, a Time estampou em sua capa uma moça afegã mutilada por fundamentalistas islâmicos. A reação – correta – do mundo foi o choque. Contudo, o teor da capa insinuava que a situação poderia piorar, caso as tropas norte-atlânticas saíssem do país”, argumenta.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Tese de participação dos EUA no golpe ganha força

Tese de participação dos EUA no golpe ganha força

por Admin última modificação 23/07/2010 15:09

Ex-candidato à presidência afirma que governo atual é dirigido por Washington

Renato Godoy de Toledo

do enviado a Tegucigalpa (Honduras)


Os EUA tentam vender a imagem de que Honduras vive um governo de conciliação, onde não há violação aos direitos humanos e a resistência praticamente não existe. Essa é a visão de Carlos H. Reyes, sindicalista hondurenho e ex-candidato à presidência da República de Honduras, em 2009. Atendendo aos movimentos sociais, Reyes foi um dos candidatos que desistiu do pleito e engrossou o boicote ao processo eleitoral.


Para o sindicalista, o governo de Honduras, desde o golpe de junho de 2009, tem suas ações baseadas nos interesses de Washington, basicamente. “O embaixador dos EUA aqui [Hugo Llorens] é quem dirige o governo. Eles tentam unificar o Partido Liberal para dividir a resistência e continuam aumentando o poder das Forças Armadas, dando- lhes mais armas e dinheiro. Além disso, há dois meses instalaram a segunda base militar no país, em meio a uma zona indígena onde há petróleo e água”, aponta.


Sob essa constatação, Reyes afirma que o golpe em seu país é parte de uma estratégia dos EUA de retomar o controle sobre a América Central.



Zelaya acusa

No aniversário do golpe de Estado em Honduras, o presidente deposto Manuel Zelaya afirmou que as ações que o tiraram do poder foram orquestradas pelos EUA. O país administrado por Barack Obama, inicialmente, mostrou-se contrário ao golpe, mas foi uma das poucas nações a reconhecer as eleições de novembro de 2009. “Tudo indica que o golpe foi orquestrado na base militar de Palmerola, pelo Comando Sul dos EUA, e executado torpemente por maus hondurenhos. O tempo e o apoio público que os EUA terminaram dando ao golpe e àqueles que o executaram confirmam sua participação”, afirma a carta enviada por Zelaya, desde seu exílio na República Dominicana.


O porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Mark Toner, limitou-se a dizer que a declaração do ex-presidente é “ridícula”.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Cuba: Estado e Igreja em parceria

Como entender que o Estado cubano, num país socialista, aceite a mediação da Igreja Católica para libertar presos de consciência, como lá são chamados os presos políticos?


Frei Betto



Como entender que o Estado cubano, num país socialista, aceite a mediação da Igreja Católica para libertar presos de consciência, como lá são chamados os presos políticos?

A figura central nesse processo é o cardeal Jaime Ortega, 73, arcebispo de Havana. Hábil negociador, ele foi vítima, no passado, do sectarismo esquerdista que, sob influência da União Soviética, atiçou a perseguição religiosa. Ainda seminarista, nos anos 60 Ortega foi enviado a um campo de “reeducação ideológica”. Apesar disso, jamais demonstrou ressentimento e nem se aliou aos que deram as costas à Revolução.

O período esquerdista da Revolução cubana - repudiado publicamente por Fidel - congelou as relações Igreja-Estado. Entre 1964 e 1981, bispos e autoridades não se falaram.

Ao me encontrar com Fidel pela primeira vez, em 1980, ele me fez a proposta de intermediar a retomada do diálogo. No ano seguinte, participei da reunião da conferência episcopal, em Santiago de Cuba, quando expus a proposta. Os bispos a acolheram como um sinal positivo. Pouco depois, Fidel os recebeu audiência.

Em 1985, o líder cubano concedeu-me longa entrevista sobre a questão religiosa, publicada sob o título “Fidel e a Religião”. O livro causou impactou na população, cuja religiosidade possui forte raiz sincretista, mescla entre catolicismo e tradições de origem africana. Era a primeira vez que um dirigente comunista no poder abordava o tema da fé de modo respeitoso e, inclusive, admitindo que sua formação religiosa aprimorara-lhe o caráter. Num país de 11 milhões de habitantes, 1,3 milhão de cópias foram editadas até hoje.

Na opinião de um bispo cubano, o livro - tirou o medo dos cristãos e o preconceito dos comunistas. Em 1986, a Igreja promoveu o Encontro Eclesial Cubano, versão local de um miniconcílio para traçar novas diretrizes pastorais.

O bom entendimento entre Igreja e Estado viu-se subitamente interrompido pela queda do Muro de Berlim. O cardeal Law, de Boston, ao pregar o retiro dos bispos, insistiu que o efeito dominó da falência do socialismo não pouparia Cuba e os bispos, à semelhança do episcopado polonês, deveriam se assumir como novos Moisés capazes de conduzir o povo à democracia...

Em janeiro de 1990, Fidel veio ao Brasil à posse do presidente Collor. Fui ao seu encontro em Brasília. Insisti na continuidade do diálogo e, pouco depois, desembarquei em Havana para entrevistar-me com Jaime Ortega. Foi a primeira e única vez que o vi pessimista. Não acreditava que o governo tivesse boas intenções. Talvez esperasse, para breve, o fim da Revolução.

Cuba não foi atingida pelo furacão neoliberal que assolou o Leste europeu e uma série de circunstâncias favoreceu a visita do papa João Paulo II ao país, em 1998. Fidel convidou a mim e a um grupo de teólogos, entre eles Leonardo Boff, para assessorá-lo no decorrer da visita papal. Cabia-nos “decifrar” a linguagem e os protocolos eclesiásticos.

