Tortura é coisa nossa Debate na Biblioteca Nacional discute a trajetória do agente americano Dan Mitrione
Adriano Belisário
Muitos acreditam que a tortura é algo restrito aos capítulos do regime militar nos livros de história brasileira. Ao abordar a trajetória de Dan Mitrione, consultor de segurança americano enviado ao Brasil para treinamento de policiais, o debate 'Biblioteca Fazendo História' deste mês mostrou que a prática é velha no país e continua presente ainda nos dias de hoje.
Realizado em 23 de julho, o debate contou com a presença de Rodrigo Patto Sá Motta, professor da UFMG e autor de artigo na edição de julho da Revista de História da Biblioteca Nacional, Samantha Viz, professora de história da UFF e Jane Quintanilha, representante do grupo Tortura Nunca Mais.
Rodrigo Sá apresentou sua pesquisa sobre Mitrione, que trabalhou para o governo norte-americano durante anos como um observador nada passivo das políticas de segurança pública dos países da América do Sul. O agente chegou ao Brasil na década de 60 e trabalhou em Minas Gerais e no Rio de Janeiro ensinando técnicas que seriam utilizadas para conter os movimentos contestadores, afastando a "ameaça comunista" do continente.
Segundo o pesquisador, há relatos orais que afirmam que Dan treinou o primeiro grupo de policiais para atuação em favelas cariocas.
As atividades de Mitrione eram amplamente divulgadas pela imprensa local. Adepto de intervenções discretas e pontuais, o americano assustava-se com o estardalhaço causado pelas operações da polícia brasileira. Suas contribuições, no entanto, não se restringiram aos cursos onde ensinava técnicas de interrogatório. Ele também foi o responsável pela melhoria na infra-estrutura dos órgãos de segurança brasileiro, trazendo, por exemplo, equipamentos utilizados que seriam utilizados mais tarde na tortura de prisioneiros.
Mesmo reconhecendo a intervenção norte-americana, Samantha destaca que os EUA não são os responsáveis pela introdução da tortura no Brasil. Segundo ela, a prática remonta às epocas coloniais, quando era utilizada contra os escravos. Além disso, há ainda a influência de países como a França, que, graças ao conhecimento adquirido na Guerra da Argélia, foi pioneira no treinamento em tortura na América.
Samantha afirma ainda que a tortura é aceita pelo povo nos dias de hoje, assim como era durante a ditadura. "Precisamos reconhecer nosso papel nisso. A tortura ainda existe, escondida nos 'excessos' dos policiais. Acontece que, hoje, as vítimas são outras, talvez menos simpáticas aos olhos do público do que os presos políticos", analisa a professora da UFF.
Na sua fala, Jane Quintanilha lembrou a importância de abrir os arquivos da ditadura para que se reconheça publicamente os culpados pela tortura durante o governo militar. A opinião é ratificada por Samantha, que completa: "A comunidade acadêmica do Rio de Janeiro não é mobilizada em torno da mudança de leis estaduais que regulam o acesso à documentação existente sobre o tema".
Saiba mais:
Professor de repressão - Assassinado por guerrilheiros uruguaios em 1970, o americano Dan Mitrione já tinha treinado policiais em Belo Horizonte, onde virou até nome de rua. Artigo de Rodrigo Patto Sá Motta. Leia o texto completo na edição de julho nas bancas ou em breve neste site.
Fonte: www.cartacapital.com.br
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