quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Coisas da Globo...

Gps na favela


Bom dia! Assim começa mais um programa na TV Globo para todo País, na manhã do dia 18 de novembro de 2009, quarta-feira. Dos sorrisos dos apresentadores do Bom Dia Brasil as suas expressões de horror na leitura da primeira chamada são gastos dois segundos. “GPS pirata coloca em risco segurança de motoristas”. É a manchete lida com ênfase. Bom, vem aí mais uma reportagem banal e sem grandes utilidades. Mas o que aparentemente seria uma notícia despretensiosa sobre a comercialização de um GPS fora do circuito legalizado, foi um exemplo cristalino da ação da mídia na criminalização da pobreza.

GPS é a sigla de Global Positioning System, isto é, sistema de posicionamento global. É um aparelhozinho portátil que tem a função básica de identificar a localização de áreas, praças, ruas, lugares numa cidade.

Voltando a reportagem. Para começar, o repórter diz: “O preço mais baixo em relação aos outros aparelhos da loja fez a professora Rafaela Lopes escolher um GPS. Mas o barato saiu caro. O aparelho a levou a seguir um caminho errado. Rafaela foi parar dentro de uma favela”. Ou seja, a professora poderia ter ido parar em qualquer lugar do mundo, talvez não fosse nada errado, mas o errado foi parar numa favela.

E o pior não é apenas isso. Na sequência da reportagem, a professora, quase em pânico fala: “Graças a Deus não aconteceu de ser assaltada, mas foi muito próximo. Nada paga estresse, o perigo que eu passei”. Veja só a associação do errado com a favela, com o assalto, com o estresse, com o perigo. E não ficou só nisso. A professora revela com todas as letras outra indignação, além de ter ido parar favela que não tem gente, só criminosos: “Ele (o GPS) diz que vai avisar radar e avisa no lugar errado. Levei multa. Acabou saindo muito caro”. Veja só esse absurdo!

Além do caminho “errado” ser o da favela, onde “a vítima” seria assaltada, onde mora o perigo, o equipamento não serviu para seu objetivo mais explicito: possibilitar andar em altas velocidades no trânsito, fraudar à legislação, alertando para a existência de radares para que motorista se enquadre na velocidade permitida e não seja apenado com multa. Onde está o crime, o perigo?

Mas quem pensa que a reportagem veiculada no Bom Dia Brasil se deu por satisfeita, engana-se. Logo depois do depoimento de horror da professora, o repórter faz questão de lembrar: “Em novembro do ano passado, três noruegueses passaram pela mesma situação. Eles saíram de carro de Búzios, na Região dos Lagos e queriam chegar à Copacabana. O GPS acabou levando os turistas para o conjunto de favelas da Maré. Eles foram atacados a tiros por traficantes. Um deles ficou ferido”.

Viu só? Sem qualquer outra informação que sustente as afirmações, sem qualquer outra apuração, a reportagem retoma um caso de um ano atrás para reforçar a tese associativa de favela com criminalidade. Para a mídia, até o GPS “pirata” serve para formar o consenso, para criar a “opinião pública”, para justificar ações violentas do Estado na favela. Para a grande mídia, lá não mora gente, apenas criminosos que precisam ser exterminados.

Caminhando para o fim da reportagem, o repórter ainda informa: “o taxista Reinaldo Moçale usou um GPS com programa de mapas pirata e também foi parar à noite numa área perigosa da Região Metropolitana do Rio de Janeiro”. Alguém duvida que essa “área perigosa” a que se refere é uma favela? E o taxista citado complementa o quadro: “É quase uma traição. Não é só o risco da minha vida. É a vida do passageiro também”. Alguém já ouviu alguma referência entre Copacabana, Ipanema e áreas perigosas onde se corre risco de morte?

Essa é mais uma ação da mídia do capital, da grande mídia que produz cotidianamente um jornalismo de classe contra a classe dos operários, dos trabalhadores, da juventude da periferia, contra a dignidade das mulheres, dos negros, das minorias. É essa a mídia que a toda hora despeja conteúdos como esses, aparentemente triviais, inocentes, despretensiosos, mas, na essência, carregados de preconceitos de classe.

A reportagem termina no estúdio do Bom Dia Brasil com os apresentadores lembrando que “comprar ou comercializar produtos piratas é crime”.

Cristian Góes é jornalista no INSS do Distrito Federal, com especialização em Gestão Pública (FGV/Esaf). Ex-secretário de Comunicação da Prefeitura de Aracaju e ex presidente do Sindicato dos Jornalistas de Sergipe. É colaborador do NPC (Núcleo Piratininga de Comunicação) e de várias publicações. (cristiangoes@infonet.com.br). Artigo publicado no site da revista Caros Amigos (www.carosamigos.com.br).

Fonte: www.fazendomedia.com


2 comentários:

bobnikiti disse...
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bobnikiti disse...
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