O êxito da viagem - o papa não condenou o regime cubano, como queria Bush, e elogiou suas conquistas sociais - e a empatia que se criou entre Fidel e Woityla reabriram os canais de diálogo. Porém, Fidel, por razões de saúde, se afastou do comando do governo em 2006, quando então Raúl Castro assumiu.

Intensifiquei minhas viagens a Havana para aprofundar a questão religiosa com Raúl e Caridad Diego, chefe da Oficina de Assuntos Religiosos (uma espécie de Ministério do Culto). Decidiu-se comemorar, em março último, os 25 anos de lançamento de “Fidel e a Religião”. Todas as denominações religiosas atuantes no país foram convidadas. Raúl esteve presente e lamentou que nenhum bispo católico tivesse comparecido.

Na mesma noite, jantamos juntos. Falamos da ação pastoral da Igreja Católica junto aos prisioneiros e de como a Revolução só teria a ganhar com a libertação dos presos de consciência, sem acusações de delitos de sangue ou atos terroristas.

A 10 de maio Raúl Castro recebeu, pela primeira vez, o cardeal Jaime Ortega. A conversou prolongou-se por cinco horas. O arcebispo solicitou a transferência dos presos para locais próximos às suas famílias e mostrou a disposição da Igreja em colaborar para que fossem anistiados. O governo considerou que valia a pena apostar na proposta do cardeal e, assim, evitar gestos extremistas, de ampla repercussão internacional, como greves de fome levadas às últimas consequências.

Jaime Ortega nada tem de progressista e, muito menos, de anticomunista. Seu papel, como pastor, é criar condições favoráveis à evangelização do povo cubano. E ele sabe que iniciativas humanitárias como a libertação de prisioneiros não apenas reforçam o prestígio da Igreja mas, sobretudo, testemunham profunda fidelidade ao Evangelho. E, de quebra, dão provas da tolerância da Revolução.

O que tanto a Igreja quanto o Estado mais esperam, agora, é que Obama liberte os cinco cubanos presos nos EUA, desde 1998, acusados de espionagem. Esta a condição para a retomada de um diálogo positivo entre Washington e Havana, tendo em vista a suspensão do bloqueio imposto pelos EUA a Cuba.



Frei Betto é escritor, autor do romance “Um homem chamado Jesus” (Rocco), entre outros livros.

www.freibetto.org - twitter: @freibetto

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Profissão das minorias

Profissão das minorias

por cristiano última modificação 16/07/2010 14:03

Entre os operadores de telemarketing, predominam jovens, mulheres, negros e homossexuais

As pesquisas relacionadas ao setor de telemarketing revelam dados inquietantes. Entre os operadores, há uma predominância massiva de jovens e de mulheres. Além disso, o índice de negros, obesos, homossexuais, transexuais e deficientes físicos é acima da média em outras categorias. Enquanto empresários do setor louvam tal perfil, afirmando que o setor seria mais “democrático”, os estudiosos não são tão otimistas. As causas da constatação revelariam distúrbios sociais, além de novos indícios de precarização do trabalho. O motivo principal do predomínio de setores sociais marginalizados seria a invisibilidade permitida aos operadores.

Do outro lado da linha, os potenciais clientes não percebem se o trabalhador é negro, homossexual ou obeso. E, por não encontrarem oportunidade em carreiras mais valorizadas, esses setores terminam por se contentar com o telemarketing. Como não existe uma perspectiva de carreira, eles estão condenados a permanecer na função. Transexuais afirmaram, em entrevista para a pesquisa, que se não puderem trabalhar nos setores que tradicionalmente os emprega – moda, por exemplo – eles não têm tantas opções.

O predomínio de jovens entre os operadores é fácil de se explicar – a profissão não exige grandes qualificações. Porém, o dado que mais impressiona é a presença de mulheres. Segundo estudos, de 76% a 85% dos trabalhadores são do gênero feminino. Segundo a socióloga Selma Venco, isso se dá por conta “de uma construção social histórica sobre a presença da mulher no trabalho”. Consideradas mais dóceis e delicadas, seriam mais capazes de dar tratamento adequado aos clientes. Os homens ficariam com o cargo de chefia (os dados revelam, inclusive, que homens abandonam com maior frequência a função de operador).

Para Claudia Mazzei Nogueira, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), não há uma predominância das mulheres apenas nesse setor. Todas as profissões com jornada parcial demandariam trabalho feminino. Por permitir maior tempo às tarefas domésticas, as carreiras seriam ideais às mulheres. “E a própria mulher legitima essa situação. Ela acha satisfatório, porque pode cuidar dos filhos”, lamenta. A predominância de homossexuais também teria relação com o jeito dócil de tratar o cliente.

terça-feira, 22 de junho de 2010

O Estatuto da Democracia Racial

Fruto de um acordo espúrio entre os senadores Paulo Paim (PT) e Demóstenes Torres (DEM) e o ministro da Seppir, Elói Ferreira, significou alta traição à luta do povo negro

Douglas Belchior

Mais uma vez, os senhores determinaram a regra, a lei e os limites da existência e da sobrevivência dos negros no Brasil. O dia 16 de junho de 2010 entra para a história, cinco séculos após a chegada dos primeiros africanos escravizados nestas terras e 122 anos após o fim da escravidão. Encerra-se mais um triste capítulo da luta entre senhores brancos racistas versus escravizados negros e pobres. Desta vez, nas salas acarpetadas do Senado Federal, em Brasília.


Em tramitação desde 2003, o chamado Estatuto da Igualdade Racial, apresentado pelo Senador Paulo Paim (PT), animou a esperança de o Estado Brasileiro finalmente iniciar um processo de reparação aos descendentes da escravidão no Brasil. No entanto, nesses difíceis anos de debate e enfrentamento aos que resistiam à sua aprovação, a proposta original sofreu muitas alterações que esvaziaram a possibilidade de eficácia e o sentido reparatório.


Ainda em 2009, alterações feitas na Câmara Federal rebaixaram o Estatuto para uma condição “autorizativa”, além de não garantir recursos para sua execução. Com isso, os gestores públicos já não seriam obrigados a colocá-lo em prática.


O Estatuto da Igualdade Racial aprovado pelo Senado neste dia 16 de junho foi ainda mais fundo no poço da hipócrita democracia racial brasileira. Fruto de um acordo espúrio entre o senador Paulo Paim (PT), o senador Demóstenes Torres (DEM), relator do projeto e presidente da CCJ no Senado, e o Ministro da Seppir, Elói Ferreira (representante dos interesses do ex-titular da pasta Edson Santos), significou alta traição à luta do povo negro no Brasil.


O acordo que possibilitou a aprovação do Estatuto (e que será usado como bandeira no processo eleitoral tanto pelo PT quanto pelo DEM), simplesmente enterrou as reivindicações históricas do povo negro, uma vez que o texto aprovado excluiu as Cotas para negros nas universidades, nos partidos e nos serviços públicos; excluiu a garantia do direito a titulação das terras quilombolas; excluiu a defesa e o direito a liberdade de prática das religiões de matriz africanas e não fez referência a necessidade de atenção do Estado ao genocídio cometido pelas polícias que vitimam a juventude negra.


Pior ainda que a supressão destas demandas, o texto de Demóstenes do DEM – aceito por Paim e pela Seppir, negou-se a reconhecer os efeitos dos mais de 350 anos de escravidão e a existência de uma identidade negra no país!


O Senador Demóstenes Torres, representante dos senhores, do agronegócio e dos ruralistas, é o mesmo que durante a audiência pública sobre cotas no STF, realizada em março deste ano, afirmou que as mulheres negras escravizadas se entregavam ao deleite sexual com seus senhores. Este homem, conservador e racista, é o padrinho do Estatuto da Igualdade Racial aprovado no Senado e que agora segue para sanção do presidente Lula. Tudo isso sob a égide da submissão dos negros da Seppir e do parlamento, que nem de longe representam as aspirações dos movimentos da luta negra no Brasil.


Aliás, mesmo sob pressão de importantes organizações do Movimento Negro - entre as quais, o Movimento Negro Unificado (MNU), o Coletivo de Entidades Negras (CEN), o Círculo Palmarino, a UNEafro-Brasil - e do Movimento Social, como o Tribunal Popular, o MST e a Federação Nacional das Associações de Moradores, que encaminharam Carta Aberta ao Senado pedindo a retirada do projeto do Estatuto, e mesmo da posição contrária da CONEN, organização negra que agrega militantes petistas, a Seppir, Paulo Paim e deputados historicamente ligados a luta racial, como Janete Pietá e Vicentinho, sucumbiram. Reafirmando sua índole traiçoeira, o parlamento aproveitou a comoção provocada pela copa do mundo para articular o golpe do Estatuto do DEM.


Há informações de que haverá uma festa no momento da sanção presidencial. Festa na Casa Grande, com a presença dos escravos de dentro que, uma vez mais, hão de se lambuzar e saciar sua fome individual com os restos do banquete. Brancos, ricos e poderosos ao lado de negros bem educados e emergentes. A coroação perfeita da democracia racial brasileira.


Enquanto isso, nas senzalas, cabe aos movimentos combativos continuar a luta, certos de que qualquer mudança concreta deste país rumo à justiça e igualdade passa necessariamente pelas mãos calejadas e ensaguentadas do povo negro brasileiro.



Douglas Belchior é prof. de história e membro do Conselho Geral da Uneafro-Brasil.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Cuba é uma ditadura?

Essa discussão é um capítulo importante na agenda da contra-ofensiva à hegemonia do pensamento de direita.

Breno Altman


O novo presidente do PT, José Eduardo Dutra, em entrevista ao jornalista Fernando Rodrigues (Folha de S.Paulo), no último dia 11/02, respondeu afirmativamente à pergunta que faz as vezes de título desse artigo. Com ressalvas de contexto, identificando no longo bloqueio norte-americano uma das causas do que chamou de “fechamento político”, Dutra assumiu a mesma definição dos setores conservadores quando abordam a natureza do regime político existente na ilha caribenha.

Essa discussão é um capítulo importante na agenda da contra-ofensiva à hegemonia do pensamento de direita. Afinal, a possibilidade do socialismo foi estabelecida pelos centros hegemônicos não apenas como economicamente inviável e trágica, mas também como intrinsecamente autoritária.

Quando o colapso da União Soviética permitiu aos formuladores do campo vitorioso declarar o capitalismo e a economia de livre-mercado como o final da história, de lambuja também fixaram o sistema político vigente na Europa Ocidental e nos Estados Unidos como a única alternativa democrática aceitável.

Não foram poucos os quadros de esquerda que assumiram esse conceito como universal e abdicaram da crítica ao funcionamento institucional dos países capitalistas. Alguns se arriscaram a ir mais longe, aceitando esse modelo como paradigma para a classificação dos demais regimes políticos.

Na tradição do liberalismo, base teórica da democracia ocidental, a identificação e a quantificação da democracia estão associadas ao grau de liberdade existente. Quanto mais direitos legais, mais democrático seria o sistema de governo. No fundo, democracia e liberdade seriam apenas denominações diferentes para o mesmo processo social.

Pouco importa que o exercício dessas liberdades seja arbitrado pelo poder econômico. As disputas eleitorais e a criação de veículos de comunicação, por exemplo, são determinadas em larga escala pelos recursos financeiros de que dispõem os distintos setores políticos e sociais.

No modelo democrático-liberal, afinal, os direitos formais permitem o acesso irrestrito das classes proprietárias ao poder de Estado, que podem usar amplamente sua riqueza para mercantilizar a política e seus instrumentos, especialmente a mídia. Basta acompanhar o noticiário político para se dar conta do caráter cada vez mais censitário da democracia representativa.

A revolução cubana ousou ter entre suas bandeiras a criação de outro tipo de modelo político, no qual a democracia é concebida essencialmente como participação popular. Ao longo de cinco décadas, mesmo com as dificuldades provocadas pelo bloqueio norte-americano, forjou uma rede de organismos que mobilizam parcelas expressivas de sua população.

A maioria dos cubanos participa de reuniões de células partidárias, do comitê de defesa da revolução de sua quadra, dos sindicatos de sua categoria, além de outras organizações sociais que fazem parte do mecanismo decisório da ilha. Não são somente eleitores que delegam a seus representantes a tarefa de legislar e governar, ainda que também votem para deputados – o regime cubano é uma forma de parlamentarismo. Esse tipo de participação talvez explique porque Cuba, mesmo enfrentando enormes privações, não seguiu o mesmo curso de seus antigos parceiros socialistas.

O modelo cubano não nasceu expurgando seus opositores ou instituindo o mono-partidarismo. Poderia ter se desenvolvido com maior grau de liberdade, mas teve que se defender de antigos grupos dirigentes que se decidiram pela sabotagem e o desrespeito às regras institucionais como caminhos para derrotar a revolução vitoriosa. Na outra ponta, as diversas agremiações que apoiavam a revolução (além do Movimento 26 de Julho, liderado por Fidel, o Diretório Revolucionário 13 de Março e o Partido Socialista Popular) foram se fundindo em um só partido, o comunista, oficialmente criado em 1965.

Os círculos contra-revolucionários, patrocinados pelo governo democrata de John Kennedy, organizaram a invasão da Baía dos Porcos em 1961. Aliaram-se a CIA em algumas dezenas ou centenas de tentativas para assassinar Fidel Castro e outros dirigentes cubanos. Associados a seguidas administrações norte-americanas, criaram uma situação de guerra e passaram a operar como braços de um país estrangeiro que jamais aceitou a opção cubana pela soberania e a independência.

A restrição das liberdades foi a salvaguarda de uma nação ameaçada, vítima de uma política de bloqueio e sabotagem que já dura meio século. Os Estados Unidos dispõem de diversos planos públicos, para não falar dos secretos, cujo objetivo é financiar e apoiar de todas as formas a oposição cubana. Vamos combinar: já imaginaram, por exemplo, o que ocorreria se um setor do partido democrata recebesse dinheiro cubano, além de préstimos do serviço de inteligência, para conquistar a Casa Branca?

Claro que o ambiente de guerra e a redução das liberdades formais impedem o desenvolvimento pleno do modelo político fundado pela revolução de 1959. Vícios de burocratismo e autoritarismo estão presentes nas instâncias de poder. Mas ainda nessas condições adversas, o governo cubano veio institucionalizando interessante sistema de participação popular. O contrapeso ao modelo de partido único, opção tomada para blindar a revolução sob permanente ataque, é um sistema de organizações não-partidárias que exercem funções representativas na cadeia de comando do Estado.

A Constituição de 1976, reformada em 1992, estabeleceu o ordenamento jurídico do modelo. Um dos principais ingredientes foi a criação do Poder Popular, com suas assembléias locais, municipais, provinciais e nacional. Seus representantes são eleitos em distritos eleitorais, em voto secreto e universal. Os candidatos são obrigatoriamente indicados por organizações sociais, em um processo no qual o Partido Comunista não pode apresentar nomes – aliás, ao redor de 300 dos 603 membros da Assembléia Nacional não são filiados comunistas.

O Poder Popular é quem designa o Conselho de Estado e o Conselho de Ministros, principais instâncias executivas do país, além de aprovar as leis e principais planos administrativos. Seus integrantes não são profissionais da política: continuam a desempenhar suas atividades profissionais e se reúnem, em âmbito nacional, duas vezes ao ano para deliberar sobre as principais questões.

A Constituição também prevê mecanismos de consulta popular. Dispondo desse direito, o dissidente Oswaldo Payá, líder do Movimento Cristão de Libertação, reapresentou à Assembléia Nacional do Poder Popular, em 2002, uma petição com 10 mil assinaturas para que fosse organizado referendo que modificasse o sistema político e econômico na ilha.

O governo reuniu 800 mil registros para propor outro plebiscito, que tornava o socialismo cláusula pétrea da Constituição. Teve preferência pela quantidade de assinaturas. Cerca de 7,5 milhões de cubanos (65% do eleitorado), apesar do voto em referendo ser facultativo, votaram pela proposta defendida por Fidel Castro.

Tratam-se apenas de algumas indicações e exemplos de que o novo presidente petista pode ter sido um pouco apressado em suas declarações. As circunstâncias históricas levaram Cuba a restringir liberdades. Mas seu sistema político deveria ser analisado com menos preconceito, sem endeusamento do modelo liberal, no qual a existência de direitos formais amplos não representa garantias para um funcionamento democrático baseado na participação popular.


Breno Altman é jornalista e diretor do sítio Opera Mundi (www.operamundi.com.br)

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Gaza à beira de um colapso energético por causa do bloqueio israelense

Gaza à beira de um colapso energético por causa do bloqueio israelense

Autoridades alertaram que a única estação elétrica da Faixa de Gaza ficará fora de serviço esta noite, em meio a um rigoroso inverno, se persistir a escassez de combustível causada pelo bloqueio

Autoridades de Gaza alertaram, nesta sexta-feira (05), que a única estação elétrica da Faixa ficará fora de serviço esta noite, em meio a um rigoroso inverno, se persistir a escassez de combustível causada pelo bloqueio por parte de Israel. Segundo um comunicado da Autoridade de Energia de Gaza, na manhã do sábado (06) serão paralisadas as operações da estação geradora de eletricidade devido ao impedimento de entrada de combustível que Tel Aviv mantém a esta Faixa palestina, relatou uma nota da Prensa Latina.


A nota oficial pede aos prefeitos das cidades, ao Ministério da Saúde e às duas maiores companhias de telecomunicações para “se preparem para o pior”, depois do corte entre 30 e 40% no serviço da região na noite da quinta-feira (04).


O governo encabeçado pelo Movimento de Resistência Islâmica (Hamas) sofre um bloqueio fronteiriço agravado por Israel desde junho de 2007. As autoridades locais lembraram que a repentina frente fria na região os obrigou a gastar o combustível que havia de reserva mais rápido do que o previsto.


Na quinta-feira, os israelenses não permitiram a passagem de caminhões-pipa com combustível pelo cruzamento fronteiriço em Karni (norte), denunciou o funcionário palestino Raed Fattouh. Ele acrescentou que os volumes de gás doméstico e diesel transferidos pela fronteira de Kerem Shalom (sudeste) também não foram os requeridos para manter em operação por outra semana a estação elétrica, que agora só usa um de seus quatro geradores funcionais. “Esse gerador, habitualmente, fornece eletricidade para a maioria dos 1,5 milhões de palestinos em Gaza durante 16 horas diárias porque não há combustível suficiente para que trabalhe por 24 horas”, explicou Fattouh.


A população, entretanto, passou a armazenar combustível para manter funcionando geradores privados de edifícios e instituições, mas o nível de carência e a drástica queda das temperaturas fazem que muitos lugares tenham problemas com a calefação.


O combustível entra legalmente em Gaza, a partir de Israel, por Kerem Shalom, no sul. A estação elétrica só pode usar diesel industrial israelense, mas a população utiliza também o que chega de contrabando do Egito através de túneis fronteiriços.


Tradução: Michelle Amaral

domingo, 31 de janeiro de 2010

Camponeses e população de periferia denunciam a poluição da Coca-Cola

Camponeses e população de periferia denunciam a poluição da Coca-Cola

por Admin última modificação 28/01/2010 11:32

Fábrica que contamina o Córrego das Pedras, no Espírito Santo, está construindo nova tubulação para jogar o efluente em outro rio
Winnie Overbeek
de Linhares (ES)

Revoltados com o avanço da poluição de suas águas, cerca de 100 manifestantes denunciaram em Linhares, norte do Espírito Santo, a contaminação do Córrego das Pedras, causada pela empresa de fabricação de sucos, a Mais Indústria de Alimentos, propriedade da transnacional Coca-Cola. A empresa é conhecida pela marca Minute Maid Mais, transformado recentemente na marca Del Valle Mais.

O protesto realizado no último dia 23 de janeiro mobilizou as famílias da comunidade do bairro Santa Cruz, vizinho à fábrica no município de Linhares, e famílias rurais camponesas ligadas ao Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA).

A fábrica que já contamina o Córrego das Pedras, afetando alguns agricultores e o bairro Santa Cruz, está construindo uma nova tubulação para poder jogar o efluente (produtos poluentes produzidos pela indústria lançado no meio ambiente) em um córrego limpo que tem contato direto com dezenas de lagoas naturais na região. Centenas de agricultores temem a contaminação deste córrego, já que pode afetar as fontes de água que usam para irrigação e para o consumo humano.

A nova fonte de contaminação afetará diretamente os pequenos agricultores da região, que já sofrem dos impactos da expansão da monocultura da cana em larga escala, realizada pela empresa Lasa. Uma das agricultoras, Cristina Soprani, explica que “o grande objetivo do movimento hoje é produzir comida limpa, comida saudável. E para isso, a gente precisa essencialmente da água, e da água preferencialmente limpa”.


A poluição avança

O problema começou em 2003 quando a empresa chamada Sucos Mais iniciou o lançamento de efluentes no Córrego das Pedras, que passa por algumas propriedades rurais e depois pelo bairro Santa Cruz. Desde então, os moradores do bairro sofrem com o mau cheiro. Uns dos agricultores mais afetados, os irmãos Zanetti, tiveram sua produção de café reduzida de 1500 para 60 sacas e não podem mais tomar água do poço na propriedade.

As reclamações feitas ao longo dos anos surtiram pouco efeito. E depois da compra do empreendimento pela Coca-Cola em 2006, a situação se agravou ainda mais. Segundo os dados do Instituto Estadual de Meio Ambiente (IEMA), a empresa requereu licença de ampliação da produção exatamente em 2006, visando a produzir outras bebidas como chás, bebidas mistas de sucos de frutos com soja, bebidas lácteas, preparados líquidos, entre outros, objetivando produzir mais 900 mil litros por mês. Apesar das denúncias, o IEMA tem concedido e renovado o licenciamento ambiental da empresa.

Em 2007, devido à situação de calamidade do Córrego das Pedras, a família dos irmãos Zanetti procurou o Ministério Público na cidade de Linhares denunciando a situação. A promotora de meio ambiente na época, Carina Jovita de Sá Santos, resolveu solicitar um laudo técnico realizado pelo IBAMA. O laudo, de 14 de julho de 2008, concluiu “uma inequívoca vinculação da degradação da qualidade ambiental do córrego “rio das Pedras” ao lançamento dos efluentes da empresa”, sobretudo no “período de junho a setembro de 2007”. O laudo constatou ainda que a Mais Indústria de Alimentos S/A, por ter poluído o Rio das Pedras e descumprindo a Licença de Operação 27/200, tinha infringido artigos 41 e 44 do decreto 3.179/99, constituindo também crime contra o meio ambiente. Posteriormente foi aberta ação criminal que tramita na 3ª Vara Criminal.

Em função do laudo do IBAMA, o Ministério Público do Espírito Santos ingressou com Ação Civil Pública para responsabilizar a empresa pelo dano ambiental. No entanto, Ministério Público e empresa resolveram celebrar um acordo sugerindo melhorias no tratamento do efluente num prazo de 120 dias.

Considerando, dentre outros, que o Córrego das Pedras continuava apresentando baixa qualidade de água, o Ministério Público resolveu celebrar no dia 27 de agosto de 2009 outro acordo contendo obrigações como apresentar dentro de um prazo de 90 dias “projeto de adequação a ser realizada para regularização do sistema de tratamento de efluentes industrial atualmente existentes na empresa”, além de “apresentar, ao IEMA, e implementar após aprovação projeto de recuperação das áreas adjacentes que possam ter sido objeto de degradação pelas obras de colocação das manilhas, no ponto de lançamento de efluentes da empresa”.

Porém, segundo os manifestantes, o efluente continua sujo e a prometida recuperação não foi realizada. “A gente percebe que o governo municipal, governo estadual, dá concessão às empresas e que os órgãos ambientais fazem todo o processo de licenciamento, e aí a gente fica se perguntando: onde fica a vida?”, reclama Cristina Soprani.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Terremoto é desastre natural, mas a pobreza extrema, não

Terremoto é desastre natural, mas a pobreza extrema, não

Eduardo Sales de Lima

e Igor Ojeda

da Redação

terremoto_haiti_devastação.gifAs imagens das TVs de todo o mundo mostram um verdadeiro inferno. Destruição total, corpos estirados, homens e mulheres aos prantos. Os relatos dos repórteres nos jornais que foram a campo não são diferentes. Saques a supermercados, violência, desespero.


Quase em uníssono, os meios decretaram: os efeitos do terremoto de 7 graus na escala Richter ocorrido no dia 12 no Haiti são ainda mais graves devido à extrema pobreza em que vive a população do país, o de menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do hemisfério ocidental. A análise um tanto óbvia não é incorreta, mas a imprensa em geral “esqueceu-se” de explicar o porquê de tanta miséria, praticamente naturalizando o subdesenvolvimento acentuado do Haiti.


“É preciso que se diga que se, de fato, as causas da tragédia são naturais, nem todos os efeitos o são”, opina Aderson Bussinger Carvalho, advogado e ex-conselheiro da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) que visitou o país em julho de 2007. “É preciso saber que indústrias exploram a mão-de-obra barata haitiana, cujos produtos são exportados para o mercado dos EUA, assegurando imensos lucros que não se revertem em favor do povo. As casas construídas somente com areia, a ausência de hospitais, a falta de luz e água... tudo isso vem de antes do terremoto”, afirma.


Pobreza extrema

Atualmente, 80% dos haitianos vivem abaixo da linha de pobreza, sendo que 54% se encontram na extrema pobreza. A mortalidade infantil é de cerca de 60 mortes para cada mil nascimentos (no Brasil, a proporção está em torno de 22 para mil), a expectativa de vida é de 60 anos e o analfabetismo atinge 47,1% da população.


Além disso, o país sofre com a falta de infra-estrutura e indústria nacional. As estradas são bastante precárias, assim como as áreas de energia, telecomunicações e transporte. Dois terços dos haitianos dependem da agropecuária para sobreviver, enquanto apenas 9% trabalham em fábricas, em sua maioria nas chamadas maquiladoras, unidades especializadas em produção de manufaturados para exportação que se utilizam de mão-de-obra barata. “Durante o ano de 2009, percorremos todo o Haiti. Nossa brigada percorreu dez departamentos e conhecemos a situação de pobreza em que vive a imensa maioria da sociedade haitiana”, relata José Luis Patrola, militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e integrante da Brigada Internacionalista Dessalines da Via Campesina, que atua com as organizações camponesas do país.


Triste e estranha realidade para uma nação que foi a segunda das Américas a se tornar independente (da França) e a primeira a abolir a escravidão, em 1804. Ou seja, que tinha tudo para oferecer uma vida digna para seus habitantes.


Construção histórica

“A pobreza extrema do Haiti é uma construção histórica bi-centenária, produto da incessante intervenção colonialista e imperialista, em boa parte devido precisamente a ter sido o Haiti a primeira e única nação negreira onde os trabalhadores escravizados insurrecionados obtiveram a liberdade. Isso após derrotar expedições militares francesa, inglesa e espanhola”, explica Mário Maestri, historiador e professor do Programa de Pós Graduação em História da Universidade de Passo Fundo (UPF), no Rio Grande do Sul.


Segundo ele, a partir de então, o Haiti passou a ser temido pelos EUA, pois poderia servir como exemplo aos escravos estadunidenses. Assim, o país passou a “ser objeto de bloqueio quase total, desde seus primeiros anos, pelas nações metropolitanas e americanas independentes. Já em 1825, foi obrigado a pagar, sob pena de agressão militar, pesadíssima indenização à França. Conheceu nas décadas seguintes intervenções militares dos EUA, que, mesmo após a desocupação, em 1934, transformaram o país em semi-colônia, sobretudo através das sinistras ditaduras dos Duvaliers, Papa-Doc e seu filho [entre 1957 e 1986]”.


De acordo com Osvaldo Coggiola, professor de História Contemporânea da Universidade de São Paulo (USP), o Haiti não é uma exceção na região em que se encontra, mas um caso extremo da dominação imposta pelos países centrais do capitalismo. Assim, para ele, “atribuir seus males à incapacidade da sua população, descendente de escravos forçados a trabalhar na ilha pelos colonialistas franceses, é um conceito abertamente racista. A classe dominante, ela sim, é corrupta até a medula. Se chegar ajuda para o governo local, vão roubar, para vender e chantagear a população”.


Casas amontoadas

Além da pobreza, outro fator vem sendo apontado como potencializador dos efeitos do terremoto, embora ambos estejam fortemente vinculados: a grande quantidade de pessoas vivendo nas cidades (especialmente na capital, Porto Príncipe) em casas amontoadas e construídas precariamente, o que fez com que desabassem mais facilmente. Segundo Patrola, o desastre deixou evidente a precaridade do sistema urbano no Haiti. “Porto Príncipe e as favelas de Cité Soleil e Bel-air foram construídas de forma espontânea com a ausência de recursos mínimos de construção civil. Isso potencializou a destruição”.


Aqui, outra triste e estranha realidade: como se explica que um país cuja agricultura representa 28% do PIB (no Brasil, esse índice é de 7%) possua um índice de êxodo rural tão acentuado e tenha 47% de sua população vivendo na zona urbana?


“Pela eliminação das culturas agrárias locais pelos produtos importados, inclusive os das famosas 'ajudas internacionais'. O subdesenvolvimento eliminou as florestas locais, pois o carvão é quase a única fonte de energia no interior. Em 1970, o Haiti era quase auto-suficiente em alimentação, hoje importa 60% do que come”, responde Osvaldo Coggiola. Segundo dados da ONU, entre 2005 e 2010, a população das cidades haitianas cresceu 4,5% por ano.


Migração

O historiador Mário Maestri explica que a revolução de 1804 teve como consequência a divisão dos latifúndios existentes em lotes familiares, que retomaram as tradições camponesas africanas, proporcionando uma independência alimentar. No entanto, “as intervenções imperialistas, com a colaboração das frágeis e corruptas elites negras e mulatas, desdobraram-se para metamorfosear a agricultura familiar-camponesa em mercantil. Levantes camponeses foram duramente reprimidos, para reconstituir a grande propriedade”, diz.


Patrola, da brigada da Via Campesina no Haiti, responsabiliza ainda as políticas neoliberais mais recentes pelo “desmonte” do campo. “A abertura comercial está destruindo a agricultura haitiana. O Haiti é o quarto importador de arroz dos Estados Unidos”, diz.


O resultado de todo esse processo vem sendo uma grande migração para a cidade. E hoje, de acordo com Maestri, as enormes massas de miseráveis urbanos são vistas como mão-de-obra extremamente barata para as indústrias maquiladoras que se estabeleceram no Haiti.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Uma tensão fomentada por interesses

por Admin última modificação 23/11/2009 15:18

Em entrevista, Alexander Mosquera, professor da Universidade de Zulia, Venezuela, alerta para o crescente tensionamento entre os dois países, especialmente fomentado pelos meios de comunicação



Dafne Melo, a Redação


Alexander Mosquera professor do Departamento de Ciências Humanas da Universidade de Zulia, Venezuela, tem nas análises de discurso político seu tema de pesquisa. Em entrevista ao Brasil de Fato o professor venezuelano da cidade de Maracaibo alerta para o crescente tensionamento entre Colômbia e Venezuela, especialmente fomentado pelos meios de comunicação.


“Uribe se alinhou à política dos Estados Unidos, tanto que Chávez se manifestou contra a política bélica, terrorista e intervencionista dos norteamericanos, e juntamente afirma a soberania da Venezuela e a construção de um mundo multipolar, onde há espaço para todos e acabam-se as exclusões. Essa é a razão pela qual um terceiro mandato de Uribe é visto com muito bons olhos pela imprensa do norte”, afirma o professor.


Você acredita que há um aumento das tensões entre Venezuela e Colômbia nos últimos anos?

Alexander Mosquera: Acredito que nos últimos anos tem se acentuado a tensão entre ambos os países, sobretudo desde que a Colômbia embarcou nessa aventura com os Estados Unidos que chamam de “Plano Colômbia”, através da qual se fez mais evidente a entrega da soberania neogranadina aos norteamericanos, sob a desculpa de combater a guerrilha, o terrorismo e o narcotráfico.


Essa cessão dos direitos do povo colombiano é mais palpável hoje em dia, à luz do recente convênio que dá carta branca ao exército dos Estados Unidos para não somente utilizar sete bases militares, mas também atuar a seu livre arbítrio (eles chamam isso de "imunidade") e sem se submeter em nada às leis nem à Constituição da nação que, sem dúvida alguma, está sofrendo intervenção. Isso tem acendido o alarme não somente na Venezuela mas em toda a América Latina, em vista do perigo que historicamente tem significado esse intervencionismo estadunidense em nossas nações, o que tem feito a Colômbia desempenhar o papel de valente e assim tem se manifestado com ações como o sequestro de Rodrigo Granda na Venezuela ou o bombardeio de guerrilheiros no solo equatoriano, além da advertência que há pouco lançaram de que haverá outras incursões deste tipo no futuro, ao afirmar que o combate ao terrorismo não tem fronteiras. Trata-se de uma afirmação que não é estranha para ninguém, pois seu sócio norteamericano já a fez muito famosa ao empregá-la como /leitmotiv /dos países que tem invadido.


Como a utilização de bases militares colombianas pelos Estados Unidos podem afetar as relações entre os dois países?

Já há uma manifestação concreta da reação da Venezuela ante esse perigo e é o fechamento da fronteira com a Colômbia desde agosto ou o reforço desta com o envio de mais efetivos militares que garantem uma maior presença nas zonas fronteiriças, o que tem um grande impacto no comércio bilateral. Também temos as constantes acusações de espionagem contra a Colômbia, além do chamado que fez o presidente venezuelano Hugo Chávez em seu programa "Alô Presidente" (do domingo, 8 de novembro), ao qual o exército e o povo devem estar preparados para a guerra ante uma iminente agressão impulsionada pelos Estados Unidos desde a Colômbia, ao afirmar que nesta última nação quem governa, na verdade, é o presidente estadunidense Barack Obama.


Na Venezuela, como a população vê o posicionamento do país vizinho? Em outras palavras, como os venezuelanos veem "o outro"?


Apesar do enfrentamento midiático entre ambos os governos, penso que a percepção desse "outro" por parte da população venezuelana segue sendo a do irmão histórico com quem sempre temos estado vinculados em muito bons termos e com quem levamos uma relação natural de estreitos laços. Não podemos esquecer da forte presença de cidadãos colombianos em nosso país, que em muitos casos chegam fugindo do conflito armado de sua nação e que na Venezuela conseguem uma pátria que os tem acolhido sem advertência alguma e que tem permitido a eles erradicar-se aqui para compartilhar um destino comum.


Como os meios de comunicação na Venezuela e na Colõmbia "contribuem" para aumentar essas tensões?

É indubitável o impacto que os meios de ambas as nações têm tido no crescimento dessas tensões. Toda vez que coincide com uma circunstância histórica vemos uma imprensa privada venezuelana alinhada a qualquer fator que implique oposição ao governo do presidente Hugo Chávez. Isso implica no fundo uma aberta traição à pátria, já que desde que o dito governo se instalou no poder e deixou claro que não seria a marionete dos poderosos grupos econômicos que historicamente dirigiram o país à vontade, esses grupos começaram a sonhar e ainda hoje seguem sonhando com uma intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela para recuperar pela força o poder que lhes foi arrebatado pela via das tantas eleições que se levaram a cabo e que tem referendado a legitimidade do governo venezuelano. Por isso vemos que, de ambas as frentes, a direita internacional se encarrega de acentuar as tensões e assim validam o velho conceito de aparato ideológico de Estado que desde a década de 40 do século passado o investigador Louis Althousser utilizou para assinalar os diversos fatores que contribuem para reproduzir a ideologia dominante de uma sociedade. Neste caso a ideologia da direita imperante na Colômbia e que se manifesta através de seus meios de difusão (favorecidos, além disso, pelos meios venezuelanos da mesma tendência).


Há temores, na Venezuela, de conflitos armados imimentes entre os dois países?

Toda guerra é irracional e por isso eu acredito que sempre existe o temor de que se produza um conflito armado, pois a história tem uma infinidade de exemplos em que essa irracionalidade imperante em governos tem arrastado povos inteiros à guerra. No entanto, creio que essas tensões são somente midiáticas - ao menos até o momento - e que na verdade não há risco de um iminente conflito armado, pois uma coisa são os governos, outra são os povos. Creio que nos povos venezuelano e colombiano não existe essa opção porque historicamente têm sido povos irmãos que têm vivido em paz e é esse o desejo instalado na grande maioria, o que sem dúvida destruirá essas minorias guerreiristas que impulsionam essa aventura louca.


De fato, já há vozes, por exemplo, dentro da Colômbia chamando a mediação da OEA, da ONU e mesmo do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva para que se normalizem as relações entre ambas nações vizinhas. Inclusive o presidente Lula da Silva já se comprometeu a reunir os presidentes Chávez e Uribe em Manaus com o fim de conseguir uma saída para a crise por meio de um diálogo direto.


Como avalia a maneira como a comunidade internacional (sobretudo Estados Unidos e a imprensa corporativa) recebeu a intenção de Chávez de se reeleger pela terceira vez? E como, ao mesmo tempo, receberam a notícia da possibilidade do terceiro mandato de Uribe?

O enfoque que as grandes transnacionais da difusão massiva deram a esse fato revela, mais uma vez, o papel que essas últimas cumprem como instrumentos da propaganda que a direita internacional leva a cabo em geral e a estadunidense, em particular, contra a Venezuela e qualquer contra nação que se atreva a declarar-se soberana e saia das orientações dos governos norteamericanos. Dali a leitura que se dá à aspiração de Uribe como líder que a Colômbia requer, porém no caso de Chávez se vê uma suposta ameaça para a América Latina por razões que são evidentes. Uribe se alinhou à política dos Estados Unidos, tanto que Chávez se manifestou contra a política bélica, terrorista e intervencionista dos norteamericanos, e juntamente afirma a soberania da Venezuela e a construção de um mundo multipolar, onde há espaço para todos e acabam-se as exclusões. Essa é a razão pela qual um terceiro mandato de Uribe é visto com muito bons olhos pela imprensa do norte, enquanto se critica igual aspiração no caso de Chávez e se acusa-o de ser um ditador que quer eternizar-se no poder, quando a realidade é que se trata de um dos governos constitucionais que tem sido mais legitimado no mundo pela via eleitoral.